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Jerome David Salinger, e sua Obra-Prima
Jerome David Salinger, e sua Obra-Prima

CEM ANOS DE SALINGER

 

O GRÃO-DE-CORVO

 

Doutor em Teoria e História Literária reflete sobre o recluso autor e sua obra-prima

 

De todas as coisas que fiz, ter sido um adolescente foi, de longe, a mais difícil. A adolescência é uma das piores coisas que podem acontecer a um ser humano, só perde para a morte. Os adolescentes sofrem com o que veem, sofrem com o que escutam e sofrem com o que falam. Querem andar mais rápido, mas nem sequer conseguem se manter em pé. Querem realização pessoal, mas nem ao menos articulam uma expressão minimamente condizente com seus desejos. Adolescentes se tornam o melhor de si mesmos somente quando há muito deixaram de ser adolescentes. O adolescente tem um monstro interno e faminto sempre à espreita, querendo eliminá-lo, extirpá-lo, arrancá-lo da vida em direção à curva, ao poste, ao engano, à morte. A adolescência é, por isso, um sonho tétrico, de onde nunca realmente saímos. As coisas dessa época são para nós, adultos-velhos, indigestas como um espelho ao despertar. Por óbvio, queríamos o futuro, a emancipação viva, o romanée conti, o mar limpo; mas alcançamos o passado requentado, a servidão voluntária, o conhaque de alcatrão e uma lagoa cheia de garrafas PET. Contra a vida, temos o sonho. Contra a adolescência temos a literatura. E foi justamente ela quem deu o maior golpe no vazio destrutivo que essa fase simbólica da vida burguesa representa. Publicado nos Estados Unidos em 16 de julho de 1951, por Jerome David Salinger, O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO, é a história de um adolescente bobo, chamado Holden Caufield, que foi expulso do colégio onde estudava e passa o livro procurando uma maneira suave de contar a notícia aos pais. Trata-se da investigação sobre os limites de nossa capacidade de combinar insatisfação e acomodação. O título faz referência a um desejo megalomaníaco de Caufield: o de se tornar o ser-providente em um mundo de imprevidências, desmandos e agonias. Ele seria a alma caridosa que resgata crianças à beira do abismo; crianças que, frutos da alegria inebriante de viver, eventualmente se distraem e se perdem na dobra do mundo. Sem dúvida, esse desejo tem a ver com uma crescente consciência da impotência de seus atos. Adolescentes, você sabe, pretendem muito e podem pouco. E isso dói.

 

O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO é, pois, uma resposta desesperada à falência das promessas de redenção da dignidade humana no pós-guerra. É, também, um libelo contra os riscos do amadurecimento; ou seja: um elogio à Síndrome de Peter Pan que resiste em cada um de nós. A década de 1950 foi um período turbulento, no qual os afro-americanos intensificaram a organização pela luta por direitos civis, e grande parte da população se viu seduzida pela retórica Macartista. Os Estados Unidos mergulharam na neurose da Guerra Fria. E ser livre virou uma política de Estado. Nesse contexto de controle e tensão, a leitura de O APANHADOR... parecia se reduzir a uma espécie de mero rito de passagem, que dizia muito mais sobre a rebeldia inconsequente da juventude do que sobre os grandes dramas da existência humana. Ficou datado, portanto. Há livros que morrem.

 

No campo pessoal, seu autor era um ser humano complicado, com uma biografia ruidosa. Ele alternava momentos de isolamento social com interações emocionais intensas. Salinger interpelou a Random House – o maior e mais relevante grupo editorial do mundo, que no Brasil tem o controle acionário da Companhia das Letras – e impediu a publicação de uma biografia a seu respeito. Alegou em juízo que as informações contidas na obra eram resultado de acesso a material bibliográfico privado, sobre o qual o biografista não teria direito autoral de consulta. Acabou por vencer a causa. E sua biografia proibida, de cerca de 300 páginas, jamais veio a público.

 

Salinger nasceu em Nova Iorque, em 1919, e morreu em Cornish, em 2010. Poupo você de fazer as contas: ele teve espantosos noventa e um anos de vida. De origem judaica, foi combatente do Exército norte-americano durante a Segunda Guerra. Foi um dos primeiros soldados a cercar o Campo de Concentração de Dachau. Lá, viu os horrores que o antissemitismo é capaz e extraiu lições mais importantes que a literatura. Foi sob efeito desse acontecimento que escreveu sua obra mais conhecida. Em uma interpretação radical, pode-se afirmar que O APANHADOR... é um livro sobre a necessidade humana de estabelecer uma conexão emocional autêntica com aquilo que nos cerca. Durante a leitura, tem-se certa impressão de que Caufield não se torna vilão porque encontra, em meio a confusão do mundo, figuras que dialogam com ele de forma generosa, apelando mais ao campo dos afetos do que o das deduções lógicas.

 

A recepção da literatura salingeriana não é, contudo, uma história vitoriosa. Por volta das 23h do dia 8 de dezembro de 1980, Mark Chapman, um homem com problemas mentais severos, atirou quatro vezes em John Lennon. O ex-beatle foi socorrido pela esposa, a artista plástica Yoko Ono, e levado ao Hospital Mount Sinai West, onde já chegou sem vida. Nas mãos de Chapman estavam a arma do crime e um exemplar de O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO. É difícil dizer que tipo de reflexo o assassino viu em Holden Caufield e nem por que motivo decidiu matar uma das maiores mentes criativas do século XX.  O que sei – e Salinger também sabia – é que não podemos escolher o destino das sementes que plantamos.

 

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Luiz Maurício Azevedo/Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp. Autor de “Por uma Literatura Menos Ordinária (Editora Figura de Linguagem), em 18/05/19