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A Tradutora, de Cristovao Tezza
A Tradutora, de Cristovao Tezza

ENSAIOS SOBRE FILOSOFIA, AMOR E COPA DO MUNDO

 

No romance A TRADUTORA, Cristovao Tezza recupera personagem que apareceu em outros livros.  Tezza é autor do premiado O FILHO ETERNO, que em breve ganhará versão nos cinemas.

A TRADUTORA, romance, Record, 208 páginas.

 

Beatriz conquistou Cristovao Tezza aos poucos. A personagem apareceu pela primeira vez como coadjuvante em um conto que o autor catarinense criou depois de O FILHO ETERNO (2007), romance premiado cuja adaptação cinematográfica deve estrear em breve, com Marcos Veras e Débora Falabella.  A personagem foi crescendo, assumindo protagonismo no livro UM ERRO EMOCIONAL (2010) e dando nome a um volume de contos lançado em 2011.  Agora, é ela quem norteia o recém-lançado A TRADUTORA, narrativa longa na qual o autor demonstra mais uma vez que é capaz de escrever como poucos sob o ponto de vista feminino.

 

O romance capta a personagem na casa dos 30 anos e à beira de uma crise pessoal.  Com poucos amigos, envolvida em um relacionamento amoroso que está se esfacelando e com uma vida econômica apertada e sem perspectiva de melhora, Beatriz mergulha em seu trabalho de tradutora como uma forma de escapar da realidade.  Ela traduz para o português um livro do fictício escritor catalão Felip T. Xaveste, um filósofo com inclinação conservadora que critica conceitos como a microfísica do poder de Michel Foucault.

 

Beatriz, no entanto, não conseguirá se manter por muito tempo alheia de seus problemas.  O pensamento de Xaveste, que busca desnudar contradições da tradição filosófica identificada com a esquerda, parece também remeter às contradições de seu parceiro amoroso, um escritor de meia idade que preserva ideias românticos juvenis, mas que exerce sobre ela um domínio psicológico sufocante.  A situação começa a mudar definitivamente quando a personagem é contratada por um dirigente alemão da Fifa para ser sua intérprete em visita à Curitiba, onde Beatriz (e o próprio Tezza) mora, para os preparativos da Copa do Mundo.

 

Ao longo de três dias, Beatriz leva o estrangeiro a diferentes endereços da capital paranaense – alguns turísticos, outros nem tanto, como uma casa de umbanda.  Ao lado de um homem que jamais havia visitado a cidade onde cresceu, ela também começa a enxergar seu espaço com  novo olhar, aditivado pela leitura da filosofia iconoclasta de Xaveste.

 

O livro é narrado combinando trechos em terceira pessoa com divagações da mente da protagonista, diálogos e trechos da tradução da provocativa escrita de Xaveste.  Longe de ser linear, A TRADUTORA alterna diferentes lembranças do passado de Beatriz, em um fluxo aparentemente desordenado, que evoca a livre associação da memória.  É nesse modo de narrar que reside a maior força do livro, criando uma protagonista com densidade psicológica rara, com a qual o leitor dificilmente deixará de sentir identificação e empatia.  Tal como o trabalho de tradução da protagonista, a leitura do romance é um modo de escapar da realidade, mas também proporciona a volta ao cotidiano com novo olhar.

 

Fonte:  ZeroHora/Alexandre Lucchese (alexandre.lucchese@zerohora.com.br) em 30/09/2016.