
TRADUÇÃO INGLESA DO POEMA 'GALÁXIAS' FAZ JUS À INVENÇÃO DE HAROLDO DE CAMPOS
Tradutora reconhece trocadilhos, ritmos e rimas e cria, no idioma, música paralela que ecoa efeitos do original
Livro, que mantém título em português, saiu pela Ugly Duckling Presse e tem recebido elogios de ensaístas
O texto discute a tradução integral do livro "Galáxias", de Haroldo de Campos, para o inglês, e sua recepção internacional com ensaios críticos. O autor expõe méritos do empenho de Odile Cisneros —que recria som, ritmo e jogos verbais do original— e situa o trabalho como marco da poesia contemporânea.
"[...] escrever em linguamarga para / [...] fazer a defesa e a ilustração de esta língua morta": a obra que defende, estimula, modifica e transcende a língua portuguesa-brasileira, e é, no dizer de seu autor, uma "viagem paródica, homérica e psicodélica ao mesmo tempo", vem conquistando, cada vez mais, presença internacional.
"Galáxias", de Haroldo de Campos, está disponível na íntegra para os leitores de língua inglesa, graças ao empenho –por mais de uma década– da tradutora e professora Odile Cisneros, da Universidade de Alberta, no Canadá.
O livro, que mantém o título em português, saiu pela Ugly Duckling Presse, de Nova York, e tem sido recebido com entusiasmo por leitores e críticos. A grande ensaísta norte-americana Marjorie Perloff afirmou que a "tradução brilhante de uma obra brilhante, 'Galáxias', de Cisneros, é um grande acontecimento literário".
"Um triunfo absoluto", diz Elizabeth Zuba em resenha para a publicação online Rain Taxi; e a poeta Janani Ambikapathy, do site da Poetry Foundation, comenta que "as traduções de Cisneros reformulam os enigmas filosóficos e as imagens intricadas de Campos de tal forma que a leitura em voz alta do inglês extrai uma clareza vívida".
É um passo significativo para a obra de Haroldo de Campos e sua inconteste vocação para a universalidade. "Galáxias", cuja proposta se funda num modo de composição dedicado à pluralidade linguística, é emblemática das possibilidades de transcendência às limitações babélicas. Fragmentos já haviam sido traduzidos (ou "transcriados", como o autor preferia) em alemão, francês, espanhol e inglês, entre 1966 a 1981, incluindo-se nomes como Anatol Rosenfeld, Vilém Flusser, Inês Oseki, Norman Maurice Potter e Christopher Middleton, entre outros.
A tradução conjunta dos dois últimos citados, ao inglês, integra o volume ora publicado por Cisneros, para o qual também contribuem Suzanne Jill Levine e Charles A. Perrone.
Essa "proesia" de Haroldo, elaborada durante duas décadas, compõe uma "odisseia" linguística através do tempo e do espaço, que inclui de Homero aos poetas beat da década de 1950. Nela "cabe o vivido, o lido, o treslido, o tresvivido", como afirmou o autor na entrevista "Do epos ao epifânico – gênese e elaboração das ‘Galáxias’", de 1984, da qual também provém seu comentário citado no início deste artigo.
Trata-se, como diria a tradutora, de "uma experiência formidável em poesia poliglota que antecipa o ‘Spoken word’" (designação, em inglês –literalmente, "palavra falada"– para a prática contemporânea de poesia destinada à performance, cujas raízes remontam às tradições universais de expressão oral). A já referida Ambikapathy menciona que "Campos insiste na ‘natureza oral’ do texto", observando que, "como diz Cisneros, passagens ‘obscuras’ tornam-se transparentes" quando oralizadas.
Mas não só nesse âmbito identifica-se uma "antecipação" realizada pela obra. Segundo o escritor e tradutor norte-americano John Keene, "a épica e epifânica ‘Galáxias’ antecipa o melhor do nosso mundo atual das mídias sociais, mas com uma visão e um vigor incomparáveis".
Sobre a ultrapassagem de limites como signo da contemporaneidade, diz-nos Urayoán Noel, escritor e professor da Universidade de Nova York: "‘Galáxias’ é uma obra-prima da literatura latino-americana que desafia a lógica do domínio... Campos abraça o translingual como um modo de se situar nas fronteiras da poesia e da prosa como ‘uma pulsão bioescritural em expansão galática’".
A frase final entre aspas é citação do próprio Haroldo (nas referidas anotações), para quem o texto tem "por imã temático a viagem como livro ou o livro como viagem, e por isso mesmo entendido também como um ‘livro de ensaios’".
Para Odile Cisneros, "‘Galáxias’ é o trabalho mais inventivo do poeta, mais conhecido entre nós por sua participação na criação da poesia concreta. Ele assim situa a obra num texto do livro "Depoimentos de Oficina", de 2002: "Se por um lado eu me havia empenhado na redução ‘minimalista’ da linguagem e na exploração dos recursos gráficos em meus poemas concretos, por outro seduzia-me fazer uma experiência de abolição ou rarefação dos limites entre poesia e prosa, no sentido não propriamente de uma épica (narração), mas de uma epifânica (visão). Foi então retomada a pré-história barroquizante de minha poesia [em outro momento, ele se refere a que a estética neobarroca começara ‘a ganhar corpo’ em sua poesia com ‘Teoria e Prática do Poema’, de 1952]. Na microestrutura de cada um dos textos galáticos (cinquenta fragmentos) servi-me de técnicas de composição (paronomásias, permutações, proliferações fônicas) da poesia concreta. Na macroestrutura, inspirei-me na música contemporânea."
Como teria a tradutora lidado com as dificuldades relativas a tais técnicas de composição e à própria sonoridade e musicalidade de "Galáxias", a fim de que o texto não deixasse de ser, como diz o norte-americano Daniel Yadin, "uma experiência sensorial abrangente para mergulhar e desfrutar: música, trocadilhos, cães, avós, catedrais, mesquitas, strippers, praças —tudo organizado para criar uma melodia baseada na linguagem, cujos prazeres se tornam cada vez mais viciantes"?
Experiência essa que seria, segundo Yadin, uma "cacofonia desafiadora", cujo "feitiço" lançado "não é sentido imediatamente"? Como se pôde encarar a tarefa de traduzir uma obra que, no dizer do também norte-americano Jordan Silversmith, "é singular e polivalente, repleta de vozes, idiomas e jogos de palavras metalinguísticos que se coadunam em algo que não pareceria possível se não tivesse sido escrito"?
Certamente o próprio pensamento de Haroldo de Campos sobre tradução –ou "transcriação"– fornece os elementos para o desempenho da tarefa. Em seu ensaio "Da Tradução Como Criação e Como Crítica", ele afirma que "quanto mais inçado de dificuldades" for um texto, mais ele será "recriável, mais sedutor enquanto possibilidade aberta de recriação".
Em outro artigo, "Tradução, Ideologia e História", Haroldo refere-se aos critérios da tradução poética como originados da observação de elementos intratextuais para se chegar a um novo texto que, "por desconstrução e reconstrução da história, traduz a tradição, reinventando-a". Elementos colhidos da tradição, bem como combinações de palavras e idiomas terão de ser, assim, reconstruídos no texto traduzido.
Na esteira desse pensamento, Cisneros afirma, em sua "Nota da Tradutora", que "talvez o primeiro e mais óbvio desafio na tradução de poesia seja, como disse Eliot Weinberger, ‘inventar uma nova música para o texto [...]’. Isso é especialmente verdadeiro em ‘Galáxias’, um texto em que o som é fundamental. Traduzir o som envolveu reconhecer trocadilhos, padrões rítmicos, aliterações, rimas internas e vocálicas, e produzir um padrão paralelo, uma música, que pudesse ecoar os efeitos do original."
A tradutora comenta que as diferenças nos padrões silábicos e de acentuação do português e do inglês levaram a uma solução rítmica diversa, com transposição das acentuações, caso da passagem inicial do livro, cuja versão em inglês teria resultado "mais econômica": "e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso / e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa / não é a viagem mas o começo..." –"and here i begin i spin here the beguine i respin and grin to begin / to release and realize life begins not arrives at the end of a trip which is / why i begin to respin..."
No trecho traduzido, diz Cisneros, incorpora-se "o trocadilho da canção de Cole Porter ‘Begin the Beguine’, como uma alusão à brincadeira de Campos com referências à cultura popular em outras partes do texto."
Com tal identidade de visão e procedimentos acerca da tarefa tradutória, o resultado tende a se encaminhar para o que será, conforme propõe o poeta no primeiro ensaio mencionado, "uma ‘recriação’ ou criação paralela, autônoma porém recíproca".
Quanto à incorporação de "Begin the Beguine", é interessante observar que tal expediente (coerente com o lema "make it new", de Ezra Pound) é reconhecível não só na obra tradutória de Haroldo, mas também –e, talvez, especialmente– na de seu irmão Augusto de Campos: lembrem-se, por exemplo, os versos "gente é pra brilhar, / que tudo o mais vá pro inferno" (que evocam, respectivamente, canções de Caetano Veloso e de Roberto Carlos) em sua recriação do poema "A Extraordinária Aventura Vivida por Vladímir Maiakóvski no Verão na ‘Datcha’").
Aliás, a afinidade de "Galáxias" com a música popular se mostra pelas composições de Caetano Veloso e de Edvaldo Santana a partir do mesmo fragmento, "circuladô de fulô" ("flower-blower flower flow", em inglês); sobre o assunto, diz Haroldo: "meu texto tem muito a ver com a música, a composição musical, seja a de vanguarda, seja a popular"...
Podemos dizer que, no pensamento afinado com a transcriação haroldiana, a procura será de "construção de uma tradição viva", algo que se pode identificar no que foi realizado por Odile Cisneros.
Para revelarmos um pouco mais desse trabalho, pensemos na dificuldade de recriar em outra língua uma sequência como "[...] antes que / o portogalo algaraviando-se esperante o brasilisco e este babelório / todo desbordele em sarrapapel [...]" Diante da impossibilidade de fazer corresponder os mesmos trocadilhos e efeitos sonoros (que promovem relações entre som e sentido), buscam-se outras soluções que estabeleçam analogia com o texto em português: "[...] before the / portogallian jibber-jabbering esperantoes the brasilisk and all this brothelbabeloire / boils over onto hodgepodgepapers [...]".
No alcance gradativo de outros países, culturas e leitores, Haroldo tem muito a oferecer em sua poética e em sua ensaística, num processo que, conforme se pode almejar, venha a ser de "revisão" geral dos lugares atribuídos nos cânones convencionais, à semelhança do que ele mesmo e Augusto de Campos realizaram no Brasil, promovendo o reconhecimento da relevância de autores antes subestimados –como Sousândrade, Oswald de Andrade e o tradutor Odorico Mendes.
De minha modesta parte, procurei enfatizar, em artigos sobre a teoria da transcriação que tive oportunidade de publicar em espanhol e em alemão, bem como no posfácio do livro que reúne artigos do poeta acerca do tema, o potencial fundador e diferenciador de seu conceito de "plagiotropia", o qual, como diz ele, "se resolve em tradução da tradição", e seria o mais identificador de suas proposições, embora estas sejam mais reconhecidas internacionalmente por seu teor "antropofágico".
Sob esse aspecto, podemos aspirar a que prossiga a "remastigação" como tarefa universal; com o próprio Haroldo de Campos (no ensaio "Da Razão Antropofágica"), cabe-nos esperar "que os escritores logocêntricos [...] preparem-se para a tarefa cada vez mais urgente de reconhecer e redevorar o tutano diferencial dos novos bárbaros da politópica e polifônica civilização planetária".
Galáxias
Fonte: Folha de S. Paulo em 31/01/2026