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A Guerra Guaranítica
A Guerra Guaranítica

 

A GUERRA GUARANÍTICA

 

Saiu faz pouco um excelente livro de história do século 18 gaúcho:  A GUERRA GUARANÍTICA – O LEVANTE INDÍGENA QUE DESAFIOU PORTUGAL E ESPANHA, de Tau Golin (editora Terceiro Nome, São Paulo, coleção Brasil Rebelde).  Em prosa mais fluente do que nunca, e com uma percepção panorâmica amadurecida em algumas décadas de trabalho sobre o período – alguns com pioneirismo, sempre com farta documentação –, Tau Golin dá um relato que encaixa cada mapa, cada batalha, cada interesse, cada nome em jogo no amplo xadrez de interesses do tempo.

 

A Guerra Guaranítica mais notória aconteceu na década de 1750, envolvendo quatro forças políticas:  os reinos de Portugal e Espanha, as duas potências na América do Sul, mais a Companhia de Jesus e, membro quase sempre negligenciado nessa conta, os índios, especialmente aqueles que viviam organizados nos Trinta Povos das Missões, sete dos quais no território hoje pertencente ao Rio Grande do Sul.

 

O general índio Sepé Tiaraju morreu em fevereiro de 1756, ao que tudo indica torturado depois de ser ferido em batalha.  Essa data nos leva a futuro.

 

Duzentos anos depois dessa morte, aconteceu no Rio Grande do Sul outra guerra, que vista de agora tem seu quê de bizarrice.  Apenas 60 anos atrás, prazo histórico pequeno em vista da encrenca toda.


Essa guerra durou mais de ano e travou-se pelos jornais de Porto Alegre, especialmente o católico Jornal do Dia e o Correio do Povo.  Começou em novembro de 1955 e se estendeu até o fim de 57.  O ponto era:  seria legítimo erguer um monumento a Sepé Tiarajú?

 

 

                           

 

Ocorre que um major do Exército havia proposto erguer tal estátua, e escreveu ao governador, que encaminhou a questão à Secretaria de Educação e Cultura de então.  Esta designou o Instituto de Tradições e Folclore para decidir, mas este repassou o rojão ao Instituto Histórico e geográfico do Rio Grande do Sul.  O IHGRS, nascido nos anos 1920, estava consolidado então como árbitro das questões envolvendo a interpretação da História – isso num tempo em que o trato universitário da História era ainda tímido, quase inexistente entre nós, salvo pela existência do curso de formação de professores.  Pesquisa e debate era com o IHGRS.

 

E este Instituto dá parecer, assinado por Othelo Rosa, Moysés Vellinho e Affonso guerreiro Lima, três figuras de destaque no cenário intelectual do momento.  E o parecer é contrário à estátua.  Sim, contrário.  O motivo:  Sepé, cuja história se confunde com um mito, atuou o tempo todo a favor dos interesses castelhanos, nada tendo de valor brasileiro, eis que nosso país era aquilo que os portugueses tinham projetado e construído.  Os portugueses, não os castelhanos.

 

O prezado leitor vá fazendo a conta:  nestes anos, se afirmava o movimento tradicionalista, cuja primeira data de referência forte é a de 1948, quando é fundado o 35 CTG.  A partir dele, a história é conhecida.

 

A posição dessa comissão é apresentada em público, e logo se manifesta a visão contrária, liderada pelo padre Luiz Gonzaga Jaeger, membro do IHGRS.  Como jesuíta, pensava a partir de outro paradigma:  ao contrário da afirmação das raízes lusitanas que aquela comissão defendia, Jaeger valorizava a figura guerreira, valente, líder, do índio missioneiro, assim como o valor da lenda que cercava seu nome, necessária para formar a nacionalidade.

 

O debate incendiou o RS intelectual.  Ao lado do parecer, contra a estátua, ficaram Carlos Reverbel, Arthur Ferreira Filho, Carlos Galvão Krebs e Augusto Meyer.  Do lado oposto, Walter Spalding, Manoelito de Ornellas, Dante de Laytano, Félix Contreira Rodrigues, Mansueto Bernardi, Ruy Rubem Ruschel, o próprio Borges de Medeiros, mais o 35 CTG e outros.

 

(A briga é interessantíssima e foi bem adiante.  Um jovem Sérgio da Costa Franco, por exemplo, espinafra os dois lados, mas principalmente ataca o lusitanismo do parecer.  Para quem se interesse pelo tema, há alguns trabalhos decisivos, em especial a obra de Ieda Gutfreind, e a lamentavelmente inédita tese de Eliana Inge Pritsch, AS VIDAS DE SEPÉ, de 2004.)

 

Erico, que eu saiba, não entrou na briga explicitamente, mas poucos anos antes, em 1949, havia publicado a primeira parte de O TEMPO E O VENTO; ali, fez sua interpretação da formação do povo e da história rio-grandense, ao cruzar índios e lusos, Pedro Missioneiro e Ana Terra, cuja neta viria a casar com o paulista-lagunista Rodrigo Cambará.

 

Nem precisa dizer quem venceu essa guerra de interpretação histórica, no longo prazo.

 

Fonte:  ZeroHora/Luís Augusto Fischer/Professor de Literatura na UFRGS e escritor, em 25/10/2015