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Crônicas: Análise do Escritor Deonísio da Silva
Crônicas: Análise do Escritor Deonísio da Silva

NA TELA DO CELULAR, A CRÔNICA DO SÉCULO XXI

 

Escritor analisa a crônica, constatando quem foram ou são os grandes cronistas e qual será o futuro do gênero.

 

Muitos autores brasileiros mantêm colunas regulares na mídia, mas não são cronistas, embora sejam assim designados. Ou não são mais cronistas. Porque alguns deles, surgidos há algumas décadas ou lustros, deixaram de ser. E outros não eram cronistas nem quiseram tornar-se cronistas.

 

Cronistas como o foram Machado de Assis, no Século XIX, ou Rubem Braga, no Século XX, não surgiram neste novo Século, que prima por rebaixar os padrões de qualidade em busca de parâmetros no mínimo controversos.

 

Assim, em nome de acolher a mulher, que passara de leitora a autora no Século XX – houve algumas antes, mas eram solitárias exceções – o texto de autoria feminina recebeu a designação de crônica para que escritoras como Rachel de Queiroz e Clarice Lispector fossem acolhidas em revistas e jornais como cronistas. Foi o caso da primeira na revista O CRUZEIRO e da segunda no Jornal do Brasil. Das duas, a que chegou mais perto do gênero foi Rachel de Queiroz, e a que mais se afastou foi Clarice Lispector.

 

Na verdade, Rachel de Queiroz foi senhora de um estilo que jamais primou pela concisão, objetividade, graça e brevidade da narrativa curta, qualidades marcantes do que entendemos por crônica. Ao contrário, seu ponto alto é mais o abundante MEMORIAL DE MARIA MOURA, espalhado por múltiplas direções, do que O QUINZE, seu romance de estreia, marcado pelo frescor da narrativa juvenil ainda indisciplinada, mas curta.

 

Já Clarice Lispector, sem disciplina alguma na arte de narrar, mas dotada de poderosa intuição, não permite uma classificação que a designe como cronista, contista ou romancista. Ela é autora de textos que foram reunidos em livros demarcados com o subtítulo de romance, de contos ou de crônicas. Quem, pois, inventou que ela era romancista? Os mesmos que definiram ser romances MACUNAÍMA, de Mário de Andrade, e VIDAS SECAS, de Graciliano Ramos. Às vezes, tal designação foi obra de uma pessoa só.

 

VIDAS SECAS foi designado romance, mas foi um conto que Graciliano Ramos alongou. Seus romances por excelência serão outros, como é o caso de SÃO BERNARDO, este, sim, um exemplo de narrativa que não pode ser confinada ao que chamamos conto, nem mesmo se considerarmos o conto do Século XIX, que, com as exceções de praxe, como o russo Tcheckhov e o francês Maupassant, são narrativas nem sempre de curta extensão. Alguns contos de Dostoiévski não são contos. São novelas ou pequenos romances, dadas as complexas sutilezas das personagens e o aprofundamento dos temas.

 

O escritor gaúcho Walter Galvani, que arrebatou o Prêmio Internacional Casa de Las Américas e é referência no gênero, ao lado de Liberato Vieira da Cunha, também mestre na arte de narrar com precisão e brevidade, tem uma definição bonita e poética para o gênero por meio de uma comparação.

 

Disse ele que o cronista é como a gaivota que mergulha no mar e volta com um peixe. Volta com um, apenas um peixe, e este seria o tema da crônica.

 

Já as crônicas de Liberato Vieira da Cunha, sempre muito cuidadoso com a sua ferramenta, a língua portuguesa, que domina com refinamento florentino, podem dar entrada ao panteão onde pontificam grandes cronistas brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino, sem esquecer as crônicas de Cruz e Souza, que, pela fulgurante trajetória de sua poesia, não tem ainda despertado a atenção devida para a beleza de seus textos em prosa.

 

Os leitores têm todo o direito de se perguntarem o que este autor entende por crônica, ele também um cronista, ou assim designado nos periódicos onde vem publicando suas crônicas desde há algumas décadas. Meu Deus, tudo faz muito tempo em minha vida.

 

Crônica, feminino de crônico, qualifica algo de longa duração, com o significado vinculado a “Cronos”, o tempo. De uma doença crônica, por exemplo, sabe-se que não será curta.

 

Em geral é apregoado que o tempo tem essa designação por causa do titã Cronos, o deus do tempo, um dos muitos deuses dos antigos gregos. Assim já o dissera Santo Isidoro de Sevilha, que viveu entre os Séculos VII e VI. O médico romano Célio Aureliano, que viveu no Século V, referiu-se a doenças de longa duração como chronici morbi.

 

Mas provavelmente outra a expressão foi o berço da palavra crônica tal como a utilizamos. Trata-se de chronici libri, título que o romano Aulo Gélio (Séc.I) escolheu para designar acontecimentos históricos por ele reunidos.

 

No Século XV, Fernão Lopes designou CRÔNICAS o que nos contou de Dom Pedro I, o Cru, o terrível amante de Inês de Castro, nossa velha conhecida de OS LUSÍADAS, feita rainha depois de morta.

 

Por fim, sob pena de sacrilégio com a palavra, não se pode designar cronistas esses autores que em profusão maltratam a língua portuguesa todos os dias, sob o pretexto de registrar usos e costumes.

 

A crônica de Século XXI ainda não nasceu. Mas já está em trabalho de parto nas telas do celular. Recomendo que seus autores escrevam menos e leiam mais.

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Deonísio da Silva/Escritor-professor e cronista em 21/12/19