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Roupas Sujas, de Leonardo Brasiliense
Roupas Sujas, de Leonardo Brasiliense

FAMÍLIA EM PEDAÇOS

 

Por Ricardo Gruner

 

Vencedor do Prêmio Jabuti em 2007 e 2011, por ADEUS CONTO DE FADAS e TRÊS DÚVIDAS, o escritor Leonardo Brasiliense volta a publicar um livro após período de três anos. A novidade é o romance ROUPAS SUJAS (Companhia das Letras, 184 páginas), em que o autor conta a história de uma família criada no interior do Rio Grande do Sul na década de 1970. Ao longo da maior parte da narrativa, o ponto de vista é de Antônio, o sexto de sete irmãos. Ainda criança, ele perde a mãe e, pouco a pouco, vê sua família desmantelando-se – abalada por segredos e mágoas, pelo sentimento de culpa em um ambiente conservador e também por pecados cometidos. Nascido em São Gabriel, o escritor, em entrevista, fala sobre o livro e outros projetos.

 

Em 2014, você lançou uma série de livros, incluindo alguns que já estavam prontos bem antes disso. ROUPAS SUJAS é uma produção recente?

 

Em 2009, fiz a história, os personagens, os episódios, a escaleta das cenas. Faltava escrever. No fim do ano, comprei minha primeira câmera, comecei a fotografar e fiquei dois anos só fotografando. Escrevi o ROUPAS SUJAS entre 2012 e 2015.

 

Por que você decidiu escrever sobre identidade familiar?

 

Geralmente, tenho uma motivação inicial. Para o meu próximo livro, li uma notícia. Foi dali que saiu. Mas esse tipo de coisa não anoto. Não lembro por que quis mexer com isso em 2009, mas devo ter visto alguma imagem. O tema é, de fato, a família que não consegue absorver e ultrapassar as suas perdas.

 

Você usa um verso da Maria Carpi na epígrafe (O inferno é não poder aceitar o perdão). A poesia influencia, de alguma forma, sua narrativa?

 

Não. Para falar a verdade, eu não leio poesia. Leio os livros dela e de alguns amigos de Santa Maria que me dão os originais para eu olhar. Eles acham que tenho um olhar para ritmo, fonética. A dona Maria (Carpi) é minha amiga. Gosto dos livros dela porque ela consegue me fazer ler poesia. Os poemas não são avulsos, os que conheço têm um tema, e ela faz todos os poemas girando em torno dele, e aquilo vai evoluindo. Acho que o que me influencia é cinema e prosa. Mas gostei muito do livro dela (PERDÃO IMPERDOÁVEL). Li quando já estava escrevendo e acho que aquele verso é a chave para o meu livro. Se aquela gente toda se perdoasse – cada um a si próprio, principalmente –, conseguiria sair do atoleiro. O perdão, talvez, seja a chave para a convivência familiar.

 

Muitos capítulos funcionam como contos. O projeto sempre foi um romance?

 

Sim. A ideia começou completinha, assim como está no livro, em três partes. Quando comecei a escrever e a rever as coisas, cheguei a pensar se o romance não ficaria inteiro só com a primeira parte. Mas aí vi que ia amputar o que, para mim, era o principal: a questão da recorrência. Só conseguiria mostrar isso no tempo.

 

O que mais há em sua gaveta e no que está trabalhando agora?

O próximo projeto é uma novela, mas acho que vou ter que adiar por um ano, uns compromissos me atropelaram. É essa que falei que li em uma notícia: a história de um cara que vive com uma boneca de silicone. Ao mesmo tempo fiz um contrato com um agente de roteiristas – o primeiro do Brasil, por incrível que pareça, porque isso existe desde sempre nos Estados Unidos. A coisa está indo mais rápido do que pensava. Tem um projeto de série que já está com diretor e produtora. Ele também pediu para eu fazer uma adaptação do DECAPITADOS (2014).

 

Está nos planos se dedicar mais ao audiovisual?

 

Minha ideia é ir levando as duas coisas. O livro da boneca de silicone ninguém me pediu… eu não estou em um patamar em que uma editora me cobre coisas. O ROUPAS SUJAS está saindo agora, mas, entre o contrato e publicação, teve um período de cerca de dois anos. Dá para atender o agente de roteiristas e depois escrever o livro.

 

Fonte: Jornal do Comércio/Caderno Panorama em 27/11/2017.