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Simone de Beauvoir, Entre as Mulheres
Simone de Beauvoir, Entre as Mulheres

ENTRE AS MULHERES

 

Completando sete décadas este ano, O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, mantém atualidade.

 

Entre maio e outubro de 1949, a filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) publicou O SEGUNDO SEXO. Reconhecido como um marco do feminismo e com reflexões que se tornaram base do movimento, o livro – dividido em dois volumes, FATOS E MITOS e A EXPERIÊNCIA VIVIDA –, foi basilar para as ideias da chamada “segunda onda do feminismo”, que floresceu no início dos anos 1960, na Europa e América do Norte (a primeira foram os movimentos a favor do voto feminino no fim do século 19 e início do 20).

 

À época com 41 anos, Simone deixou a linguagem rígida de suas obras iniciais e, de deliberadamente, adotou uma dicção mais simples, para falar com leitoras distantes da academia sobre a experiência de ser mulher. Com rigorosas pesquisas em diferentes disciplinas, discutiu os mitos em torno da figura feminina e rebateu teorias sobre a feminilidade elaboradas por nomes importantes, de Aristóteles (384-322 a.C.) a Sigmund Freud (1856-1939), passando por Marx (1818-1883 e Engels (1820-1895).

 

De acordo com a historiadora Mary del Priore, um texto publicado na edição comemorativa lançada pela editora Nova Fronteira em março deste ano, o livro vendeu na primeira semana de lançamento 22 mil exemplares, mas foi proibido no Vaticano e criticado de forma veemente n´por movimentos políticos à esquerda e à direita.

 

Simone de Beauvoir construiu uma trajetória independente e controversa para a época. Nunca se casou nem teve filhos. Comprou um apartamento onde morava sozinha. Manteve relações homoafetivas. Se dedicou à escrita e às aulas na universidade. Poderia ter escolhido ser a mulher de Sartre (1905-1980), filósofo com quem manteve duradouro relacionamento, mas optou por ser lembrada como a escritora feminista e filósofa existencialista.

 

A seguir, alguns dos motivos pelos quais seu livro não perdeu a atualidade sete décadas depois de seu lançamento.

 

A ATUALIDADE DA OBRA

 

Marco do pensamento feminista, o livro é até hoje relevante para as mulheres contemporâneas.

 

- Enquanto leio, há aquele riso de nervoso de realmente entender         que ela está falando de mim, por mais que não esteja falando da nossa época – resume Marjuliê Martini, 36 anos, jornalista e doutoranda em Comunicação pela UFRGS, que pesquisou no mestrado o ciberfeminismo, a “quarta onda” do movimento.

 

De acordo com a pesquisadora, as formulações de Simone ainda valem para compreender velhas manobras patriarcais no atual período de alta tecnologia.

 

- O SEGUNDO SEXO não se tornou um livro superado, as questões que ele traz ainda são complexas – enfatiza Marjuliê. E complementa:

 

- O livro tem essa importância de pensar que poid3e existir outra lógica além de homens dominantes e mulheres dominadas.

 

ELA SABIA SEU LUGAR DE FALA

 

Ativista, estudante de Filosofia e escritora, Atena  Beauvoir, de 28 anos, conquistou há dois anos o direito ao seu nome social. Para simbolizar sua transição de gênero adotou como prenome Atena, filha de Zeus na antiga mitologia grega, que já nasce adulta e armada, e Beauvoir, em homenagem a Simone. A razão para a escolha é a vinculação da filósofa francesa com a corrente do existencialismo.

 

- Quando as pessoas trans rompem os conceitos de gênero, fazem o evento mais existencialista. É exatamente isso que a Simone queria, que as mulheres mudassem suas geografias existenciais. Ela mirou na mulher cisgênera e atingiu a população trans – aponta Atena.

 

Produzir uma obra que guiasse o feminismo 70 anos depois de sua publicação pode não ter sido a ambição de Simone com O SEGUNDO SEXO, por isso ela não se debruçou especificamente sobre questões históricas das mulheres negras e LGBT (na época, ainda acossadas por vários tabus). Para Atena, a escritora também não quis abordar temas dos quais não tinha propriedade.

 

- Ela sabia seu lugar de fala. É incrível. Ela diz isso. Ela tinha essa consciência racial – pondera Atena, lembrando que, em suas autobiografias, a filósofa indica contato com pessoas trans e pesquisadores negros de sua época.

 

UM  CAFÉ COMO ESCRITÓRIO

 

Em março deste ano, as bailarinas Lauren Lautert, 50 anos, Luciana Dariano, 54, e Rossana Scorza, 53, estrearam a performance BEAUVOIR-SE. As artistas resgataram pensamentos da filósofa e sua relação com os cafés de Paris para construir a coreografia apresentada no Café Camarim, em Porto Alegre.

 

- A Simone de Beauvoir trabalhou muito em café. Isso nos trouxe o universo dela, do café, da mesa, do escrever, das cartas e dos pensamentos contemporâneos – explica Rossana.

 

Simone escrevia em cafés muito por não ter uma vida estável. Durante anos, ela e Sartre viveram em hotéis. Rossana  lembra que, em uma passagem, de A FORÇA DA IDADE, Simone descreve que, sem opção de onde dormir, hospedou-se na casa de um taxista.

 

- Morei em Paris por 11 anos. A primeira coisa que fiz quando cheguei lá foi pegar as cartas dela para o Sartre. Fiquei bem mergulhada naquilo – esclarece Luciana, observando que, mesmo com o conteúdo de uma rotina simples, as cartas são uma leitura densa.

 

Cuidar de sua beleza, arranjar-se é uma espécie de trabalho que lhe permite apropriar-se de sua pessoa como se apropria do lar pelo seu trabalho caseiro; seu eu parece-lhe, então, escolhido e recriado por si mesma. Os costumes incitam-na a alienar-se assim em sua imagem. As roupas do homem, como seu corpo, devem indicar sua transcendência e não deter o olhar; para ele, nem a elegância nem a beleza consistem em se constituir em objeto; por isso não considera, normalmente, sua aparência como reflexo de seu ser.”

Página 296 de A EXPERIÊNCIA VIVIDA, segundo volume de O SEGUNDO SEXO

 

Fonte:  Zero Hora/Segundo Caderno em 24/06/19