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Machado Maxixe: O Caso Pestana, de José M. Wisnik
Machado Maxixe: O Caso Pestana, de José M. Wisnik

O ELOGIO DA SÍNTESE MULATA

 

Pode agradar ao leitor interessado em literatura e em música no Brasil um ensaio sobre o modo como a obra de Machado de Assis lidou com a aclimatação das formas musicais europeias aqui? Não há dúvida que sim. Machado, como se sabe, frequentou em vários momentos a questão, na crônica, no romance e superiormente em alguns contos; se o ensaio tomar em conta UM HOMEM CÉLEBRE, relato sobre o dilema irresolvido do pianista Pestana – entalado entre o desejo de compor como os clássicos europeus e a vocação de fazer brotar polcas sacudidas já brasileiras –, estamos feitos, já que nesse conto tudo gira, dança, em torno a esse tema.

 

Mas pode agradar este mesmo ensaio se ele não tiver plano de voo explícito e, para piorar, se ele misturar referências teóricas bastante díspares, da história pra e dura do Segundo Império (Luiz Felipe Alencastro) à semiótica (Greimas), passando pela sociologia da arte (Antonio Candido, Roberto Schwarz, Pasta Júnior) e pela psicanálise, mas centrando forças na historiografia e na crítica musicais (Mário de Andrade, Carlos Sandroni, Tinhorão Mammi)? Ainda assim pode, é claro, desde que haja talento na passagem de uma coisa a outra, oferecendo em abundância analítica o que eventualmente falte em amarração teórica. Para ler um conto como o do desventurado Pestana, pode ter bastante cabimento essa combinação heterodoxa de conceitos, ainda quando postos em relação mais pela contiguidade do que por uma estratégia interpretativa de conjunto.

 

Pelos dois lados cabe o elogio ao ensaio MACHADO MAXIXE, agora publicado em livro solo. O autor é José Miguel Wisnik, músico cancionista, professor de Literatura Brasileira, ensaísta de nomeada, que alcança, neste trabalho, um ponto alto de sua carreira. No texto, Wisnik usa de suas múltiplas habilidades e variada formação para apreciar o citado conto de Machado de Assis, assim como, secundariamente, alguns outros (O MACHETE, CANTIGA DE ESPONSAIS e TERPSÍCORE). O resultado é um ensaio variado, denso, de linguagem fluente e grande poder de sugestão, que transcorre tendo como guia geral o desenvolvimento do enredo do conto que é seu objeto. O resultado é ao mesmo tempo agradável e provocador, tendo para a leitura, um quê de onírico – o ensaio se faz ler por associações indiretas, por flutuações entre a literatura e a música e não pela perseguição a uma questão central ou em atenção a um argumento principal. (No terreno específico do debate literário, é notável que Wisnik opere com conteúdos e com significantes, não com estruturas, já no debate sobre música, a estrutura tem lugar, ao lado das outras dimensões.)

 

Há pontos altos e pontos baixos no conjunto – e isso se salienta por se tratar de um texto compósito, sem introdução ou conclusão, em que nem todos os dez capítulos convergem. Dos baixos não interessa falar muito, mesmo porque não são ruins ou mal concebidos, pelo contrário, e apenas assim se mostram em vista da superioridade de outros, estes representando reflexão madura e alcance crítico maior. É o caso do primeiro capítulo, em que o par sucesso e glória é analisado em confronto, tendo em vista os anseios de mercado e os da arte, respectivamente; é também o caso do mais longo segmento, intitulado A POLCA E O MAXIXE, em que o autor alia a leitura do conto à de um conjunto de crônicas, a revelar em Machado uma atenção constante e aguda ao fenômeno da música urbana no Brasil do tempo; acresce ainda nesta parte uma exposição clara sobre as alterações propriamente musicais operadas na polca pela via da sincopação.

 

O ensaio é encantador, no bom sentido, por levar o leitor para zonas de pensamento não cartesiano mediante passagens charmosas, mas também no mau, por obrigar o leitor a acompanhar o fluxo da reflexão sem poder medi-lo em relação a um propósito claro, que não há; assim, sem oferecer clareza quando ao destino desejado, em parte ele mina as possibilidades de debate, justamente por não expor seus interesses de conhecimento; e essa omissão, que, repito, tem lá seus encantos (ainda mais na mão de quem, como Wisnik, escreve bem e opera muito perto do discurso psicanalítico, com as associações-quase-livres entre significantes – a começar do título), só se vê quando se pergunta, por exemplo, pelas escolhas teóricas mais fundadas, mais radicais. Quais são elas?

 

Salvo engano, há apenas uma exclusão e não mais que um par de afirmações no centro dessa resposta. Mantendo em vista que Machado de Assis opera sobre “oposições que não produzem diferença” - fórmula sintética para diagnóstico da peculiaridade brasileira, que Wisnik mantém no horizonte –, o ensaio vai agregando entradas teóricas, mas em significativo momento bronqueia: “Machado trabalha esse substrato coberto de tabu – um tabu sociocultural, político, econômico, racial, sexual, existencial, cujo cerne persistente é difícil de deslindar até hoje, e que a antropologia politicamente correta, tratando-o de maneira unívoca, só faz confirmar e recobrir” (grifo meu). A briga é contra um inimigo teórico que lê este ponto nevrálgico da cultura brasileira de modo errado; que ponto é esse?

 

Dizendo de modo breve e impreciso, é a condição mulata, que Wisnik trata de saudar em seu ensaio, tanto na encarnação machadiana quanto na maxixeira. Nada a estranhar, então, que as afirmações de afinidade envolvam Gilberto Freyre (que porém é “apologético”) e o mais citado de todos, Mário de Andrade, evocado aqui em sua extensa contribuição enciclopédica mas também em uma sua interpretação, mais dialética do que a média, sobre a rítmica brasileira, interpretação que Wisnik aproxima nada menos que da DIALÉTICA DA MALANDRAGEM, conhecido ensaio de Antonio Candido.

 

As razões de Wisnik são substantivas e bem apresentadas, o que não impede alguma arguição – por exemplo, sobre esta evocação de Mário de Andrade como chancelando a saudação de Wisnik à síntese da polca amaxixada, quando se sabe que o prócer modernista rejeitou um desdobramento decisivo dessa síntese, o samba carioca, como representativo. De todo modo, Com MACHADO MAXIXE temos um passo de valor no debate machadiano, assim como na reflexão sobre o processo da música popular urbana no Brasil, passo que é marcado por certa celebração eufórica da síntese modernista paulista.

 

 

Fonte: Correio do Povo/Luís Augusto Fischer/Escritor e professor da UFRGS. Autor de MACHADO E BORGES: E OUTROS ENSAIOS SOBRE MACHADO DE ASSIS (Arquipélado), em 12/01/2019