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Dublin, Cidade Literária
Dublin, Cidade Literária

DUBLIN, CIDADE LITERÁRIA

 

Cineasta e professor universitário aborda o tanto e quanto de literatura e de seus grandes autores a capital irlandesa comporta em cada detalhe do cotidiano

 

Talvez a leitura – difícil, porém recompensadora – de ULISSES quando eu estava na faculdade, lá por 1978. Talvez a descoberta, pouco depois, de um Joyce mais acessível em DUBLINENSES. Talvez a emoção de assistir, nos anos 80, ao filme OS VIVOS E OS MORTOS, a adaptação de John Huston para o conto OS MORTOS. Talvez um exercício que costumo fazer em aula, quando falo sobre adaptações, a partir do trecho de ULISSES em que Leopoldo Bloom, numa praia quase deserta que parece Mariluz no inverno, troca olhares com uma desconhecida e depois faz coisas difíceis de decifrar (pelo menos na tradução de Antônio Houaiss). Talvez tudo isso, e mais alguma coisa que está na atmosfera que qualquer ser humano respira em Dublin, tenha me empurrado para essa série de observações sobre a cidade mais literária que já percorri na minha vida.

 

Toda cidade herda um pouco da obra de seus escritores. Paris é muito literária e é uma delícia visitar a casa onde viveu Balzac. O Rio de Janeiro é muito literário, pois Rubem Fonseca nos ensinou a caminhar nas ruas por onde também andaram Machado de Assis e Nelson Rodrigues. Porto Alegre é muito literária, no Bom Fim de Moacyr Scliar e no mapa poético de Mario Quintana. Mas Dublin é imbatível. Pra começar, os irlandeses em geral, e os dublinenses em particular, parecem ter orgulho de conviver com a memória de seus escritores e não poupam esforços para destacar suas grandes personagens ficcionais. Não é preciso ir ao museu ou à biblioteca. Basta entrar num pub ou caminhar pelas ruas do centro. Joyce está sentado no Temple Bar, e uma Molly gigantesca está na parede do Bloom’s Hotel. A literatura é cotidiana, está misturada ao uísque irlandês, à cerveja preta, à música dos bares, ao sotaque do motorista de táxi. Dublin come, bebe e respira literatura.

 

 

(...)

Dublin é um bom exemplo da convivência entre o sagrado e o mundano. Um dos passeios obrigatórios na cidade é a catedral de Saint Patrick. Muito antiga (as primeiras edificações são de 1191), a igreja sofreu diversas reformas, mas ainda conserva vestígios preciosos da história irlandesa. Mas o que mais me impressionou foi encontrar ali, com grande destaque, o túmulo e um belo busto do escritor dublinense Jonathan Swift (1667-1745) – autor de AS VIAGENS DE GULLIVER, publicado anonimamente em 1726 – sempre tão festejado pelo mestre Aníbal Damasceno Ferreira, que costumava destacar a qualidade insuperável da prosa satírica swiftiana. Em minha abissal ignorância, não sabia que Swift foi decano, ou deão (uma espécie de bispo) da catedral, e que seus sermões, alguns deles publicados, eram muito famosos. Parece haver um grande abismo entre um satirista e um pregador, mas Swift teve uma vida política movimentada, fazendo céus e terras se confundirem bem antes do horizonte. Há pistas de Swift em muitos outros locais de Dublin, inclusive na famosa biblioteca do Trinity College, fundado em 1522, onde o próprio Swift estudou.

 

 

Outra surpresa foi saber que Swift deixou toda a sua fortuna, bastante considerável, para a construção de um manicômio que, na época de sua fundação (1757), chamava-se “St. Patrick’s Hospital for Imbeciles”. Damasceno, em seus dias mais inspirados, costumava chamar seus alunos da Famecos – sempre com um tom afetuoso, é bom que fique bem claro – de imbecis. Eu fui, com muito orgulho, um dos alunos imbecis do Aníbal. Não sei se há relação direta entre a doação de Swift e o estilo docente damascênico, mas faz bem pensar que sim. Atenção: com outro nome, o hospital para imbecis continua funcionando! E as aulas do Aníbal continuam ressoando nos corredores da Famecos!

 

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Meus respeitos para quem abandonou os livros e segue amando a literatura em qualquer plataforma digital. No final das contas, o que importa são as emoções que os textos provocam na mente humana, e não o suporte onde estão as letras. Mas, confesso, gosto de ver meus livros na estante. Um arquivo digital tem cheiro, pode ser restaurado se a capa cair, pode receber anotações, revistas anos depois, que permitem chegar mais rápido àquele trecho que não deveria sair da memória, mas navega rápido rumo ao esquecimento? Provavelmente esse último item funciona até melhor no mundo digital, mas o cheiro ainda espera uma ideia empreendedora de um nerd que está para nascer.

 

Visitar a Old Library, na Biblioteca do Trinity College, com seus 200 mil volumes belamente encapados e guardados por bustos de gigantes da literatura é uma experiência para não ser esquecida. O Trinity College, fundado em 1592, é a origem da Universidade de Dublin, que tem um campus belíssimo, por onde andaram, entre outros, Swift, Beckett e Joyce. Na Old Library também está guardado o Livro de Kells, evangelho confeccionado por monges celtas no século 9. Cada página é uma obra de arte. Essa biblioteca atrai milhares de turistas todos os anos e movimenta a economia de Dublin. Com certeza rende menos que o museu da cerveja Guinness, mas, como escrevi há pouco, álcool e literatura convivem bem nessa cidade. Dizer que a cultura e as artes não são prioridade para o Brasil é uma prova de indigência mental. Além de pilares da educação, podem ser bases sólidas para movimentar o turismo de uma cidade inteligente. Dublin mostra isso todos os dias.

 

 

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Muitas cidades homenageiam seus grandes artistas com estátuas e placas. As casas de muitos deles (quando ainda estão de pé, o que é bem mais comum no Velho Mundo) são identificadas e podem ser facilmente localizadas. Algumas viram atrações turísticas e culturais. Isso também acontece em Dublin. Há inúmeras referências a Joyce, e sua casa virou museu. Contudo, o que faz de Dublin uma cidade especialmente literária é a forma como os livros e os autores se misturaram ao cotidiano dos dublinenses, antes de chegarem aos turistas. Pedi uma água mineral, e quem estava me olhando na embalagem plástica? Oscar Wilde.

 

Esse grande dramaturgo, poeta e romancista (um único romance, mas este é O RETRATO DE DORIAN GRAY) nasceu e viveu em Dublin por muitos anos. A casa de sua família está identificada e sua memória é devidamente homenageada. O que é pouco, muito pouco, considerando as grandes injustiças que sofreu em vida por ser ateu, homossexual e assumir suas convicções com coragem. Embora menos presente que Joyce, Wilde pode ser encontrado nas ruas da cidade e, é claro, na água mineral.

 

(...)

- (...) “Voltarei mais tarde hoje e vou levar também um daqueles sabonetes. Quanto custam?

- Quatro pences, senhor.

O senhor Bloom levou um sabonete às narinas. Cera limão-doce.

- Quero este aqui – disse. – Isto faz três e um pence.

- Sim, senhor – disse o farmacêutico. – Pode pagar tudo quando vier, senhor.

- Bem – disse o senhor Bloom.

Retirou-se calmamente da loja, o bastão de jornal no sovaco, o sabonete fresquenvolto na mão esquerda”.

(ULISSES, de James Joyce, tradução de Antônio Houaiss, pg. 96)

 

 

A farmácia Sweny (ou Sweny’s Pharmacy) fica bem perto da casa onde morou Oscar Wilde, mas está diretamente relacionada A James Joyce e ao seu personagem Leopoldo Bloomn. Entrei na farmácia já sabendo que ela se transformara numa espécie de loja de relíquias de Joyce e ponto obrigatório de passagem dos seus fãs no Bloom’s Day, 16 de junho. Na vitrine, há todo o tipo de coisas ligadas à literatura, inclusive uma garrafa de uísque Writer’s Tears. Fui recebido com um sorriso pelo proprietário, um senhor de cabelos brancos, gravata borboleta e terno marrom claro, que me lembrou muito o tom da capa de Ulisses na edição da Civilização Brasileira que tenho em casa. Ele atende pela alcunha de PJ.

 

PJ sabe tudo de Joyce e de Ulisses. Quando falei que era brasileiro e tinha lido o romance em português, PJ alargou o sorriso e disse que conhecia o Brasil (inclusive Porto Alegre) e já fizera algumas leituras do romance no Nordeste. Ele guarda na loja mais de 30 versões de Ulisses, inclusive em português e mandarim. Depois de falar sobre o lugar, que administra há mais de dez anos, pegou um violão e cantou uma música em gaélico, a língua nativa dos irlandeses (a primeira colonização da Irlanda é dos vikings). Tudo isso com absoluta simpatia. Comprei uma camiseta com estampa do Joyce e, é claro, um sabonete de “cera limão-doce”. Quase pedi para pagar mais tarde, e ele certamente entenderia a piada, mas havia outros clientes na loja e fiquei constrangido. Saí da Sweny pela mesma porta que, um dia, foi ultrapassada por Joyce (na vida real) e por Bloom (em ULISSES). Isso é Dublin. E minha mão esquerda fresquenvolvia o sabonete.

 

(...)

Conflito. Essa era uma das palavras destacadas numa das salas mais legais do Museu dos Escritores de Dublin. É possível ler e, ao mesmo tempo, ouvir trechos de obras literárias dos grandes autores da cidade, enquanto um telão exibe uma vídeo-arte verbal. Ao me aproximar do nicho que continha a palavra conflito, constatei que ela estava ligada a James Joyce. Ora, Joyce é o escritor do fluxo da consciência, da descoberta do monólogo interior, da delicada ação invisível e subjetiva. Por que aproximá-lo de um conceito muito mais evidente em livros movimentados e dramáticos? Aí percebi que essa associação era muito didática. Estudantes de literatura e de cinema costumam esquecer que os conflitos mais importantes não são aqueles que geram socos e pontapés no antagonista, e sim as lutas internas entre forças psicológicas dentro do herói. Leopold Bloom tem conflitos imensos consigo mesmo e com as imagens que construiu para sua esposa Molly, para seu filho espiritual Stephen Dedalus e para seu país, a Irlanda. Ponto para o curador do museu.

 

Instalado numa casa do século 18 e inaugurado em 1991, o museu abriga acervos de autores irlandeses e uma área de exposições cheia de tecnologias. Além do que já citei por aqui, há referências a Bram Stoker, George Bernard Shaw, W.B. Yeats e muitos outros. Joyce, contudo, continua sendo o número 1, com uma grande ala destinada à sua obra. O primeiro exemplar da primeira edição de ULISSES está lá. O Centro Cultural CEEE Érico Verissimo, na Rua da Praia, que abriga uma exposição dedicada ao mais conhecido autor gaúcho, é um bom exemplo do que a cidade pode fazer para reverenciar um grande autor e, ao mesmo tempo, engrandecer a si mesma. Com mais tecnologia e atrações mais interativas, poderia se transformar numa atração turística de primeira qualidade. É só aprender com Dublin.

 

(...)

Uma praia é uma praia é uma praia, a não ser que seja uma praia em Dublin, onde Leopold Bloom recostou-se numa pedra e viu Gerty MacDowell, de graciosas pernas todas belamente feiçoadas assim, suavemente flexíveis e delicadamente torneadas, e os dois trocaram olhares, e ela parecia ouvir o arquejo do coração dele, mas Bloom, grosseirão, fez coisa que não devia ser feita, nem escrita, e por isso Joyce teve muitos problemas, seu livro proibido, sua arte considerada pornográfica pelas autoridades, isso que Damares nem era nascida, nem estava formada ainda a comissão de incultura que repete em Brasília o que envergonha a Dublin de um século atrás, sim, ULISSES tem quase cem anos e tudo se repete como farsa, com personagens inverossímeis que odeiam tudo que é belo e tentam erguer igrejas feias e tristes, mais tristes que a figura negra deitada no banco da Christ Church, coitada, talvez seja Gerty, que queria padres mulheres para contar seus pecados com mais facilidade, aqueles eram outros tempos, outra Dublin, mas a praia era a mesma, nem pensar num banho, o cachorro muito irlandês fareja algo distante, talvez o odor da grosseria de Bloom, que com mão cuidadosa recompõe sua camisa molhada, fria, úmida, pós-efeito não agradável, e de repente o sol vai embora, Gerty também vai embora mancando, Joyce não era politicamente correto, oh não!, Bloom pensa que seria curioso fazer aquilo com a manca Gerty, os escritos de Joyce eram cheios de sexo e álcool e rins fritos e sentimentos irreligiosos, diziam até que admirava Beatles e satanás, e Gerty desaparece atrás de umas rochas, Bloom está aliviado, e Joyce afinal de contas conseguiu publicar o que queria, e Dublin hoje respira literatura, e Bloom e Molly e os dublinenses construíram uma cidade de pedras, músicas e letras, principalmente letras.

 

 

Fonte: Correio do Povo/Caderno de Sábado/Carlos Gerbase/Cineasta e professor universitário em 15/02/2020