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Biografando o Brasil
Biografando o Brasil

BIOGRAFANDO O BRASIL

 

Que o Brasil não é fácil de entender todo mundo está careca de saber.  O Tom Jobim falou que o Brasil não era para principiantes, o João Cabral de Melo Neto disse que o parto do Brasil é demorado e alguém disse que aqui até o passado é imprevisível.  Pura verdade, no fundo esse Patropi é mais para ser amado que explicado, entendido ou racionalizado.  Mestres como Sérgio Buarque de Hollanda, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Caio Prado Junior, Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, Antônio Cândido e Euclides da Cunha escreveram livros seminais sobre o Brasil, tentando nos explicar.  Deixaram boas contribuições, lições para o futuro, mas hoje, com esse País ainda mais múltiplo, confuso, dividido e mutante, quem se atreveria a explicar o que está acontecendo?

 

Ano passado, as professoras Lilia Moritz Schwarcz, da USP, e Heloisa Murgel Starling, da UFMG, lançaram um livrão (Companhia das Letras, 696 páginas) intitulado Brasil: uma biografia, que já mereceu seis reimpressões e deve se tornar um clássico no gênero.  Baseada em amplo levantamento bibliográfico, pesquisas e estudos, a obra tem o grande mérito de não ser dogmática, determinista ou teleológica.  As autoras apresentam nosso percurso histórico com suas ambiguidades, com suas luzes e sombras, vitórias e derrotas, avanços e recuos, trancos e barrancos bem brasileiros, enfim.  Duas de nossas historiadoras contemporâneas mais notáveis enfrentaram o desafio de produzir algo novo, diferente das meras cronologias históricas, análises com recortes temáticos e ensaios interpretativos que temos costumeiramente por aí.

 

O Brasil é complexo, enorme, multifacetado, um personagem com mil nuances, que se transformou em cinco séculos – e hoje ainda se transforma, com muita rapidez – e que não comporta interpretações definitivas, fechadas e limitadoras.

 

Num momento crucial de nossa história social, política e econômica, na hora em que estamos pensando no Brasil que queremos, um livro como este vem a calhar.  Estabelecendo ligações entre a grande História e os aspectos cotidianos da pequena história, da vida privada e do ambiente artístico e cultural, o livro, com sua linguagem que foge, ainda bem, ao ranço acadêmico, nos leva a narrativas políticas, sociais e econômicas mais abertas  e democráticas.

 

A questão do escravismo está em destaque.  O patrimonialismo, a violência, a questão indígena, a natureza mestiça de nossa cultura e o canibalismo cultural igualmente estão destacados na obra, como temas centrais, que, ao lado de reconhecer os avanços de nossa sociedade nesses 500 anos mostra, com grande sinceridade, os obstáculos para a construção de uma cidadania social, política e racial plena.

 

Se de um lado sabemos que não dá para contar toda a História do Brasil, é preciso, por outro, avançar em novas ideias, narrações e interpretações, para ir adiante, mesmo sabendo que não teremos explicações e respostas definitivas.

 

A PROPÓSITO...

O livro e o Brasil são uma obra aberta.  Conseguiremos consolidar a Nova República e os valores da Constituição cidadã de 1988?  Conseguiremos manter um crescimento sustentável sem dilapidar nossas grandes riquezas naturais?  No plano internacional, que papel teremos?  Conseguiremos controlar a corrupção?  Vamos conseguir separar, finalmente, o público do privado?  Esses e outros desafios estão aí, depois de biografado este personagem Brasil.  Com democracia, bons valores, harmonia, civilidade e senso coletivo, quem sabe vamos construir a nação que merecemos e deixar para trás apenas um país com tantos problemas e tantas crises.  Nossa Senhora Aparecida nos ajude!

 

 

Fonte:  Jornal do Comércio/Jaime Cimenti em 25 de junho de 2016.