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101 Poemas Escolhidos de Rossyr Berny
101 Poemas Escolhidos de Rossyr Berny

A INQUIETANTE POESIA DE ROSSYR BERNY

 

Escritora analisa os poemas do novo livro do autor gaúcho, cuja seleção foi de sua autoria.

 

Por jane Tutikian

Escritora, vice-reitora da UFRGS

 

Fomos brindados, na última Feira do Livro de Porto Alegre, com o lançamento de 101 POEMAS ESCOLHIDOS, de Rossyr Berny. E ele vem na hora certa. É nestes momentos de crise, como o que estamos vivendo, que a poesia se faz ainda mais necessária, e que os poetas precisam ser ouvidos para a construção de caminhos a partir da busca de nossas verdades essenciais. Por quê? Porque as palavras são pontes mesmo quando dizem o contrário do que querem dizer, porque revelam mesmo quando escondem, porque são o meio de nos unirmos ao mundo e aos nossos semelhantes. Se a palavra é ato e libertação, como dizia Sartre, o poeta é que nos possibilita a revelação do humano, do ser na vida. É mensageiro de uma realidade mais sentida, mais vivida, mais pele no que a pele tem de vida: “Aqui sobrevivo enlouquecido menino/ que sonha apenas salvar o mundo.” (“Poema Urbaníssimo”), um mundo onde “Os seres desumanos / sangram e sangram-me” (Onde o mundo chora invisível).

 

Predestinado para a dor, como todo o grande poeta, o menino transforma-se em homem-poema e o homem-poema transforma o sujeito lírico num mensageiro da paz, ainda que para atingi-la tenha que medir forças com Deus (“Queda de Braços”). Que mundo dão-se os homens, se ele não é feito de paz? Olhos da tevê mostram ao mundo/olhares agônicos de crianças palestinas/ israelenses sírias afegãs russas africanas/ - sírios incendiados por mísseis/ Olhos de Deus e de Alá/ Onde estão que não pacificam guerras? (Olhos de Deus e de Alá).

 

Berny tem uma poesia fortemente espacial. Não o espaço por si mesmo, mas pelo que ele pode desvendar da alma de um poeta que consegue ser todas as gentes e múltiplos poetas ao abarcar o mundo. O Brasil e brasília estão nos poemas, com seus “Golpes e contragolpes”, e também estão “Os pobres países da América Latina” o “Paraguai”, “Cuba”, “As ácidas luzes de Paris”, São Gabriel, entre outros. São verdadeiras histórias na pele e na paisagem, que jogam o leitor num redemoinho de realidade. Charlie Hebdo está lá, Mandela está lá, Sebastião Salgado está lá, assim como estão outros tantos personagens anônimos e miseráveis que fazem o nosso dia a dia.

 

Não se pense, porém, em desesperança. A releitura e a ressignificação do espaço e da sociedade colocados em uma perspectiva realista, como num espelho, se faz para abrir uma lacuna, por onde entra a esperança. Às vezes, em pequenos gestos, como nas “Memórias de um menino pedinte”. A infância é revisitada através da memória do pai (“Conversas na Madrugada com meu Pai”) ou em “Quentura Inocente de Voos Infantis”. Este espaço é o da casa feliz – o da acolhida. Venham buscar-me ao ninho/ de onde eu nunca deveria ter alçado voo (Gira poeta gira até desaparafusar-se”). Mas é mais, é Voltar ao útero da casa no cosmos (Dia da ida), quando tempo e espaço se confundem, e o espaço comprime o tempo e a casa, é o espaço da felicidade, do abrigo, da essência íntima e completa. Bachelard fala da “maternidade” da casa.

 

A morte e o amor, o amor ausente, também são temas recorrentes porque “foste tu a desamar o amor” (Ferido”).

 

Este “101 Poemas Escolhidos” é o 21º livro de um poeta para quem a poesia é sagrada e, por isso mesmo, traz consigo a “Palavra empunhada”. Ele tem consciência de que seu poema é pão (Invencível) assim como “Amar transforma medos / em mesas-bem-postas” (Amorosidade e questão social). É o “Poeta força tarefa”, o que veio às vidas e aos mundos ser poetas. É um homem e um poeta múltiplos.

 

Imaginação, razão, sensibilidade, sentimento e a ligação entre eles com a habilidade no manuseio da palavra traduzem-se num estilo fortemente individuado. O sujeito lírico de Rossyr Berny traz consigo a função maior na lírica moderna, não a de reproduzir, mas a de reinterpretar o mundo. E é exatamente aí que ele se debate coma consciência dos limites e decreta ser vários e não uno. Não basta ao poeta o possível, por isso, ele se abre para as várias subjetividades, para a multiplicidade, para as metáforas de translação de sentidos próprias da linguagem poética, para a plurissignificação. Ele carrega o mundo e os sonhos nos ombros.

 

Se o cerne do fazer poético de Berny é o humano, a mim parece que a chave para o entendimento do homem/ mundo apresentado não é outra senão a liberdade, o amor-liberdade, aquele que carrega consigo o desejo de justiça social. Este é, sem dúvida, um livro do nosso tempo, por isso é risco e desfazimento de certezas herdadas. É chamamento: “Quantos de nós (envergonhados) ousaremos descruzar braços e vozes?”

 

É onde reside o prazer de sua leitura: na inquietação semeada da leitura de cada poema. E quem há de negar que este é o melhor do melhor da poesia? Fecha-se o livro. Continua-se aberto “para dentro”, para descobertas outras através da amplitude artística e universal, aquelas que mobilizam sentimentos e pensamentos. É a condição-dimensão humana realizada na poesia, e só a consegue os grandes poetas.

 

Fonte: Correio do Povo/Caderno de Sábado em 23/12/2017