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Lua de Mel em Kobane, de Patricia Campos Mello
Lua de Mel em Kobane, de Patricia Campos Mello

RESISTÊNCIA DO AMOR EM TEMPOS DE BARBÁRIE

 

A partir de história de casal, jornalista destrincha intrincado xadrez da guerra síria.

 

LIVRO: LUA DE MEL EM KOBANE – Patrícia Campos Mello – Companhia das Letras, 200 páginas)

 

Jornalista experiente, Patrícia Campos Mello não é estranha a situações perigosas: cobriu a epidemia de ebola em Serra Leoa, esteve no Afeganistão e entrevistou um líder do Estado Islâmico na Síria, entre outros atos corajosos. LUA DE MEL EM KOBANE, seu terceiro livro, nasceu de mais uma situação arriscada: a contratação de um “fixer” desconhecido para acompanhá-la durante uma visita ao Curdistão sírio em 2015.

 

O “fixer” é um morador local com bons conhecimentos sobre os acontecimentos em seu país que serve como guia e intérprete de jornalistas estrangeiros, muitas veze também jornalista. Nos conflitos que envolvem o Estado Islâmico, o perigo de sequestro de repórteres e membros de organizações humanitárias estrangeiras é muito alto – grande parte dos capturados termina sendo morto pelo grupo extremista. Alguns deles foram vendidos ao Estado Islâmico por seus “fixers”, o que torna a contratação de um desconhecido um passo arriscado.

 

Foi Alan Kurdi, o menino de três anos que se afogou com a mãe e o outro irmão ao tentar chegar de bote à Grécia, transformando-se em um símbolo do sofrimento dos refugiados do conflito, que levou Patrícia à Síria. Comovida com a história do menino, sírio de origem curda, ela decidiu ir até a cidade de Kobane, onde ele vivia antes da tentativa trágica de fuga, para encontrar sua família.

 

Ao chegar à Turquia, de onde seguiria para o Iraque e depois para a Síria, Patrícia se viu sem o “fixer” que havia contratado e precisou ir atrás de outro de última hora. Foi assim que conheceu Barzan Iso, curdo sírio que havia feito uma série de reportagens sobre o cerco do Estado Islâmico a Kobane. Após atravessar a fronteira do Iraque com a Síria, Iso, seu novo “fixer”, a esperava. No carro, com uma gata branca no colo, estava a mulher dele, Raushan. Ao conhecer melhor o casal, Patrícia percebeu que estava diante de uma história extraordinária.

 

Natural de Kobane, Iso vem de uma família envolvida com a luta pelos direitos dos curdos – grupo étnico que vive em uma região que se espalha por territórios de Turquia, Irã, Iraque e Síria com um longo histórico de opressão e conflitos de movimentos nacionalistas. Raushan nasceu em Afrin, também no Curdistão sírio. Filha de um curdo e uma russa, foi viver com a avó naquele país quando as tensões se transformaram em ameaça. Eles se conheceram pelo Facebook quando Raushan vivia na Rússia e Iso, na Turquia. O romance floresceu pela internet, e o casal partir para o Curdistão sírio logo após o casamento.

 

Kobane, perto da fronteira com a Turquia, fica em uma posição estratégica e foi palco de uma batalha decisiva contra o Estado Islâmico, que cercou a região e foi derrotado com a ajuda de uma coalizão internacional liderada pelos EUA, incluindo o Exército Livre da Síria e os peshmergas do Curdistão iraquiano, com muitas perdas para as milícias curdas. Expulso em abril de 2017, o Estado Islâmico atacou Kobane novamente em junho, massacrando 233 civis. Foi após esse último ataque que a mãe do pequeno Alan Kurdi decidiu buscar refúgio em outro país. Iso e Raushan permaneceram na cidade estilhaçada pela luta.

 

Partindo da história corajosa do casal, Patrícia destrincha em um livro curto o intrincado xadrez da guerra síria, na qual os curdos, assim como no Iraque, são uma peça importante. Em um texto enxuto, a autora consegue traçar um panorama amplo dos conflitos na região desde a invasão do Iraque pelos EUA, na esteira dos ataques de 11 de setembro de 2001, até o surgimento do Estado Islâmico e das intrincadas redes de combate e apoios internos e externos ao conflito.

 

Apesar de terem entrado em uma espécie de tratado de não agressão com as forças de Bashar al-Assad, os curdos sírios precisaram, ao longo do conflito, enfrentar a oposição da Turquia, que teme os movimentos nacionalistas curdos em seu próprio território, e ataques não só do Estado Islâmico, mas de outros grupos extremistas, como a Frente Al-Nusra, ligada à Al-Qaeda, e do Exército Livre da Síria.

 

Em março de 2016, foi declarado um sistema federativo abrangendo os três cantões no norte curdo da Síria - Jazira, Kobane e Afrin. A área autônoma é chamada de Rojava, tem o tamanho da Bélgica e 4 milhões de habitantes, 65% deles curdos. Jazira e Kobane são separados de Afrin por uma faixa controlada em parte pela oposição ao regime de Assad e parte pelo governo sírio. Segue o xadrez sangrento. Na resiliência de Iso e Raushan fica a nota de esperança no futuro.

 

Fonte: Revista Valor / Marina Della valle em 08/12/2017