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Pós-Modernismo Gaúcho
Pós-Modernismo Gaúcho

PÓS-MODERNISMO GAÚCHO.

Um autor não precisa se revelar em seu texto, mas Tibério Ramos dá pistas de quem é.  Na primeira página do primeiro capítulo de “Sombras Douradas”, o gráfico alemão Gutemberg divide espaço com nerds obcecados por aplicativos.  Não, Tibério não é um nerd.  Tibério é um homem da imprensa, do bom jornalismo, que nas últimas décadas dedica-se a uma função tão nobre quanto a primeira:  ensinar.  É professor da Faculdade de Comunicação da PUCRS.  Também não esconde sua origem de nascido no Alegrete.  Conversa com o leitor sem medo de usar o “tu”.  Busca não se esconder atrás de um “você”, que ampliaria o mercado para a obra.

Em seu quarto livro pela Editora AGE, personagens transitam entre uma Europa do século XVI inflamada pelo Renascimento e o século XXI em que, nas palavras do autor, “milhões de pessoas em todos os continentes discutem em 2015 a cor imprecisa do vestido da mãe de uma noiva”.  Não ouso categorizar o livro de Tibério em um gênero.  Os desavisados poderão classificá-lo de romance pós-moderno.  Bobagem.  Tibério não é pós-nada.  É presente.  Tibério não Fragmenta.  Conecta.  Ouso dizer que é um livro inteligente em que reis, rainhas e amantes da França convivem com Renatas e Anas de Porto Alegre com o objetivo de dar prazer ao leitor.  Prazer este que segue um princípio básico do texto de qualidade.  Um bom texto levanta hipóteses, possibilidades e argumentos.  Assim é “Sombras Douradas”.  Hipóteses, possibilidades e argumentos  marcam as 263 páginas da obra, ora disfarçando-se de crítica social e cultural, ora vestindo a fantasia do romance.  O desfile de personagens históricos – até o matemático Ptolomeu está presente! – pode levar o leitor ainda na faixa dos 20 e poucos anos a correr para o Google ou Wikipédia.  Se isso acontecer, o autor pode considerar-se realizado.  Seria a prova de que sua obra conectou-se ao jovem tão seguro nas redes sociais, mas tão desconectado de uma história do antes.

A literatura de Tibério entende que estamos em um mundo que não aceita mais a fórmula da velocidade que se aprende na escola – velocidade é igual a distância sobre tempo.  Sabendo disto, o autor brinca com estes elementos.  A quebra desta fórmula traz complexidade a obra.  Em que velocidade vamos do século XVI ao XXI?  Qual é a distância entre o Aeroporto Salgado Filho, de Porto Alegre, e o Vale do Silício, na Califórnia?  Quanto tempo o conhecimento enciclopédico precisa para navegar nas redes sociais?  O autor afirma que “Sombras Douradas” é um livro de duas histórias.  Humildade.  Para o leitor insistente, é possível encontrar mais.  A obra também apresenta a história do pensamento de Tibério Ramos, um dos maiores jornalistas que o Rio Grande do Sul produziu.

 

Fonte:  Correio do Povo/caderno de Sábado/Cláudio Mércio (Professor da Famecos/PUCRS) em 05/09/2015