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Para Melhor Ler o Ocidente
Para Melhor Ler o Ocidente

PARA MELHOR LER O OCIDENTE

 

Historiador Voltaire Schilling resenha o clássico livro “PARA LER O OCIDENTE”, de José Hildebrando Dacanal.

 

De certo modo folhear e ler esta estupenda obra são como adentrar numa Galeria, não as de artes plásticas ou congêneres, mas numa exclusivamente voltada às origens mais remotas do pensamento Ocidental.  O visitante irá deparar-se com repletos salões dedicados, cada um deles, aos elementos filosóficos, teológicos, religiosos, históricos e literários do passado clássico que, entrelaçados, terminaram por germinar a maneira de ser e pensar no Ocidente.

O alentado livro do professor José Hildebrando Dacanal, um dos poucos maître à penser da sabedoria clássica ainda em atividade entre nós, tem por título “PARA LER O OCIDENTE, AS ORIGENS DA NOSSA CULTURA” (Besouro Box, 2013).  Com pouco mais de 600 páginas assemelha-se a um supercatálogo, a algo majestoso no qual praticamente ninguém relevante das três culturas que antecederam a nossa – a helênica, a judaica e a romana – está ausente.

O método por ele adotado é simples.  Passadas as primeiras páginas de introdução – na verdade uma síntese do que iremos nos deparar a seguir – percorrendo a primeira sala, passo a passo, vemos os autores e temas que foram definitivos na velha Hélade, subdivididos entre o período arcaico, o clássico e o helenístico.  Ali estão todos os que encantaram gerações e gerações de estudiosos e leitores ocidentais (Homero, Hesíodo, Sólon, Píndaro, e as escolas pré-socráticas).

Na Era Clássica somos brindados com um rol de famosos dramaturgos e comediógrafos gregos, e a dupla eminente de filósofos, Platão e Aristóteles, encerrando-a com a importância da oratória de Demóstenes, o verdadeiro defensor da independência da polis:  a Eleutéria.  Do período Helenístico, Dacanal destaca Polibio como o mais digno discípulo de Tucidides (o fundador da história política), vindo a seguir a nominata dos pós-socráticos (Epicuro, Epitecto, Marco Aurélio e Plotino), fechando a série com os autores mais discretos da literatura helenística tardia.

Na segunda espaçosa sala desta exposição das ideias alinham-se os temas ligados ao Judaísmo – os mitos fundadores – do Gênesis ao Messias.  Em seguida, destaca-se a pérola da exposição:  uma relação dos profetas.

Dos 14 citados na Bíblia, o autor selecionou seis:  Amós, Oséias, Isaías, Miquéias, Jeremias e Isaías II.  Muitos deles contemporâneos dos filósofos gregos, eles eram os porta-vozes do descontentamento popular, os pilares da moralidade, o látego dos depravados.

 

                                        

 

Numa época sem imprensa, a oratória tonitruante dos profetas abalava os poderosos, os opressores, os corruptos, os desdenhosos, sempre embalada pela indignação e ausência de justiça.  A infelicidade coletiva, arengavam os profetas, resultava do pecado dos grandes e da perdição do povo miúdo.  Daí, por sua contundência, a vida nômade que tais homens-de-Deus eram obrigados a levar para escapar dos suplícios e vergastas que os ameaçavam por todos os lados.

Cada página dedicada a eles é acompanhada por uma citação no qual facilmente se observa a qualidade literária e estilística deles.  Observe-se, por exemplo, a fúria de Amós contra os vilões e perversos na passagem a seguir:  “Acontecerá naquele dia – o oráculo do Senhor – Que farei o sol se pôr ao meio-dia/E cobrirei de trevas a Terra em pleno dia/Converterei vossas festas em luto/E vossos cantos em elegias fúnebres.../”

Dacanal tem toda a razão em repreender os que até hoje não sentem na poesia ou prosa deles o esplendor de uma literatura cuja qualidade perdura e inspira os homens de letras por séculos, incluindo nisto os “livros sapienciais” (Salmos, Cântico dos Cânticos, Provérbios, etc.)

Então se segue a parte dedicada ao Cristianismo primitivo.  Paulo é sua figura-chave.  Mesmo não tendo privado com Cristo, o apóstolo tomou a si a bandeira da cruz e do peixe e, em incansáveis viagens, difundiu a Boa Nova onde pôs os pés.  Para Dacanal, constantemente polêmico, ele é o verdadeiro herói do Cristianismo nascente.

Continuando a visita à galeria, o setor em que nos deparamos com Roma é o terceiro.  Inauguram-na os comediógrafos Plauto e Terêncio e, em seguida, Cícero centraliza a nossa atenção.  A maioria das reflexões principais do filósofo-orador (Amizade, Velhice, República, Ofícios e correspondência) merece uma síntese elucidativa muito apropriada para que a geração atual, desligada quase que totalmente dos clássicos da  Antiguidade, retome o gosto por lê-los, ou pelo menos deles se informe.

 

 

Entre a lírica dos romanos destaca a de Catulo, Horácio, Virgílio, e Ovídio, e suas respectivas obras-maiores que imortalizaram as letras latinas.  Tal como a “Eneida”.  Na história, habilidade em que os romanos se equiparam aos gregos, aparecem Júlio César, Tito Lívio, Salústio, Tácito e Suetônio, encerrando-se a sala romana com Sêneca, o infeliz filósofo e autor dramático, preceptor de Nero, que por igual mereceu ter seus títulos principais comentados.

No espaço derradeiro desta hipotética Galeria das Ideias que contém o sumo do que mais tarde gerou a cultura ocidental, o autor retorna à questão cristã, na qual expõe os nomes dos principais padres da igreja, encerrando-o com Agostinho de Hipona.

Este nobre púnico-romano, possivelmente, foi o maior escritor da cristandade.  Graças à excelente instrução, o talento para as letras somadas ao ardor do recém-converso, fez com que “As confissões” se tornassem um dos títulos mais lidos da literatura cristã, obra que certamente foi uma das mais copiadas ou editadas desde seu aparecimento no século IV (397 AD).

Ao alcançar-se a saída desta exposição, a qual bem se pode denominar de Da Magna Trindade (heleno-judaico-romana),  o visitante-leitor certamente se sentirá mais do que gratificado.  PARA LER O OCIDENTE, além de um manual erudito, é o trabalho de uma vida inteira de um mestre-de-ensino cuja façanha é fazer-se compreender pela transparência da narrativa adotada.

A formação do professor J.H.Dacanal deu-se num seminário, numa época em que os jovens se preparavam para o sacerdócio e desconheciam as ingerências da Teologia da Libertação.

Assim sendo, manteve-se apegado ao universo pré-conciliar (pré-Vaticano II, 1961-65), permanecendo ligado à influência trentina.  Isto nos faz entender as diversas menções negativas ao iluminismo e ao marxismo que surgem aqui e ali ao largo da obra.  Certamente é uma das melhores exposições da história das ideias editadas no Rio Grande do Sul nestas derradeiras décadas.

 

Fonte:  Correio do Povo/Caderno de Sábado/Voltaire Schilling (Historiador. Autor de livros como “Tempos da História” e “O Conflito das Ideias”, ambos pela L&PM) em 24/10/2015