Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
15





                                             

                            

 

 

 


101 Poemas Escolhidos de Rossyr Berny
101 Poemas Escolhidos de Rossyr Berny

A INQUIETANTE POESIA DE ROSSYR BERNY

 

Escritora analisa os poemas do novo livro do autor gaúcho, cuja seleção foi de sua autoria.

 

Por jane Tutikian

Escritora, vice-reitora da UFRGS

 

Fomos brindados, na última Feira do Livro de Porto Alegre, com o lançamento de 101 POEMAS ESCOLHIDOS, de Rossyr Berny. E ele vem na hora certa. É nestes momentos de crise, como o que estamos vivendo, que a poesia se faz ainda mais necessária, e que os poetas precisam ser ouvidos para a construção de caminhos a partir da busca de nossas verdades essenciais. Por quê? Porque as palavras são pontes mesmo quando dizem o contrário do que querem dizer, porque revelam mesmo quando escondem, porque são o meio de nos unirmos ao mundo e aos nossos semelhantes. Se a palavra é ato e libertação, como dizia Sartre, o poeta é que nos possibilita a revelação do humano, do ser na vida. É mensageiro de uma realidade mais sentida, mais vivida, mais pele no que a pele tem de vida: “Aqui sobrevivo enlouquecido menino/ que sonha apenas salvar o mundo.” (“Poema Urbaníssimo”), um mundo onde “Os seres desumanos / sangram e sangram-me” (Onde o mundo chora invisível).

 

Predestinado para a dor, como todo o grande poeta, o menino transforma-se em homem-poema e o homem-poema transforma o sujeito lírico num mensageiro da paz, ainda que para atingi-la tenha que medir forças com Deus (“Queda de Braços”). Que mundo dão-se os homens, se ele não é feito de paz? Olhos da tevê mostram ao mundo/olhares agônicos de crianças palestinas/ israelenses sírias afegãs russas africanas/ - sírios incendiados por mísseis/ Olhos de Deus e de Alá/ Onde estão que não pacificam guerras? (Olhos de Deus e de Alá).

 

Berny tem uma poesia fortemente espacial. Não o espaço por si mesmo, mas pelo que ele pode desvendar da alma de um poeta que consegue ser todas as gentes e múltiplos poetas ao abarcar o mundo. O Brasil e brasília estão nos poemas, com seus “Golpes e contragolpes”, e também estão “Os pobres países da América Latina” o “Paraguai”, “Cuba”, “As ácidas luzes de Paris”, São Gabriel, entre outros. São verdadeiras histórias na pele e na paisagem, que jogam o leitor num redemoinho de realidade. Charlie Hebdo está lá, Mandela está lá, Sebastião Salgado está lá, assim como estão outros tantos personagens anônimos e miseráveis que fazem o nosso dia a dia.

 

Não se pense, porém, em desesperança. A releitura e a ressignificação do espaço e da sociedade colocados em uma perspectiva realista, como num espelho, se faz para abrir uma lacuna, por onde entra a esperança. Às vezes, em pequenos gestos, como nas “Memórias de um menino pedinte”. A infância é revisitada através da memória do pai (“Conversas na Madrugada com meu Pai”) ou em “Quentura Inocente de Voos Infantis”. Este espaço é o da casa feliz – o da acolhida. Venham buscar-me ao ninho/ de onde eu nunca deveria ter alçado voo (Gira poeta gira até desaparafusar-se”). Mas é mais, é Voltar ao útero da casa no cosmos (Dia da ida), quando tempo e espaço se confundem, e o espaço comprime o tempo e a casa, é o espaço da felicidade, do abrigo, da essência íntima e completa. Bachelard fala da “maternidade” da casa.

 

A morte e o amor, o amor ausente, também são temas recorrentes porque “foste tu a desamar o amor” (Ferido”).

 

Este “101 Poemas Escolhidos” é o 21º livro de um poeta para quem a poesia é sagrada e, por isso mesmo, traz consigo a “Palavra empunhada”. Ele tem consciência de que seu poema é pão (Invencível) assim como “Amar transforma medos / em mesas-bem-postas” (Amorosidade e questão social). É o “Poeta força tarefa”, o que veio às vidas e aos mundos ser poetas. É um homem e um poeta múltiplos.

 

Imaginação, razão, sensibilidade, sentimento e a ligação entre eles com a habilidade no manuseio da palavra traduzem-se num estilo fortemente individuado. O sujeito lírico de Rossyr Berny traz consigo a função maior na lírica moderna, não a de reproduzir, mas a de reinterpretar o mundo. E é exatamente aí que ele se debate coma consciência dos limites e decreta ser vários e não uno. Não basta ao poeta o possível, por isso, ele se abre para as várias subjetividades, para a multiplicidade, para as metáforas de translação de sentidos próprias da linguagem poética, para a plurissignificação. Ele carrega o mundo e os sonhos nos ombros.

 

Se o cerne do fazer poético de Berny é o humano, a mim parece que a chave para o entendimento do homem/ mundo apresentado não é outra senão a liberdade, o amor-liberdade, aquele que carrega consigo o desejo de justiça social. Este é, sem dúvida, um livro do nosso tempo, por isso é risco e desfazimento de certezas herdadas. É chamamento: “Quantos de nós (envergonhados) ousaremos descruzar braços e vozes?”

 

É onde reside o prazer de sua leitura: na inquietação semeada da leitura de cada poema. E quem há de negar que este é o melhor do melhor da poesia? Fecha-se o livro. Continua-se aberto “para dentro”, para descobertas outras através da amplitude artística e universal, aquelas que mobilizam sentimentos e pensamentos. É a condição-dimensão humana realizada na poesia, e só a consegue os grandes poetas.

 

Fonte: Correio do Povo/Caderno de Sábado em 23/12/2017