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Anjo Noturno de Sérgio Sant'Anna
Anjo Noturno de Sérgio Sant'Anna

SÉRGIO SANT’ANNA CONTINUA O MESMO

 

Livro de contos ANJO NOTURNO apresenta novo mergulho em temas recorrentes do autor carioca.

 

Escreve o narrador de O CONTO FRACASSADO, que encerra o recém-lançado ANJO NOTURNO: “Não adianta, pensa o contista. Sou sempre eu mesmo”. Sim, por meio do livro, é possível perceber que seu autor, Sérgio Sant’Anna, continua o mesmo, o que não deixa de ser uma boa notícia: Aos 75 anos, o escritor pouco tem mudado o estilo de sua prosa, mas também não tem perdido o fôlego. Se o autor se repete, não parece ser por falta de inquietação – e traz algo de novo em sua jornada.

 

Um dos pontos que dá senso de continuidade em relação à obra anterior, O CONTO ZERO e OUTRAS HISTÓRIAS, é a narrativa AMIGOS. Trata-se de mais um momento em que o autor compartilha suas memórias, desta vez sobre seu passado como sindicalista da Petrobras, posto que o deixou em apuros com o golpe de 1964. Um dos grandes momentos da trama é a reconstrução do dia em que os militares tomaram o poder. Enquanto Sant’Anna procura abrigo pelas ruas do Rio, a classe média joga papel picado e comemora o triunfo contra o “comunismo”.

 

O livro se inicia com um encontro entre um casal de desconhecidos em uma festa que, entre doses de uísque e baseados, resolvem encerrar a noite juntos. Os dois vão até a casa dela, um apartamento onde um artista visual se suicidou. A jovem então demonstra grande conhecimento sobre o antigo inquilino, cuja obra também passa a impressionar o convidado. O conto é como a invocação de energia criativa, juvenil e sensual para as próximas páginas.

 

Mais um ponto alto é a narrativa TALK SHOW, em que um escritor premiado, mas isolado dos amigos e sem dinheiro, participa de um programa de auditório sensacionalista para ganhar um cachê. Com humor, o texto expõe os desajustes entre os universos da literatura e da cultura de massa.

 

Como em outros livos de Sant’Anna, também se repetem exercícios de reflexão sobre o fazer literário. O CONTO FRACASSADO, que encerra o volume e contém a frase que abriu este texto, é um exemplo claro. O narrador lista dezenas de histórias que poderia ter desenvolvido, ao mesmo tempo em que expõe o contista em relação ao seu papel no cotidiano: “Já se pegou, um tanto envergonhado, lendo um livro de um autor tão fino como Marcel Proust, enquanto os tiros de grosso calibre espocavam numa guerra acirrada ali nos morros”.

 

Com uma escrita clara, em que o narrador expõe muitas vezes seus métodos e contradições, ANJO NOTURNO conquista o leitor desde as primeiras páginas. É preciso concordar que Sérgio Sant’Anna continua o mesmo – e torcer para que não mude.

 

Fonte: ZeroHora/Mundo Livro/Alexandre Lucchese (alexandre.lucchese@zerohora.com.br) em 29/09/2017