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Paul Auster e a Arte de Inventar Solidões
Paul Auster e a Arte de Inventar Solidões

A ARTE DE INVENTAR SOLIDÕES

 

A obra de Auster sugere que o mundo é regido pelo acaso, ou por uma vontade intangível à nossa compreensão. Tal força molda nosso caráter e faz com que sejamos uma coisa e não outra. Mais que um romance de formação, 4321 é uma odisseia mundana onde seguimos a casualidade que o move o destino.

 

PAUL AUSTER (1947(, escritor norte-americano. Nova York é o cenário de seus livros. A grande metrópole, com seus habitantes e dramas, está nos romances que trazem reflexões existenciais, paradoxos e coincidências. Best-seller e consagrado ficcionista norte-americano, Auster é um escritor para ser lido e celebrado. Atuando também como roteirista e poeta, possui uma obra traduzida para mais de 40 idiomas. Ganhou fama internacional ao lançar A TRILOGIA DE NOVA YORK, eleito pelo The Guardian coo uma das cem melhores obras de ficção de todos os tempos.

 

Preservar a identidade é um trabalho de constante readaptação, à medida que novas circunstâncias impõem também um novo regime de sentidos. Isso é tão verdade a respeito da subjetividade humana como também das grandes cidades, cujas paisagens se modificam um pouquinho todos os dias, até que sejam erodidas por completo – preservando, no entanto, um nome e uma memória comuns. A mediação entre subjetividade e vida urbana serve de motor para A TRILOGIA DE NOVA YORK (1985-86), obra que introduziu ao mundo a ficção de Paul Auster.

 

O tríptico (formado por CIDADE DE VIDRO, FANTASMAS e O QUARTO FECHADO) toma emprestado de Hollywood o imaginário do cinema noir – gênero que, fascinado pela cidade e suas formas, talvez seja o único indissociável desse organismo social e geográfico. Estabelecendo paralelos entre os ofícios do escritor e do detetive, Auster contempla o paradoxo que rege a vida em comunidade nas cidades imensas: ao mesmo tempo em que força o convívio diário com milhares de estranhos, sua psicogeografia é de um tipo que induz ao isolamento. Ninguém mais adequado para investigar esse assunto, portanto, que um escritor – esse indivíduo de natureza exótica, cuja vida é dedicada a sentar-se sozinho num quarto.

 

 

A obra de Auster consiste em inventar solidões. Numa literatura na qual a identidade nacional se notabiliza como substância medular (como é, ao menos tradicionalmente, a dos Estados Unidos), sua ficção é um universo próprio, dotado de forças fundamentais particulares, ao mesmo tempo em que estabelece vínculos com diferentes tradições literárias. Antes da publicação de A TRILOGIA, Auster obteve destaque como poeta, além de ter escrito um livro de memórias e, sob pseudônimo, um romance policial. Sua ficção posterior serve de terreno comum a esses modos: são investigações íntimas empreendidas por homens em estado de afasia – incapazes de reconhecer os significados de seus entornos e, portando, livres para encontrar maneiras próprias de se relacionar com a linguagem. É a obsessão dos poetas/detetives austerianos que lhes permite articular novos sentidos e, através desse exercício poético, encontrar a si mesmos no meio do caos. A linguagem, para Auster, é o reino da transcendência humana.

 

David Zimmer, o narrador de O LIVRO DAS ILUSÕES (2002), perde esposa e filhos num trágico acidente aéreo. Prestes a cometer suicídio, encontra amparo nos filmes de Hector Mann, figura obscura das comédias silenciosas que o mundo esqueceu. A curiosidade faz com que Zimmer escreva um livro a respeito da obra de Mann. Mais tarde, descobre que o comediante ainda está vivo e que sua reclusão se deve a uma tragédia pessoal. “[Mann] passou os anos de cativeiro adquirindo uma nova linguagem com a qual pensar as condições de sua sobrevivência e dar sentido à dor constante e impiedosa que levava no coração. (…) o rigor desse seu treinamento intelectual acabou por transformá-lo em outra pessoa.”

 

4321 (2017), seu livro mais recente, é um corajoso experimento formal. Acompanha de modo intermitente, quatro versões da infância e juventude de um mesmo personagem, Archie Ferguson. Circunstâncias únicas às linhas do tempo fazem com que cada Ferguson desenvolva sua própria personalidade e, portando, sua maneira única de elaborar o mundo através da linguagem. Tornam-se escritores, mas cada Ferguson opta por trabalhar em um gênero de escrita diferente dos demais. Ainda que distintos, os quatro são apenas um, ou quatro desdobramentos de uma mesma identidade.

 

A obra de Auster sugere que o mundo é regido pelo acaso, ou por uma vantagem intangível à nossa compreensão. Tal força molda nosso caráter e faz com que sejamos uma coisa e não outra. Mais que um romance de formação, 4321 é uma odisseia mundana onde seguimos a casualidade que move o destino – se é que existe um. Coincidências, comumente tomadas como inverossímeis na literatura e no cinema, são eventos frequentes em suas histórias – mais ainda em 4321, onde só podem ser percebidas do lado de fora da vida (ou seja, pelo leitor). Sua ficção nos convida a observar e aceitar esse absurdo fundamental – que, como fica evidente nos relatos verídicos de O CADERNO VERMELHO (1995), é visto como ponte entre os níveis concreto e simbólico da existência: vida e ficção. Ao menos foi isso o que concluí ao encontrar o número do telefone de Auster, rabiscado com uma esferográfica, na contracapa de uma edição amarelada de um de seus livros, adquirida num sebo em 2013.

 

A ficção pode se dar ao luxo de ser verossímil. A vida, não.

 

 

Fonte: Zero Hora/Especial/Matheus Borges/Escritor e roteirista, graduado pela Unisinos. A COLMEIA, seu primeiro trabalho em longa-metragem, tem estreia prevista para o segundo semestre, em 14/04/2019