Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
6





                                              

                            

 

 

 


Diálogos com o Horror Clássico
Diálogos com o Horror Clássico

DIÁLOGOS COM O HORROR CLÁSSICO

 

Em um mundo no qual a realidade já é por si própria algo assustadora, uma das chaves para o horror como gênero literário é escavar sua própria tradição, dialogando (e atualizando) clássicos do passado.  É essa a aproximação que o escritor Duda Falcão adota no seu volume de contos TREZE, com lançamento amanhã, às 16h, na loja Mondo Cult, em Porto Alegre.

Editor e organizador de antologias, Falcão é parte de um grupo cada vez maior de escritores locais que desbravam o fantástico na sua ficção.  É também um dos organizadores da Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre.  TREZE, como o próprio nome adverte, reúne número igual de narrativas, algumas já publicadas em antologias coletivas dedicadas a escritores canônicos do horror, como Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft.

 

 

São contos nos quais Falcão se vale de estruturas tradicionais da literatura pulp/pop:  a trama avança em sucessões de cenas unidas por elipses temporais, e a prosa se organiza em frases curtas, atingindo um ritmo entrecortado que constrói uma atmosfera de urgência.  Há também um aceno aos quadrinhos de editoras como a EC Comics e a Warren, na figura do Anfitrião, morto-vivo que, no traço de Fred Macedo, apresenta na primeira página o conjunto de histórias – recurso que Falcão já havia utilizado em seu livro de contos anterior, MAUSOLÉU (2013).

Embora TREZE seja um volume de histórias de terror, este terror emerge de cruzamentos com outros gêneros da literatura popular.  Estão lá o western (em SOB OS AUSPÍCIOS DO CORVO, um mestiço de índio e branco se lança em uma vingança contra um grupo de foras da lei); o policial hard-boiled (em ABISMOS INSONDÁVEIS, um detetive encarregado de recuperar uma joia roubada esbarra em um culto lovecraftiano) e a aventura de tons mitológicos (EADGAR E O RESGATE DE LENORA mostra um hoplita grego em busca de sua amada condenada ao Hades).

É uma literatura que se faz a partir de outros textos.  EADGAR... parte da obra de Poe; ABISMOS INSONDÁVEIS é uma variação sobre o universo de Lovecraft, OS DESEJOS DE MORRIS reimagina o conto A MÃO DO MACACO, do inglês W.W. Jacobs.  Em alguns casos, essa filiação é apenas circunstancial, e a história se deixa ler com facilidade e captura o leitor como um gancho; em outros, o conto de Falcão é tão atrelado ao original que talvez só seja de fato compreendido por quem já conhece a fonte – mas talvez seja esse o público pretendido pelo autor.  Um problema é que, para um livro tão calcado em diálogos, alguns deles por vezes soam artificiais e indistintos, como se todos os personagens tivesse a mesma voz.  Ainda assim, TREZE é um conjunto instigante que parte da tradição do horror para criar uma peça sólida de entretenimento.

 

TREZE de Duda Falcão – contos, Avec/Argonautas, 192 páginas.

 

Fonte:  ZeroHora/Carlos André Moreira (carlos.moreira@zerohora.com.br) em 15 de abril de 2016.