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Olavo Bilac e o Carnaval, Cem Anos Atrás
Olavo Bilac e o Carnaval, Cem Anos Atrás

BILAC E O CARNAVAL, CEM ANOS ATRÁS

 

Sim, sim, o Carnaval passou – ou ainda tem enterro dos ossos amanhã? É que nos livros que separei para dar uma olhada no feriadão estava um presente que ganhei há muito tempo de meu tio-avô Dezinho Rostand, que eu nunca lera e até tinha esquecido. Reapareceu agora, numa daquelas arrumações de fim/início de ano. Bem conservado, IRONIA E PIEDADE reúne em 288 páginas, 52 crônicas de Olavo Bilac publicadas no jornal carioca Gazeta de Notícias entre 1896 e 1908 – foi lançado em 1916 pela Livraria Francisco Alves. Então tido como o “príncipe dos poetas brasileiros”, Bilac morreria dois anos depois, aos 53 anos.


Pouco mais tarde, o modernismo o retirou do pedestal para o qual não mais retornaria. Se o poeta ficou menor, o cronista legou bons registros para o futuro. Subvertendo hoje o perfil da coluna, compartilho co os leitores um dos textos de IRONIA E PIEDADE, que leva o título de CARNAVAL. É uma preciosidade mordaz, um século atrás mas com certo sabor atual. Faço alguns cortes exigidos pelo espaço, mantendo a grafia e a ortografia da época. Destaque-se a quase ausência de acentuação – há palavras que ganharam acentos depois, e os perderam na última reforma ortográfica, isto é: uma volta ao passado. Vamos lá.

 

Livro: IRONIA E PIEDADE, de 1916, reúne crônicas de Olavo Bilac publicadas na imprensa entre 1896 e 1908.

 

Mascarados, sede bemvindos! - diz em Romeu e Julieta o velho Capuleto – já houve um tempo em que eu também me mascarava, para murmurar amaveis lisonjas ao ouvido das mulheres bonitas”. Quasi todos os velhos cariocas podem dizer o mesmo, porque no Rio de Janeiro o Carnaval já foi a grande festa da cidade; a festa que congregava no mesmo delírio todas as classes e todas as idades.

 

Muita gente séria, antigamente, suspirava todo o anno pela chegada d’essa época feliz.

 

É que havia logares a que não podia ir, sem grave escandalo, o burguez prudente, Theatros alegres, onde se acotovellavam francezinhas perfumadas, de olhos piscos circulados de olheiras provocantes; hoteis, cujas janellas fulguravam até a madrugada, indicando que lá dentro havia champagne e beijos a rodo; casas de tolerancia, cheias de mysterios dw amor: todos esses paraisos ficavam vedados aos homens circumspectos, que temiam a maledicencia; um anjo temeroso, o Escandalo, com o gladio de fogo flammejando no ar, ficava posto á porta, como no eden biblico, repellindo as tentativas do mais ousado.

 

Mas, chegado o Carnaval, o homem serio enfronhava a sua seriedade num dominó, amarrava sobre a austera face uma mascara – e adeus, terrores! O anjo embainhava a espada, e abriam-se as portas do eden e o regabofe começava.

 

Hoje, para que esperar o Carnaval? Uma tolerancia amável adoçou os nossos costumes, cujo duro aço se foi convertendo pouco a pouco em mollecera. O regabofe já não se esconde, nem escolhe dia: ainda por ahi, em carruagem descoberta, atravessa a rua do Ouvidor sem protesto, e viça e prospera como uma planta bem regada.

 

É essa a causa da decadência do Carnaval. Não se attribua essa decadência á falta de dinheiro. Uma fortuna acaba de ser esbanjada, em trez dias – e esbanjada em papel picado. Numa revoada contínua, lentamente pairando no ar humido, subindo e descendo ao sabor do vento, mollemente dansando, preguiçosamente caindo sobre a lama que acolchoava as ruas, nesses trez dias de chuva e barulho, o dinheiro appareceu, e desfez-se em confetti, e perdeu-se sem conta nem medida. Em compensação, os mascarados apontavam-se a dedo. A mascara perdeu seu primitivo encanto. Para cravar, soffregamente os dentes na polpa do fruto prohibido, já não é preciso pôr uma mascara no rosto. O fruto saboroso ahi está, ao alcance de todas as mãos, offerecendo-se, dando-se, impondo-se, com uma imprudencia que já não offende o duro olhar da Moral. Uma sociedade nova e atarefada, que não dispõe de tempo para ter escrupulos, substituiu a velha sociedade patriarchal: e assim, a mascara perdeu seu valor, porque perder sua utilidade.

 

(…)

Todos os que se rebellam contra as brutalidades do entrudo e do jogo de confetti são os primeiros a perder a cabeça, quando caem no amago de uma d’essas batalhas carnavalescas. Também é verdade que, segundo o grande Turenne, capitão glorioso que tantas vezes flauteou a morte, “o soldado só perde o medo quando se deixa embriagar pelo clamor do combate”. Ponham ahi no meio da rua do Ouvidor o mais sizudo de todos os homens sizudos, cerquem-no de uma duzia de moças alegres que o cubram de onfetti e o inundem a bisnagadas – e se, d’ahi a uma hora, o sizudo não tiver perdido a compostura e os oculos, e não estiver com a sobrecasaca esfrangalhada e a cartola amolgada, empenhado com amor e delirio nas mais violentas refregas, - então duvidem do poder do Carnaval e creiam na fortaleza do animo de um conselheiro Acacio.

 

Contaram os jornaes um caso macabro succedido na terça-feira gorda.

 

Ia um defunto, a caminho de sua derradeira morada, calmamente estirado no fundo do caixão, ao trote manso da parelha que puxava o carro funebre. Mas, quando o enterro passava por uma praça em que se dava uma delirante batalha de confetti, partiu-se uma das rodas do carro, e o pobre morto ficou alli, parado, entre as pragas do cocheiro e o delirio dos batalhadores, que, na sua allucinação, não davam conta do que se passava. Tardaram as providencias, a batalha continuou: de maneira que quando, uma hora depois, o coche negro poude marchar de novo para o cemitério, nas coroas de perpetuas roxas se emaranham as serpentinas, e o feretro ia coberto por uma camada espessa de confetti… Ora, bem! Imaginai agora que o homem não estivesse morto, mas simplesmente mergulhado na treva espessa de um sonho cataleptico, e que despertasse naquelle momento: cuidais acaso que o redivivo permaneceria transido de horror, meditando no atroz perigo de que acabava de ser milagrosamente salvo? Nada! O redivivo compraria um saco de confetti, e num momento saltaria da inercia da morte para a alegria e a agitação do Carnaval.

 

Não! Não nos revoltemos contra a brutalidade d’esses estouvados brinquedos, que podem rasgar toda a roupa de um homem, mas que lhe deixam illesa a reputação!

 

O movimento suffoca o persamento. E o estrepito, a convulsão, o infernal delirio d’essas loucuras têm ao menos uma grande vantagem: quem nelles se espelha deixa de ouvir durante algumas horas a impertinente voz que cada um de nós tem a soar perpetuamente dentro da alma – a voz do próprio tedio, do irremediavel enfaro de viver...”.

 

Fonte: Zero Hora/Juarez Fonseca/Paralelo 30 (juafons@gmail.com) em 08/03/2019.