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Cixin Liu, e o Nascimento de um Clássico
Cixin Liu, e o Nascimento de um Clássico

O NASCIMENTO DE UM CLÁSSICO

 

Aviso aos leitores de ficção científica: chegou Cixin Liu, chinês responsável por uma obra do tamanho das grandes sagas históricas do gênero

 

Há um novo autor em nosso universo. Um autor grande, comparável àquele trio de escritores que aprendemos a admirar em outros tempos. Eles já faleceram e escreviam em inglês: Arthur C. Clarke, Robert Heinlein e Isaac Asimov. Há outros e outras, é claro, e vale destacar a escritora Ursula K. Le Guin, mas o trio de ouro é imbatível na rara mistura de qualidade e popularidade. O novo autor é chinês, está bem vivo, atende pelo nome de Cixin Liu e foi o primeiro escritor não anglófono a receber o prêmio Hugo, em 2015. Infelizmente a tradução brasileira foi vertida da tradução inglesa, e não diretamente do chinês, o que talvez explique alguns trechos meio obscuros. No entanto, ser um pouco obscuro, no mundo da ficção científica (FC), não é nada incomum.

 

Cixin Liu tem – assim como tiveram Clarke, Heilein e Asimov – a ousadia de imaginar universos inteiros e descrevê-los de forma dramática, sem nunca esquecer uma certa base científica real, por mais especulativa e fantasiosa que ela pareça à primeira vista. Essa é a mágica da FC: abandonar nosso mundo e criar outros – no passado, no futuro, ou em uma realidade paralela – a partir da compreensão que temos, agora, do que é o nosso mundo. Cixin Liu criou uma trilogia tão poderosa quanto a HISTÓRIA DO FUTURO, de Heinlein, e as séries FUNDAÇÃO, de Asimov, e RAMA, de Clarke. Creio que, em termos de magnitude narrativa, tanto na dimensão espacial quanto na temporal, seu objetivo era ao menos igualar as obras máximas do trio de ouro, com uma história que levasse o leitor a uma experiência imaginativa ainda mais radical. Na minha opinião, conseguiu.

 

Resumir a história que Cixin Liu conta em O PROBLEMA DOS TRÊS CORPOS, A FLORESTA SOMBRIUA e O FIM DA MORTE é tarefa quase impossível. A narrativa tem início em 1967, quando a Revolução Cultural chinesa provocava um reinado de terror nas universidades. Cientistas e acadêmicos com carreiras consolidadas eram submetidos aos absurdos dogmas revolucionários antiburgueses gritados por jovens estudantes tão furiosos quanto ignorantes. Nem todos aceitavam, e a pena era a morte. A partir daí, desenrola-se a Era Comum, que corresponde ao final do século 20 e começo do 21. Seguem-se oito outras “eras”, no futuro, todas marcadas pela difícil relação da humanidade com a civilização alienígena do planeta Trissolaris, mais adiantada científica e tecnologicamente, que pretende colonizar a Terra. Quase no final da trilogia, estamos em 2687, mas o fim propriamente dito está bem além. Talvez muito mais além.

 

Não há um protagonista, e sim uma sucessão de cientistas e militares, em sua maioria chineses. As mulheres desempenham posições decisivas na trama, o que não é muito comum no mundo da FC. Os nomes dos personagens principais não facilitam a vida do leitor: Ye Wenjie, Wang Miao, Yang Dong, Shi Qiang, Luo Ji, Zhang Baihai, Yun Tianming e Cheng Xin. No início dos três volumes, num gesto simpático para nós, ocidentais, há uma lista com esses e outros nomes, seguidos de suas profissões e parentescos. Outro desafio permanente é compreender e relacionar os trabalhos e as pesquisas desenvolvidas por astrofísicos, pesquisadores de nanomateriais, especialistas em teoria das cordas, policiais, astrônomos, sociólogos, marinheiros do espaço e, para completar, uma lindíssima robô representante de Trissolaris.

 

Contudo, o que seria da ficção científica sem a ciência? Cixiu Liu era engenheiro e tinha boa base em computação. Para escrever sua trilogia, estudou muito e conversou com cientistas de diferentes áreas: re4latividade, física quântica, exobiologia, teoria dos jogos e astronomia. Com certeza é admirador de Asimov, que inventou uma ciência ficcional totalmente nova, a Psico-História, que é explicitamente citada. Cixin Lui, com certeza, não é um estilista. Pelo menos não é na tradução da tradução. Tenho quase certeza que não é nem em chinês. Mas, vamos admitir, o trio de ouro também não era. Asimov parecia não ligar nem um pouco para frases bem feitas. Heilein escrevia como um soldado atirando com um fuzil. Clarke, o mais sofisticado dos três, às vezes perdia muito tempo com explicações desnecessárias (basta ver as primeiras versões do roteiro de 2001, que Kubrick podou impiedosamente, para nossa sorte). Cixiu Liu escreve como um engenheiro que teve um sonho muito complicado, acordou e conseguiu conta-lo sem esquecer os mínimos detalhes, graças à férrea disciplina das ciências “duras”, de onde surgiu sem aviso.

 

 

Li as 1.369 páginas de trilogia de Cixin Liu em pouco mais de três meses. Os romances até podem ser curtidos de forma independente, mas aí fica enfraquecida a ideia narrativa principal, que relaciona grandes distâncias e grandes tempos, numa aceleração constante das dimensões da realidade. Espero que mais traduções de obras de Cixin Liu sejam feitas, de preferência a partir do chinês. O trio de ouro agora é um quarteto.

 

OUTRAS SAGAS HISTÓRICAS DA FICÇÃO CIENTÍFICA

 

 

FUNDAÇÃO, de Isaac Asimov (1920-1992)

Sete volumes, escritos entre 1951 e 1992: TRILOGIA DA FUNDAÇÃO (três volumes, escritos entre 1951 e 1953), mais duas continuações e dois prelúdios (escritos entre 1986 e 1992).

 

 

HISTÓRIA DO FUTURO, de Robert Heilein (1907-1988)

Quatro volumes, escritos entre 1941 e 1973: OS FILHOS DE MATSALÉM; O HOMEM QUE VENDEU A LUA; REVOLTA EM 2100; AMOR SEM LIMITES: AS VIDAS DE LAZURUS LONG.

 

 

Série RAMA, de Arthur C. Clark (1917-2008)

Quatro volumes, escritos entre 1972 e 1993: ENCONTRO COM RAMA; O ENIGMA DE RAMA; O JARDIM DE RAMA; A REVELAÇÃO DE RAMA.

 

 

Série DUNA, de Frank Herbert (1920-1986)

Seis volumes: DUNA; O MESSIAS DE DUNA; OS FILHOS DE SDUNA; O IMPERADOR-DEUS DE DUNA; OS HEREGES DE DUNA; AS HERDEIRAS DE DUNA.

 

 

O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS, de Douglas Adams (1952-2001)

Seis volumes, escritor entre 1978 e 2001: O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS; O RESTAURANTE NO FIM DO UNIVERSO; A VIDA, O UNIVERSO E TUDO MAIS; ATÉ MAIS, E OBRIGADO PELOS PEIXES!; PRATICAMENTE INOFENSIVA.

 

Fonte: Jornal Zero Hora/Caderno DOC/Carlos Gerbase/Cineasta, professor e colunista de ZH em 29/09/19