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Simone de Beauvoir / 70 Anos de Um Clássico
Simone de Beauvoir / 70 Anos de Um Clássico

SIMONE DE BEAUVOIR / 70 ANOS DE UM CLÁSSICO

 

A MULHER DO FIM DO CONCEITO

 

O SEGUNDO SEXO de Simone de Beauvoir ainda continua criando devires em seus 70 anos.

 

Em 2015, jovens candidatos ao Enem foram questionados sobre uma frase conhecida no âmbito da história dos sistemas de pensamento na França, mas sem a abrangência que adquirira no Brasil: “Não se nasce mulher, mas torna-se”. Frase canônica que abre o segundo volume de O SEGUNDO SEXO, a obra-prima de Simone de Beauvoir comemora seu septuagésimo aniversário. A frase despertou, talvez mais nos pais do que nos próprios alunos, uma indignação perante o desconhecido que no passado teria sido reconhecida  como prova de ignorância. Em nossos tempos, a assertiva pouco entendida se transformou em declaração de guerra cultural por setores da população que desejam o regresso das conquistas profissionais feitas por mulheres e a subordinação social delas ao reino do homem.

 

Nos ritos do Ensino Superior, ao se confrontar ao desconhecido, o papel do docente é aprender para então ensinar o novo conhecimento a seus alunos. Quando for possível, o docente leva a boa nova a segmentos da sociedade afim de lhe ampliar os horizontes. Entretanto, a inclusão de uma questão sobre a obra de Beauvoir na prova máxima da transição entre o ensino para adolescentes e a aprendizagem para jovens adultos nem sequer abalou as diretrizes curriculares e as coordenações de colégios no que tange a uma definição de “mulher” pela filosofia e pelas ciências. Tal tarefa foi deixada aos cursinhos, exemplo da privatização dos saberes em que a classe média tenta preservar seu direito meritocrata em se graduar no ensino público.  

 

Além da modernidade filosófica expressa em sua mais conhecida frase, a surpresa maior do livro aparece já em sua abertura, a partir de seu tom confessional: “a querela do feminismo deu muito que falar: agora está mais ou menos encerrada”. Consideração curiosa para uma obra que se situa na vanguarda da ciência feminista, tendo sido escrita em uma época de mutação entre a primeira e a segunda onda do feminismo. O direito de voto feminino conquistado no início do século passado e a inserção no mercado do trabalho durante a Segunda Guerra Mundial acarretou em um efeito de justiça para as mulheres. Uma década depois, o conservadorismo do capitalismo ocidental lhes fechou as portas das usinas, enquanto no Bloco Comunista mulheres se tornaram cientistas e engenheiras.

 

Simone de Beauvoir nasceu em 1908 em Paris. Após uma educação católica, se graduou em matemática e filosofia pela Sorbonne quando poucas mulheres ainda ingressavam nas universidades. Colega de Claude Lévi-Strauss e Maurice Merleau-Ponty, Beauvoir se apaixonou por Jean-Paul Sartre. Com ele criou o existencialismo, uma filosofia da liberdade radical que buscava romper com o tédio cotidiano da monogamia da cultura burguesa.

 

Nos escombros da destruição do nazismo franco-alemão, o existencialismo declarava o início de um novo tempo de experimentação radical, assim transformando a vida de Beauvoir e de Sartre em um palco de notoriedade internacional. Para se dedicar à sua obra literária, Beauvoir decidiu não ter filhos, Sartre aceitando por sua vez que sua relação quitasse a dívida da monogamia. Entre romances e ensaios filosóficos, Beauvoir namorava com mulheres até encontrar o escritor estadunidense Nelson Algren, que lhe fez conhecer Chicago e seu grupo de importantes figuras da esquerda afro-americana. Ainda amorosa, ela sentir o perímetro se fechando novamente sobre seu espaço criativo. Afastando-se de Algren pela arte, ela iniciou, aos 40 anos de idade, a redação daquele que se tornaria um dos livros de filosofia mais impactantes do século vinte.    

 

Parte do primeiro volume de O SEGUNDO SEXO apareceu em maio de 1949 na revista que Beauvoir coeditava com Sartre, “Os Tempos Modernos”. Até o final do ano o livro apareceu em dois volumes, o primeiro FATOS E MITOS, e o segundo, A EXPERIÊNCIA VIVIDA. A estruturado livro deixa claro os objetivos da autora. No primeiro volume, Beauvoir orquestra um monumental levantamento de estudos científicos sobre a categoria conceitual de “mulher” e de “mulheres”. Passando pela biografia, a psicologia e a psicanálise, pela economia clássica, liberal e marxista, e finalmente destacando as encenações de figuras femininas nas mitologias indo-europeias além de personagens mulheres na literatura europeia desde o século XVIII, Beauvoir chega a uma conclusão inegável: a mulher tem sido objeto de um processo de diminuição desde a aurora das ciências. Tanto na natureza quanto na cultura, a fêmea é sistematicamente a inferior, a subordinada, a dependente do macho, a Outra de todo conceito. Enquanto ele foi sujeito, soberano, racional, forte, viril e livre, a progressão da mulher seria sempre limitada por ela ser mais fraca, passiva, subserviente, em virtude das suas emoções delicadas ou em decorrência das turbulências associadas à menstruação, à maternidade inescapável e às responsabilidades de ser mãe.   

 

Nenhuma forma de ciência ou de arte liberava a mulher. Na literatura, quando surgem mulheres independentes, a caneta dos autores homens sempre apazigua o escândalo, conforme os cânones do enredo finamente elaborado. Na época em que romances colaboravam com políticas autoritárias, as Amélias, Julietas e demais Emmas Bovaris eram condenadas pela ficção à                                 vida de prostitutas, ou a refugiar-se nos conventos, quando não a caírem em loucura, levadas ao suicídio ou a serem convenientemente mortas.  

 

Ainda são poucos os filmes e seriados televisivos que rompem com esta regra difamatória que desnuda a subjetividade das mulheres de toda autonomia. Fake news, mentiras e pré-verdade surgiram primeiramente para eliminar as mulheres independentes. Perante esta história de mentiras, O SEGUNDO SEXO se encarrega de um projeto ético: como equilibrar a filosofia e as ciências para que “a mulher” seja a referência de um conceito justo? Tal configurou o objetivo do segundo volume do livro.    

 

Em A EXPERIÊNCIA VIVIDA, a filósofa reencontra a análise existencialista. Nela, a filosofia se compromete em analisar pela primeira vez a vida cotidiana da mulher, se indagando sobre como se realizar através de um pleno potencial de liberdade. Após as mentiras expostas no primeiro volume, prossegue a construção da perspectiva da Outra. Beauvoir dera a entender que esta alternativa é também uma alteridade diante de uma vivência nunca plenamente explorada pela filosofia e pelas ciências: a singularidade da vida do sujeito feminino vista a partir das etapas formadoras de seu corpo. Literalmente escrevendo estas etapas, Beauvoir insere nas dobras da conceitualização o que era tão desconhecido que sequer podia ser descrito, pois faltavam conceitos e palavras para fazê-lo. Da infância até a puberdade, e da lésbica até a mãe e a velhice, a autora engaja novas determinações da figura do sexo feminino antes de celebrar, no último capítulo, o devir conceitual da mulher independente. 

 

A obra, tendo como objetivo valorizar o corpo da mulher, provocou uma franca discussão sobre a sexualidade. Uma primeira tradução do livro em inglês será deliberadamente despojada de filosofia para atiçar seus devaneios sexuais. Servira nos Estados Unidos da década de 1950 como manual de educação sexual antes de fornecer o discurso revolucionário da segunda onda feminista. Na visão da nova liderança, reivindicando a diferença ao invés da igualdade entre os sexos. Beauvoir será acusada de ter sido demasiado reconciliadora com o sexo angustiado. Nisto não estavam errados: os parágrafos finais de O SEGUNDO SEXO culminam em uma invocação em prol de uma nova comunidade conforme uma ideia confusa de Marx, para quem o binarismo dos sexos configura a natureza dos humanos. Inabalável, Beauvoir criara em meados dos anos 1970 a revista francesa Questões Feministas, cuja política editorial deixava poucas dúvidas: a emancipação passa pela tomada de controle judicial pelas mulheres dos seus corpos e do seu destino.

 

Sem o devir no “torna-se mulher”, não haverá performatividade de gênero, conceito central ainda da terceira onda feminista. Se O SEGUNDO SEXO hoje é geralmente reconhecido como obra-prima dentro da academia, é de lamentar quão poucos são os programas de filosofia a reconhece-lo, como se fosse para silenciosamente subscrever sua proibição no Index Librorum Prohibitorum. Os cursos nacionais de filosofia ainda demorem a reconhecer a inegável contribuição filosófica da obra, cuja autora é uma das primeiras mulheres a receber o prestigioso título de agrégée fr filosofia. Ao situar que é “através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que as meninas e os meninos apreendem o universo”, Beauvoir muda o cerne verdadeiro da diferença sexual e da identidade de gênero para desnaturalizar o corpo, onde pela “irradiação  da subjetividade se efetua a compreensão do mundo”. Contra as distorções pelas quais a filosofia é compreendida no Brasil, tal conclusão reafirma que a força da filosofia reside em sua capacidade explicativa. Que isto seja visto também como sendo seu perigo é o que demonstra que os posicionamentos perante as fronteiras e os fins do pensamento conceitual dependem da compreensão que se tem do conceito – no caso o da nova mulher trazida por Beauvoir.

 

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Norman Madarasz/Filósofo e Professor da PUCRS em 08/06/19                                                          .