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Contra o Machismo
Contra o Machismo

CONTRA O MACHISMO

 

A escritora Clara Averbuck e a ilustradora Eva Uviedo dedicam Toureando o Diabo (146 págs.) seu novo livro, “pras minas”.  Com jogos entre imagens, rabiscos à mão e textos, a narrativa reapresenta a protagonista Camila, a mesma do romance de estreia de Clara, Máquina de pinball (2002).  Em uma versão mais madura, a personagem retorna para discorrer sobre relações abusivas e machismo – enquanto lembra de cadernos antigos e analisa o relacionamento com alguns homens.

Viabilizado através de financiamento coletivo, o livro está sendo comercializado on-line pelo site www.evauviedo.com.br/toureandoodiabo  Na entrevista a seguir, Clara fala da parceria com Eva, com quem já trabalhou anteriormente, discorre a respeito da retomada da personagem principal e comenta sobre viver de literatura no Brasil.

 

O que veio primeiro: o retorno à personagem ou o desejo de discutir estes temas?

Acho que as coisas foram vindas juntas, mas evoluíram mesmo quando a Eva e eu começamos a criar o livro.  Os temas estavam pairando e caíram  como uma luva na Camila, ou ela caiu como uma luva para eles.

 

Qual era sua principal motivação ao apresenta-la novamente?

Quis amadurecer a personagem, pois gosto demais dela e não queria que ficasse parada no limbo de 2001 dizendo que era uma “mulherzinha com bolas”, coisa que eu jamais escreveria hoje.  Quis construir  essa Camila como uma mulher forte, mas humana, com fragilidades, que cai em cilada, que tomba e se levanta, que faz besteira e se toca, que tem crises, enfim, uma “mina” com nuances e humanidade.  Minha convivência com mulheres me fez ver que passamos por muitas situações em comum, muitas situações ruins, às vezes de abuso, e que sentimos vergonha por isso, tentamos até ignorar para não sermos tachadas de fracas, de “cheias de mimimi”. Saber que muitas mulheres passam por isso é ao mesmo tempo horrível e um alívio, pois sentimos que não estamos sozinhas, e essa foi uma das minhas intenções com o amadurecimento da Camila.

 

Como foi a relação entre você e Eva durante o desenvolvimento do livro?

A imagem complementa o texto que complementa a imagem.  Foi realmente uma coautoria.  Foram noites e noites no estúdio dela cortando texto, pensando em desenhos, procurando em bilhetes e cadernos coisas que se encaixassem na narrativa que estávamos criando.  Descartamos muito texto, acho até que dá para dizer que algumas partes foram substituídas por desenhos.  O livro fala muito de sentimentos, e a Eva tem essa série que chama Sobre amor e outros peixes, que usa os seres do mar como analogias para as nuances e sutilezas que envolvem os relacionamentos humanos como amor, dependência, carinho, dominação, paixão e essas analogias se entrelaçam de forma vital com o texto.

 

Por que decidiu por um lançamento independente?

Decidi partir para o financiamento coletivo quando vi o TED (conferência) da Amanda Palmer, A Arte de Pedir, que depois evoluiu e virou inclusive um livro.  Fiquei com aquela ideia na cabeça, aliada à minha insatisfação de ter que arrumar outros trabalhos para poder bancar a minha profissão, já que dá para contar nos dedos os escritores que vivem das vendas dos seus livros.  O autor ganha até 10% do preço de capa do livro que criou, a livraria fica com 50% ou mais, e a editora fica com cerca de 40%.  Quer dizer, você ganha uma passagem de ônibus a cada livro vendido.  Eu queria viver de escreve r livros e, do jeito que o mercado funciona, isso só acontece se você é um best-seller.  Essa foi a motivação inicial, mas, no final das contas, o fato de ter liberdade total para criar acabou gerando essa narrativa texto-ilustração que a Eva e eu criamos.

 

 

 

Fonte:   Jornal do Comércio/Caderno Panorama/Ricardo Gruner em 14 de março de 2016.