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Crítica da Crítica Literária e Acadêmica
Crítica da Crítica Literária e Acadêmica

AO VENCEDOR, AS BANANAS!

 

Doutor em Teoria e História Literária faz a crítica da crítica literária e acadêmica debatendo o que é ou não canônico

 

Os debates sobre o cânone no Brasil têm sido, nos últimos dez anos, travados na seara da composição das listas de leitura, vilipendiando o percurso de construção da Teoria Literária enquanto campo. Em geral, costuma-se partir para o argumento da existência de um cânone formado majoritariamente por homens de origem europeia, supostamente heterossexuais e cisgêneros. E, a partir daí, reivindica-se um novo cânone, supostamente aberto à diversidade óbvia do mundo concreto. Não sou refratário a esse tipo de interpretação. E, em ampla medida, me alimento dela. Contudo, pretendo deslocar um pouco a atenção para um outro tipo de análise, aquele que se dedica a explorar não o território, mas os observadores: trata-se da crítica da crítica.

 

Os debatedores sobre o cânone têm sido caracterizados como portadores de um tipo de missão (didática na melhor das hipóteses, messiânica na pior delas) sobre o regime de circulação das obras literárias. Raramente, no entanto, há debate sobre a formação da própria crítica. A crítica ao sistema literário está localizada, em certa medida, na tentativa de controle daquilo que pode ou não ser lido pelos alunos, dos quais se supõe uma certa incapacidade crítica.

 

 

A configuração do poder universitário, no Brasil, país com um alto índice de cultura anti-intelectual, revela uma posição perigosamente ambígua entre aqueles que pretendem preservar os aparelhos de cultura formal e os que acreditam serem esses aparelhos partes indissociáveis dos processos de exploração humana. Por outro lado, é inegável que a academia tem falhado no modo como se dispõe a avaliar textos cujas origens oferecem evidente entraves às tentativas de interpretação que se apoiem em rotinas tradicionais de produção de sentido social. Aqui faço referência a uma espécie de suspensão da faculdade crítica, por parte de certos pares teóricos, ao se depararem com produções que fujam dos circuitos com os quais a crítica já se acostumou.

 

De certa forma, a repetição do caminho das obras ofereceu à crítica um forte argumento para seu engessamento. Para distensionar as pressões entre um campo e outro, uma estratégia usada tem sido justamente a de subanalisar os textos produzidos por agentes do campo social minoritário, atribuindo a eles um estatuto diferente à literatura tout court. Seguindo por essa trilha, produções literárias de autores negros ou negras recebem um tratamento que ora é de desprezo, ora é de adulação acrítica.

 

Essa operação, quando bem sucedida, tem o efeito de neutralizar qualquer plano de reforma radical da crítica acadêmica. Susan Buck Morss, em seu célebre HEGEL E O HAITI, relembra que certos vícios de origem no processo de construção epistemológico das pesquisas acadêmicas (e aqui se pode citar o constrangedor fato de a universidade ser resistente a aceitar para si a régua que insiste em impor para a sociedade civil) não têm paternidade solitária. O processo de exclusão dos temas difíceis (aqueles cuja simples proposição já se revelaria um desconforto epistemológico considerável) tem origem nas mais variadas vertentes críticas. Assim, se hoje temos uma universidade que se coloca voluntariamente de costas para certos objetos desprestigiados, isso se deve, em ampla medida, ao predomínio de uma consciência de classe que identifica a universidade como guardiã de um tipo específico de tradição artística. A preservação de aspectos excludentes no processo de valoração das obras literárias provém tanto do campo democrático, quanto do autoritário; tanto do pensamento liberal, quanto do pensamento conservador.

 

À disposição para manipulação imediata, há somente propostas tímidas de intervenção na aparência desses sistemas, mas jamais em suas estruturas. Aceita-se a substituição de certas peças no tabuleiro. Sacrificam-se alguns agentes para se salvar o formato. Obras entram e saem do cânone, mas o cânone, enquanto ponto nevrálgico, ao redor do qual a cultura letrada diz se movimentar, permanece intacto, como conceito. Aceita-se, dentro da mesma estratégia, alterar a cosmética dos textos literários, a textura dos cabelos das protagonistas, o universo de ação dos personagens negros, recheando as obras com o exotismo típico de uma paisagem turística. Em um sentido perverso, tal esforço contribuiu para uma melhoria do banquete estético das obras para a crítica. Apontamentos dessa natureza se constituem uma crítica à oferta dos pratos expostos no buffet simbólico das escolhas estéticas, mas calam sobre o princípio controlador e potencialmente estéril da própria existência desse buffet.

 

Se você chegou até aqui, já deve ter percebido que eu tenho problemas com a crítica brasileira. Acho mole. Acho ruim. Acho insuficiente. Meus pares chamam de recalque. Digo a eles que deveriam comprar um dicionário de psicanálise. Ocorre que Conceição Evaristo, Jeferson Tenório, Ana Maria Gonçalves, Ana Paula Maia, Geovani Martins, Ricardo Aleixo, Marilene Felinto, Paulo Lins e José Falero são os nomes mais importantes da cena literária contemporânea. E nenhum deles está suficientemente mapeado pela crítica acadêmica. Não estudá-los é uma forma sofisticada de racismo. Ignorar sua inegável superioridade estética, o presumir uma legitimidade meramente antropológica em suas obras, com o objetivo de retardar ainda mais a chegada de seu prestígio acadêmico, é tão ofensivo para mim, negro, quanto jogar bananas no meu rosto.

 

A literatura afro-brasileira é fruto das experiências histórico-materiais da comunidade negra. E existe também como oposição à literatura-canonizada. Ela é um a crítica da realidade e uma realidade crítica. Crítica no sentido de problematizável, discutível, e incapaz de manter-se imune às tensões nas quais ela foi forjada, sendo um imaginário que nasceu de uma interdição, de uma negação de valor. E essa negação tem nome: racismo.

 

Certa vez, um aluno me perguntou se eu acho a literatura negra melhor que a literatura produzida pelos brancos. Respondi com sinceridade: “Não vejo cor.” E acrescentei: “Acho que quando o autor é bom, ele se destaca, mesmo quando branco.”

 

Continuo concordando comigo mesmo.

 

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Luiz Mauricio Azevedo/Doutor em Teoria e História Literária, pela Unicamp, em 04/01/2020