
120 ANOS DE ERICO VERISSIMO: VEJA CINCO LIVROS PARA ENTENDER A OBRA DO ESCRITOR GAÚCHO
Ao lado do baiano Jorge Amado, o autor gaúcho, nascido em Cruz Alta, continua sendo sucesso entre os leitores. Contudo, foi a partir da década de 1970, que passou a ser revisto e reconsiderado pela crítica literária no Brasil
“Uma vez que outra, nos verões muito quentes, ele tinha a impressão de ver o tempo parado sobre os telhados e campos em derredor, como que imobilizado pelo mormaço: moscardos zumbiam e voavam no tempo estagnado. Outras vezes ele sentia a rotina arrastar-se com lentidão, paralelamente às horas. Mas na maioria dos dias o tempo voava como o vento.”
O trecho acima, extraído do capítulo A Fonte, primeiro volume da saga O Tempo e o Vento, obra-prima de Erico Verissimo (1905-1975), pode ser lido também como sentido simbólico do tempo na obra do escritor natural de Cruz Alta, que nasceu há 120 anos, justamente em 17 de dezembro.
Dizem: “morre o autor e ficam suas obras”. Contudo, isso nem sempre se confirma. Mesmo Machado de Assis (1839-1908), tratado como o maior escritor brasileiro, ou ainda Graciliano Ramos (1892-1953), autor de Vidas secas, marco da literatura brasileira e que contabiliza mais de 2 milhões de exemplares vendidos, sem falar de Théo-Filho (1895-1973), um dos mais lidos no Brasil nas décadas de 1920 e 1930 — há quem sequer se lembre da existência deles. O tempo, por vezes, é implacável com os escritores e suas obras acabam perecendo.
Para se ter uma ideia, em um arco de 70 anos a obra de Erico foi traduzida para 19 idiomas.
No caso de Erico, porém, o distanciamento temporal parece ampliar ainda mais o horizonte de suas obras. Em depoimento ao documentário em curta-metragem Um Contador de Histórias (1974), dirigido por David Neves e Fernando Sabino, o escritor gaúcho disse:
“As viagens, as leituras, as releituras de meus próprios livros me levaram à convicção de que eu tinha de partir para algo mais largo como um mural. E a primeira parte da minha obra eu considero, embora não a renegue, muito inferior à segunda, uma espécie de coleção de exercícios para eu fazer um dia o livro que eu sempre queria fazer: a saga do Rio Grande do Sul.”
— Embora tenha recebido pouco prestígio da crítica em comparação a outros escritores brasileiros, Erico Verissimo ocupa um lugar de destaque na história da literatura latino-americana. Para se ter uma ideia, em um arco de 70 anos a obra de Erico foi traduzida para 19 idiomas, e a língua espanhola foi a que mais recebeu traduções (28 no total). Isso demonstra que ele tinha muita aceitação entre os leitores latino-americanos — afirma o jornalista e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP Márcio Miranda Alves, autor de Erico Verissimo e o jornalismo: fontes para a criação literária (2018), fruto de sua tese de doutorado.
— Luis Fernando Verissimo confirma em uma entrevista que Gabriel García Márquez teria se inspirado em O Tempo e o Vento para escrever o clássico Cem anos de solidão, o que não é pouco — complementa Alves.
Contudo, a crítica literária debruçou-se com mais atenção à obra de Erico a partir da década de 1970. Em entrevista à escritora Clarice Lispector (Editora Rocco, 2007), Erico falou sobre a relação antagônica entre sucesso editorial e desleixo da crítica.
“Os esquerdistas sempre me acharam ‘acomodado’. Os direitistas me consideram comunista. Os moralistas e reacionários me acusam de imoral e subversivo. Havia ainda essa história cretina de ‘norte contra sul’. E ainda essa natural má vontade que cerca todo o escritor que vende livro, a ideia de que best-seller tem de ser necessariamente um livro inferior”.
Em defesa de Erico — e da importância de sua obra — um dos mais relevantes críticos brasileiros Antonio Candido (1918-2017) disse em uma entrevista concedida à Folha de S.Paulo, em 2001:
“É preciso salientar um traço importante: a sua capacidade de inserir bem o tempo na estrutura literária, seja injetando-o no tecido da narrativa, seja quebrando-o por meio do relato descontínuo. Outro traço positivo é a capacidade de se tornar convincente tanto para o leitor culto quanto para o leitor mais simples. Isso o aproxima da família espiritual de escritores como Eça de Queirós, Dickens e Balzac”.
Leitura crítica
À convite do jornal Pioneiro, o coordenador do Programa de Pós-graduação em Letras e Cultura da UCS, Márcio Miranda Alves, autor de Erico Verissimo e o jornalismo: fontes para a criação literária (2018), fruto de sua tese de doutorado, cita (e comenta) cinco livros essenciais para quem deseja mergulhar na leitura crítica do universo da obra do escritor gaúcho Erico Verissimo (1905-1975).
Em 17 de dezembro o autor nascido em Cruz Alta completaria 120 anos.
Veja a seguir as indicações de leitura crítica da obra de Erico:

“O contador de histórias: 40 anos de vida literária de Erico Verissimo” (Editora Globo, 1972)
“Publicada em 1972, trata-se da primeira coletânea de artigos e ensaios que analisam a obra de Erico. Apresenta reflexões de críticos e historiadores importantes como Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, Fábio Lucas, Donaldo Schüller, Guilhermino Cesar, Jean Roche e Regina Zilberman, bem como dos escritores Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles e Mario Quintana.”
“Criação literária em Erico Verissimo” (L&PM/EDIPUCRS, 1995)
“Obra basilar para entender o processo de criação literária do escritor. Versão da tese de doutorado de Bordini, a pesquisa ampara-se em documentos do Acervo Literário de Erico Verissimo, como originais, esboços, notas e correspondências, para revelar as concepções e procedimentos técnicos dos romances Caminhos Cruzados, O Resto é Silêncio, O Tempo e o Vento e Incidente em Antares.”
“História da Literatura do Rio Grande do Sul: a era Erico - anos 1930 a 1950” (Coragem/Editora da Furg, 2024)
“Embora não seja exclusivamente sobre Erico, o terceiro de seis volumes da coletânea monumental organizada por Luís Augusto Fischer apresenta um recorte temporal que permite entender de forma indireta o tempo e o lugar do escritor. Além dos textos sobre ele, destacam-se estudos acerca da poesia, da crítica literária, do modernismo e das temáticas do romance social nesse período.”
“O Tempo e o Vento: história, invenção e metamorfose” (EDIPUCRS, 2004)
“Em uma coletânea de nove artigos e ensaios, Maria da Glória Bordini e Regina Zilberman passam pela mitologia, pós-colonialismo, identidade política, ideologia, tragédia grega e características do romance histórico para apresentar, de forma original e definitiva, leituras que elucidam aspectos importantes da obra-prima de Erico Verissimo. Ao final, a obra traz uma vasta fortuna crítica de O Tempo e o Vento.”
“A liberdade de escrever: entrevistas sobre literatura e política” (Editora Globo, 1999)
“Obra que reúne entrevistas concedidas pelo escritor a jornais e revistas ao longo de sua vida. Entre os entrevistadores, nomes como Clarice Lispector, Adolfo Braga, Paulo Brossard, Rosa Freire d’Aguiar e Antonio Hohlfeldt. Nelas, Erico fala sobre o processo de criação de suas obras, economia, política e direitos humanos, entre outros assuntos que permitem ao leitor conhecer suas ideias e opiniões.”
OBRA LITERÁRIA
O Tempo e o Vento
INFANTOJUVENIL
Fonte: Zero Hora/Marcelo Mugnol em 17/12/2025