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Crise no Mercado Editorial Brasileiro
Crise no Mercado Editorial Brasileiro

DESAFIO PARA A CULTURA

 

Processo de recuperação judicial da Livraria Cultura revela dificuldades e incertezas do setor livreiro.

 

Por um lado, a dúvida mantinha a esperança viva. Por outro, a falta de transparência e de diálogo minava o pouco da energia que restava para enfrentar a situação. Quando a Livraria Cultura anunciou na quarta-feira (24/10) da semana passada, o pedido de recuperação judicial, o mercado editorial teve a certeza de que aquele dinheiro todo que a rede devia não vai mais entrar. Pelo menos não tão cedo. E de que a conta de 2018 não vai fechar. R$ 600 mil para um, mais ou menos para outro. Estima-se que a rede de livrarias da família Herz deva a editores, bancos e demais credores certa de R$ 150 milhões.

 

No comunicado enviado ao mercado, ela diz que “as incertezas do cenário econômico brasileiro” e “a crise do mercado editorial brasileiro” fizeram com que “a Livraria Cultura passasse a enfrentar as dificuldades inerentes aos setores onde atua”. Não falam em decisões arriscadas em um momento de uma estabilidade que podia ser provisória, como a abertura de lojas enormes quando categorias como CD e DVD perdiam mercado. Nem da manutenção de unidades deficitárias, da aquisição da Fnac, mesmo que recebendo por isso, ou da compra da Estante Virtual, quando seus problemas internos eram complicados o suficiente e refletiam no dia a dia das editoras.

 

Algumas deixaram de fornecer para a rede – e para a Livraria Saraiva, que também passa por dificuldades. Outras suspenderam a venda por um período. Houve demissões, enxugamento na produção. Para algumas editoras, Cultura e Saraiva representavam algo como 40% do faturamento.

 

- O processo de recuperação judicial da Livraria Cultura representa a cereja de um bolo que azedou o chamado ecossistema do livro – diz Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Brasileira de Livraria (ANL).

 

Em 2012, havia no país 3.481 livrarias. Em 2014, 3.095. Hoje, a entidade estima 2.500 lojas. O número preocupa, e a hiperconcentração também. A Cultura, em recuperação judicial, tem 15 lojas. A Saraiva, 10 anos depois da compra da Siciliano, quando saltou de 36 para 99 lojas, está passando por reestruturação, contratando consultorias, fechando unidades, diminuindo espaços, abrindo centro de distribuição em Minas, renegociando prazos de pagamentos com editores e não cumprindo alguns acordos.

 

Apesar do cenário, fontes do mercado não acreditam em falência, como foi o caso da Laselva – ela pediu recuperação judicial em 2013 e faliu em 2018, deixando credores no prejuízo.

 

O desafio dos Herz no momento será o de convencer as editoras a continuar vendendo seus livros para as lojas não ficarem desfalcadas e, assim, a empresa poder por em prática o plano de recuperação, que ainda será detalhado e aprovado pelos órgãos e credores, e a dívida real será revelada.

 

Maior crise do mercado livreiro começou em 2014.

 

Vive-se a maior crise da história do mercado livreiro e editorial nacional, segundo Alexandre Martins Fontes, da WMF. A crise começou a ser sentida mais fortemente pelas editoras em 2014 e tem alguns fatores, como a diminuição das compras governamentais e a queda do consumo em geral. Fontes sente mais os efeitos como editor do que como livreiro.

 

- Na WMF, reduzimos drasticamente os investimentos e os lançamentos. Desde 2015, fomos obrigados a demitir um número importante de funcionários. Como todos os editores, estamos muito preocupados. Temos uma luz no fim do túnel? Dias melhores virão? Muito difícil responder. As editoras que não se adaptarem a essa nova ordem econômica e que não souberem cortar custos terão dificuldades – diz.

 

Apesar das oscilações do mercado, Ismael Borges, coordenador do Bookscan, ferramenta da Nielsen que monitora o varejo de livro, diz que não existe uma crise do consumo de livro.

 

- Os números positivos observados em 2017 e confirmados no acumulado de 2018 não se comunicam de forma linear com a realidade dos operadores do mercado. Não é difícil perceber que o problema não se concentra na demanda pelo produto livro. A reorganização dos operadores do mercado tradicional gera muita ansiedade e pessimismo, mesmo diante dos números positivos da boca do caixa – diz.

 

Na livraria Martins Fontes, esse cenário se confirma. Desde 2005, quando Alexandre assumiu a administração da loja da Avenida Paulista, ela só cresce. Todo esse ano, o faturamento vem aumentando em média 28%. Comparando outubro com o mesmo período do ano passado, o índice salta para 40%. Gestão, uma livraria bonita, um bom café, eventos, livreiros experientes, lançamentos e fundo de catálogo, foco no livro ajudam no negócio.

 

- E o vácuo deixado pelas livrarias em crise, que também explica, em parte, esse crescimento – diz Alexandre.

 

Com modelos de negócios diferentes e plano de crescimento mais conservadores, outras livrarias têm conquistado espaço, como a própria Martins Fontes, a Vila, a Travessa, a Blooks, a Curitiba e a Leitura.

 

Maior rede da região Sul, a Livrarias Curitiba acaba de inaugurar um centro de distribuição na Capital para ampliar seu braço de atacado, responsável por 35% do grupo.

 

- São Paulo é o mercado em que vamos apostar agora. Tem mais universidades, mais cultura e mais oportunidade. E também porque a concorrência tende a reduzir um pouquinho – diz o diretor Marcos Pedri.

 

A rede, que investe em outros produtos e deve crescer 5% este ano, tem 29 lojas. A estratégia é “entrar pelas beiradas”, sem pagar aluguel caro, explica Pedri. Quem também chega com mais força em 2019 é a mineira Leitura, de Mateus Teles, que não tem medo de fechar lojas deficitárias. Se uma loja atinge o segundo ano sem lucro, ele fecha. Fechou até seu e-commerce.

 

- Ele funcionou por 16 anos e não dava tanto lucro. Resolvemos ir por outro caminho, abrir lojas onde não havia livraria. Hoje, somos líderes em 10 Estados – diz. A Leitura iniciou o ano com 66 livrarias, abriu seis, fechou duas e vai reativar o e-commerce.

 

Para Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros e diretor da Sextante, é preciso construir um futuro mais saudável. Por isso, o empenho do setor em conseguir, ainda este ano, a aprovação de uma mudança na Lei do Livro, de 2003. O projeto está na Casa Civil. Se der certo, os descontos vão ficar limitados a 10% por um ano após o lançamento – para Amazon, Mercado Livre e para a livraria da esquina, por exemplo. Depois, cada um vende pelo preço que quiser.

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno/Estadão Conteúdo em 30/10/2018.