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Virginia Woolf, Palestras em Cambridge
Virginia Woolf, Palestras em Cambridge

INQUIETAÇÕES LITERÁRIAS

 

UM QUARTO E RENDA PARA ESCREVER

 

Professor, tradutor e escritor se debruça em obra de Virginia Woolf sobre palestras em Cambridge

 

Retorno às mentes rebeldes de princípios do século XX, à revolucionária Virgínia Woolf, folheio TO THE LIGHTHOUSE, vem-me à lembrança a pintora Lily, personagem em que Virgínia reelabora inquietações literárias suas, salto capítulos em ORLANDO, poeta nobre que na poderosa e cosmopolita Constantinopla do século XVI se transforma em mulher, vou a THE WAFES, romance aplaudido em que monólogos se movem em ondas num mar de palavras, detenho-me em A ROOM OF ONE’S OWN, obra em que Virgínia transforma em ficção duas palestras suas proferidas em Cambridge.

 

Mary Beton, a palestrante ficcional, conversa com ouvintes sobre ideias que acabava de expor. Parecia simples discorrer sobre mulheres e ficção, bastaria conferir o que sobre elas foi escrito e o que escreveram. A questão se complica quando Mary, à beira de um rio, dois dias antes do compromisso, começa a refletir. Mês de outubro, outono europeu, a ficção está ligada ao tempo que passa, fluido, móvel, tempo de folhas em queda. Mary promete expor as ideias como elas lhe vêm; para Milton, trocar palavras em poemas é sacrilégio. A palestrante rompe convenções; do almoço, narra trivialidades culinárias que romancistas costumam ignorar, declara aderência a fatos, folhas de outono em queda, interessa-lhe a beleza perecível, chega a uma conclusão que alvoroçou feministas: “A mulher precisa de um quarto próprio e de dinheiro se quiser escrever ficção”. Mulheres não se expressavam a contento porque as circunstâncias eram adversas; em guerra com a sorte, escreviam em lugares inadequados; sujeitas a interferências de toda sorte, como esperar que sejam criativas? Escrevem banalidades? O que é banal? Como pensar, amar, dormir, depois de jantar mal?

 

No segundo capítulo, a cena é outra, o British Museum, mas o fluir das ideias não muda, fluir é a essência da verdade. Mulher seria uma ficção masculina, consideradas as personagens criadas por escritores, teatrólogos e poetas? Napoleão as declarou incapazes, Mussolini as despreza. O que dizer da teoria freudiana? O que declaram as mulheres de si? Confiem! Que seria de heróis gloriosos se mulheres não os tivessem glorificado? Mary levou anotações provisórias, a escassez do tempo obrigava pinçar pedaços, Mary expandiu o manuscrito e o transformou num ensaio de seis capítulos. Resultado, Um quarto próprio (A Room of One’s Own).

 

Como satisfazer o auditório, se a verdade não é dizível? Mary encarrega os receptores a elaborarem sua própria opinião. A ficção pode ser mais verdadeira que a vida. Mary obriga a pensar. Quem sou eu? Sou voz, uma das muitas que respondem a seus apelos. Eu disse eu, os dois eus não coincidem. O eu de agora nega o eu que falou. Corto o eu em eus para guardá-los na memória, para multiplicar-me na ação. Vejo-me na escultura de Salvador Dalí, em gavetas que se abrem e se fecham em mim, guardo lembranças, dizer desprende-se do nomeado, flui. Ser é possibilidade de ser; o eu pode mentir, admite Mary. Mary Benton, Mary Seton, Mary Carmichael...Nomes dizem o quê? Ficam aquém do nomeado, a verdade esconde-se na mentira.

 

Lírica foi a primeira expressão da mulher. Mary destaca George Eliot, Emily Brontë, Jane Austen. Mulheres sentem o que homens sentem, milhares protestam silenciosamente submissas a convenções sociais, um Tolstoi reprimido não teria escrito GUERRA E PAZ. Por que o cenário da guerra é mais importante do que ambientes domésticos? A épica, por privilegiar homens, supera a lírica? Mesmo em Proust, de vida indecisa entre o masculino e o feminino, o conhecimento sobre mulheres é limitado.

 

O que será da mulher quando ela deixar de ser protegida? Morrerá como os homens em tarefas perigosas? Ficcionistas inventam heroínas, mas na vida real as mulheres vivem como escravas. Faltam à mulher requisitos básicos para inventar. O que se pode esperar duma mulher atarefada em manter família numerosa? A mulher criativa não exige muito. Um quarto silencioso e renda satisfatória é o bastante. A mulher que se desvenda em Mary é combativa, luta para ser livre, pleiteia o direito de produzir.

 

Encerrada a exposição de Mary Beton, fala Virgíia Woolf. James Joyce distingue o eu masculino (Dedalus) do eu feminino (Molly), Virgínia funde os dois. A capacidade dos homens e das mulheres é a mesma. Críticos erram, livros medíocres recebem aplauso, avaliar é atividade prazerosa e fútil, escrever o que se deseja é o que importa, satisfazer autoridades respeitadas é traição. Liberdade intelectual repousa em base material; mulheres foram prejudicadas, faltou-lhes liberdade para se exprimirem. Importa que cada um seja o que é e tenha oportunidade para declará-lo. Virgínia Woolf elegeu a ficção.

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Donaldo Schüler/Escritor em 06/04/2019