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Espectros, de Cecília Meireles, 1919
Espectros, de Cecília Meireles, 1919

ESPECTROS, DE CECÍLIA MEIRELES, 1919

 

QUE PENSAR DO LIVRO DE ESTREIA DE CECÍLIA?

 

O ano de 1919 teve forte impacto na cultura mundial. O Brasil não ficou alheio à efervescência que agitou o Ocidente. O CS (Caderno de Sábado) volta cem anos no tempo.

 

Fui convidado pelo CS do Correio do Povo a comentar o livro de estreia de Cecília Meireles, ESPECTROS, editado em 1919, aos 17 anos, pela própria autora quando ainda frequentava a Escola Normal.

 

Os centenários exercem uma função positiva: a de chamarem a atenção para livros pouco lidos, ou até renegados por seus autores. Tive a maior das surpresas quando me dispus a reler toda a Obra Poética de Cecília, publicada na coleção da “BIBLIOTECA LUSO-BRASILEIRA”, da José Aguilar Editora. Possuo a segunda edição dessa obra. Nela há uma finíssima análise crítica de Darcy Damasceno. Nesse mesmo volume, incluem-se opiniões críticas de diversos escritores, entre os quais Mário de Andrade, José Paulo Moreira da Fonseca, Menotti del Picchia, Paulo Rónai, Murilo Mendes e João gaspar Simões.

 

No estudo que dedica a Cecília, Darcy Damasceno simplesmente ignora a existência de ESPECTROS. Menciona outras coletâneas relativamente desconhecidas do grande público, como POEMA DOS POEMAS, BALADAS PARA EL-REI e NUNCA MAIS, livros que se seguiram ao livro de estreia.

 

Que razões teriam induzido o estudioso a nada dizer a respeito?

 

Suponho que Darcy Damasceno, por ser amigo de Cecília, foi por ela aconselhado a omitir esse livro no seu estudo crítico.

 

Todo autor tem direito a autorretratações. Um dos casos mais citados na história da literatura é o de Santo Agostinho de Hipona, o qual chegou a publicar um livro com esse título: RETRACTATIONES LIBRI DUO (426-428 d.C.).

 

Ao autor sempree foi reconhecido, igualmente, outro direito: o de anular a influência de uma obra sua que ele julga indigna de si!

 

Seria, então – a coletânea renegada – indigna do prestígio de Cecília Meireles?

 

A autocrítica, ou a autoapresentaçãode uma produção literária original, nem sempre é aceita pela posteridade. Por uma razão: o autor, ao ver-se célebre, ao ter consciência de haver produzido uma “obra maior”, fica constrangido de ter iniciado sua trajetória com uma “obra menor”.

 

Surge a questão: serão os 17 sonetos de Cecília Meireles composições menores, que poderíamos qualificar de “insignificantes”?

 

Esclareçamos um dado: vinte anos após a publicação de seu livro inicial, portanto em 1939, a poetisa deu a lume um livro intitulado VIAGEM (Lisboa, Editora Ocidente), que constituiu um sucesso estrondoso, semelhante ao que aconteceu ao nosso Mario Quintana com A RUA DOS CATAVENTOS. Da noite para o dia, a poetisa foi considerada uma excepcional autora lírica.

 

O livro, de resto, já havia obtido em 1938 o prêmio para poesia inédita: “Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras.

 

Cecília não se deteve nesse triunfo inicial: continuou sua trajetória publicando, ao longo dos próximos anos, outras coletâneas memoráveis, como VAGA MÚSICA (1942), e principalmente MAR ABSOLUTO (Porto Alegre, Editora Globo, 1945(. Ela iria, porém, obter sua consagração definitiva com duas obras-primas que poderiam tê-la indicado para o Prêmio Nobel: ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA (RJ, Livros de Portugal, 1953) e SOLOMBRA (Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1963). Esta última coletânea foi lançada um ano antes de sua morte, ocorrida em 9 de novembro de 1964.

 

Haverá algum aficionado da literatura nacional que desconheça um de seus poemas mais lembrados e recitados: “Retrato”? Este poema é uma joia, semelhante às joias que merecem estar no pescoço de qualquer mulher. Se a mulher é bela, a joia torna-a mais bela; se a mulher é destituída de especial beleza, a joia confere-lhe beleza.

 

O mesmo acontece com um poema perfeito! Deliciemo-nos pois, com a delicadeza, finura e originalidade de Cecília:

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida

a minha face?

 

Eis um poema que qualquer antologia da poesia universal poderia inserir em suas páginas!

 

Depois de atingir tal altura – a de uma águia – contentar-se-ia Cecília em ser um sabiá, ou outro melodioso pássaro de nossa terra?

 

Como poeta, atrevo-me a aprovar a decisão de Cecília de excluir – de certo modo – seu livro de estreia.

 

Não é esta a opinião de alguns bons críticos atuais, como Henrique Marques-Samyn, que escreveu um texto de apresentação da edição de ESPECTROS da Global Editora (2013), com a competente coordenação editorial de André Seffrin, membro da Academia Brasileira de Letras.

 

A formulação de Marques-Samyn sobre as possíveis leituras da coletânea, a serem feitas na atualidade, não só é respeitosa; é também comovente:

 

- Como ler ESPECTROS? - indaga ele.

Responde:

 

Como uma obra prematura cujo valor seria essencialmente (senão somente) documental?”

 

Como obra de uma “primeira Cecília”, que porventura não descobrira ainda em si a “verdadeira” poesia, algo que seria atestado pela posterior renegação do volume?

 

Ou haveria, por outro lado, uma relação de continuidade entre ESPECTROS e a produção poética futura, o que faria da obra a primeira eclosão do

gênio?”

 

O crítico inclina-se pela última alternativa.

 

Pedirei desculpas a Marques-Samyn e a André Seffrin, escritores de alto gabarito, por não concordar com a apreciação deles.

 

Para mim, os sonetos dessa coletânea são interessantes apenas do ponto de vista parnasiano. Trata-se de composições cuidadosamente elaboradas, com alguns preciosismos verbais, dotadas de uma sonoridade que poderia merecer a atenção de jovens poetas.

 

Confesso, no entanto, que não me emocionei com nenhum dossonetos!

 

Petulância? Presunção?

 

Para “justificar-me”, ouso servir-me de u a sentença de Jesus, apliável a um contexto superior:

 

- Não há quem, após ter bebido vinho velho, queira do novo. Pois diz: “O velho é que é bom!”

 

(Evangelho de Lucas 5, 39.Versão da Bíblia de Jrusalém. Edições Paulinas, 1991. p. 1939).

 

Li diversas vezes os 17 sonetos de ESPECTROS. Nenhum delesme tocou, isto é, nenhum deles produziu em mim um frêmito verdadeiramente poético.

 

Não se diga que os poetas parnasianos, também, não provocam tais frêmitos. Certos sonetos de Raimundo Correia, de Alberto de Oliveira, e sobretudo de Olavo Bilac provocam em mim tais frêmitos.

 

Diz ainda Henrique Marques-Samyn:

 

- O domínio formal patente na riqueza rítmica de sonetos como “Átila” e “Sortilégio”, espantoso mesmo se os cotejarmos com as melhores produções do Parnasianismo, só demonstra como Cecília Meireles, adolescente que aos 17 anos publicava suas primeiras peças líricas, já exibia um manejo impecável dos recursos próprios da escrita poética.”

 

De acordo. Escrita poética? Sem dúvida, mas não escrita poética de Cecília Meireles!

 

Nada do que iria consagrá-la como uma das expressões máximas da poesia brasileira, e da poesia universal, encontro no seu livro de estreia.

 

Para mim, a coletânea ESPECTROS poderia ser assinada por outra jovem poetisa brasileira. Não consigo perceber nesses sonetos as impressões digitais líricas da grande autora do ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA.

 

Mesmo assim, por ser o centenário da publicação de ESPECTROS, convido os leitores a discordarem de mim.

 

Antes, todavia, revelo-lhes os três sonetos nos quais cheguei a vislumbrar algo de Cecília: “Herodíada”, “Noite de Coimbra” e “Evocação” (na edição da Global editora, páginas 35, 45 e 51).

 

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Armindo Trevisan/Poeta em 06/04/2019