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Entrevista com Jean-Michel Frodon
Entrevista com Jean-Michel Frodon

ENTREVISTA COM JEAN-MICHEL FRODON

 

Crítico francês do jornal Le Monde, ex-editor-chefe da revista Cahiers du Cinéma

 

NUNCA SE VIRAM TANTOS FILMES. ESSA É A GRANDE NOTÍCIA”

 

No próximo dia 31, um dos expoentes do pensamento cinematográfico contemporâneo vai abrir em Porto Alegre o seminário internacional O ESTADO DA CRÍTICA, uma promoção da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs), em parceria com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Crítico do jornal Le Monde que atuou como editor-chefe da icônica revista Cahiers du Cinéma, o francês Jean-Michel Frodon fará a conferência de abertura do evento e dará um curso sobre cinema chinês, além de participar de três sessões comentadas em diferentes salas da capital gaúcha.

O seminário apresentará ainda mesas-redondas compostas por jornalistas e pesquisadores de vários Estados brasileiros e o lançamento do livro TRAJETÓRIA DA CRÍTICA DE CINEMA NO BRASIL, uma compilação de mais de 30 artigos que mapeiam a reflexão sobre os filmes ao longo das décadas no país – o livro tem o selo da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), apoiadora do evento (leia mais sobre a publicação e o seminário abaixo).

Na entrevista a seguir, Frodon fala sobre o que considera ser o “estado da crítica” atual e da própria cinefilia nestes tempos de streaming e compartilhamentos de filmes via internet, além de apontar destaques da produção contemporânea – que inclui o que chama de “mundo chinês”, responsável pelo que de “mais belo, criativo, diferente e sugestivo” o cinema realizou nos últimos anos, segundo ele.

 

 

O ambiente digital fez com que a comunicação, incluindo a crítica, passasse por mudanças significativas. Como o senhor vê a atualização de textos reflexivos, que demandam mais tempo de leitura, nesse contexto?

É óbvio que as tecnologias digitais geraram mudanças radicais em todos os aspectos da vida, e especialmente no campo da comunicação. Estou convencido de que nós estamos longe do fim desse processo – estamos no meio dele, quem sabe ainda nem tenhamos chegado à metade das mudanças. Assim sendo, acho que não devemos chegar a conclusões definitivas sobre nada. Um dos impactos da mudança digital é justamente o fato de haver comentários e decisões muito rápidas – que podem se revelar precipitadas. O que realmente já se sabe, hoje, é que a estrutura e o formato dos textos e de todas as outras formas de comunicação passaram por uma sacudida muito forte. Mas isso não significa que foram destruídos. A crítica de cinema é um bom exemplo: está claramente em perigo como exercício profissional, o que faz com que não tenha tido uma renovação. Mas, ao mesmo tempo, testemunhamos o florescimento de outro tipo de reflexão sobre os filmes, difundidos online. Há dezenas, talvez centenas de jovens pelo mundo se dedicando a exercitar o pensamento profundo sobre os filmes na internet com textos de qualidade – e, em geral, sem ganhar dinheiro com isso. Não nos esqueçamos de que muitos críticos “de antigamente” não tinham textos de qualidade. A divisão entre a boa e a má crítica já existia antes – e segue existindo agora. Por isso, é preciso metodologizar a análise e, assim, deixar de lado as conclusões precipitadas sobre o que está de fato ocorrendo.

 

 

Questões como a representatividade das minorias e o chamado “lugar de fala” tomaram a frente nos debates sobre política e produção artística. A própria renovação da crítica tem se dado com mais negros e mulheres, por exemplo. Como o senhor observa esse movimento na reflexão sobre a arte em geral e o cinema em particular?

Meu sentimento é o de que, falando de maneira geral, esse fenômeno é importantíssimo – mesmo quando por acaso ocorre por vias tortas, o que é bem comum. Especificamente no cinema, acredito que a “feminilização” da atividade crítica está – finalmente! – ocorrendo. Da mesma forma a inclusão LGBT. Na França, que é o país que melhor conheço – embora sua situação tenha paralelo em todo o Ocidente –, há um predomínio de homens brancos no exercício do jornalismo cultural. Ainda estamos longe de refletir sobre a arte e os filmes a partir de visões de negros, árabes e mesmo latinos – o que refletiria melhor a realidade da população francesa.

 

 

A cinefilia também está em transformação: com o streaming e o intercâmbio de arquivos de filmes via internet, a fruição e inclusive a experiência do cinema mudou. Como o senhor observa esse processo?

A experiência do cinema mudou muito… muitas vezes na história do cinema. Nós tendemos a supervalorizar o presente, acreditando que aquilo que está acontecendo é muito significativo do ponto de vista histórico. Mas imagine o impacto da chegada do som no cinema, e depois da televisão, do VHS, do DVD. Houve mudanças tecnológicas que causaram impacto global na cinefilia e na própria linguagem. O que me parece fundamental é que mais filmes estão sendo vistos por mais espectadores – em uma quantidade nunca registrada desde os irmãos Lumière. Nunca se viram tantos filmes. Essa é a grande notícia. Nós também sabemos que aqueles que assistem a muitos filmes online frequentemente vão às salas de cinema. Isso me faz não ter nada contra novos modos de acesso. Mas é claro que há questões problemáticas. Uma delas é que os cinemas deveriam seguir sendo o lugar da descoberta dos filmes, porque em geral estes são feitos para serem fruídos e sonhados na tela grande, onde o impacto causado é diferente. Outra questão fundamental que precisa ser discutida: a visibilidade das produções, muitas vezes comprometida pela influência do marketing e do próprio mercado, que elimina 90% dos filmes realizados do horizonte dos espectadores. Esse é um problema sério.

 

 

Há um abismo entre os blockbusters, que mobilizam multidões, e outros tipos de filmes, realizados à margem da indústria. Esse fenômeno talvez seja mais perceptível no Brasil, quem sabe nos EUA, e menos na França, que tem políticas mais sólidas de valorização da sua produção nacional. O senhor constata esse abismo?

A França conseguiu uma política cultural contínua, ou seja, independente das mudanças de governo, que tem valorizado o produto nacional no mínimo pelos últimos 60 anos. É claro que a economia movimentada pelos filmes locais se fortalece, mas o mais importante é que essa política tem efeitos sobre o cinema em geral. Tendo acesso ao que difere do padrão, as pessoas aprendem a conviver com a diversidade das produções, que é uma marca do cinema contemporâneo. A regulação o mercado visa ao produto nacional, mas favorece filmes de várias origens e enriquece o vocabulário audiovisual das pessoas. Os dois grandes fenômenos do século 21, que são a globalização e o advento das tecnologias digitais, aumentaram a distância entre os blockbusters e os “filmes pequenos”, sem dúvida. E o marketing, somado à agressividade de mercado, é responsável por isso. Mas há formas de os filmes menores fazerem sucesso. A reserva de mercado é importante por isso, assim como o trabalho de críticos, professores, festivais e programadores das salas de cinema e dos centros culturais.

 

 

Os parâmetros de autoria de um filme mudaram. Hoje são recorrentes os longas-metragens assinados por coletivos de realizadores e também filmes em que um único cineasta realiza todas as funções técnicas. Certos estilos associados a autores parecem mais volúveis – dependendo mais da natureza de cada projeto do que do estilo do diretor. A velha “política dos autores”, conforme criada na França à época da Nouvelle Vague, hoje parece fazer menos sentido. O senhor concorda?

Diferentemente do que em geral se diz, a “política dos autores” não valorizava a criação solitária de um cineasta, mas a margem de originalidade que grandes diretores de Hollywood (Hitchcock, Ford, Hawks…) tinham, especialmente nos filmes de gênero. Portanto, o verdadeiro sentido do cinema “de autor” tem a ver com dialéticas complexas entre as decisões individuais e o trabalho coletivo. O que estamos vendo hoje, tanto nesse campo como em outros, é uma abertura maior de possibilidades, incluindo o fato de que as ferramentas digitais permitem, ao mesmo tempo, trabalhos mais pessoais e mais coletivos. Mas devemos olhar com atenção para o que foi feito no passado antes de dizer que isso é “novo”. Pesquisadores gostam de apresentar suas reflexões como novas, mas muito dessa dinâmica entre o individual e o coletivo na autoria de um filme já existia antes.

 

 

O senhor vai ministrar um curso sobre cinema chinês. Trata-se de um tema que o senhor mesmo sugeriu. Por que o interesse pela produção, oriental e por essa cinematografia em particular?

Desde a segunda metade dos anos 1980, temos visto uma ampliação do nosso olhar, até então reduzido ao universo composto por um mundo europeu e norte-americano. É claro que havia exceções, mas muito localizadas – o cinema japonês, o Cinema Novo brasileiro etc. O que houve nas últimas décadas foi que muitos países, de todos os continentes, apresentaram evoluções notáveis. Entre esses países, o mundo chinês, que inclui Taiwan e Hong Kong, é provavelmente o mais significativo. Em minhas experiências cinéfilas, considero que esse mundo chinês trouxe o que de mais belo, criativo, diferente e sugestivo eu pude absorver. Não por acaso, essa escalada do cinema chinês se deu poucos anos após a escalada da China como um todo – o país se tornou, nos últimos anos, uma superpotência. A China mudou rapidamente, o que significa dizer que a vida de 1,5 bilhão de pessoas mudou rapidamente. O cinema produzido por essa população documenta essa mudança – com acurácia. Vejo os filmes chineses recentes como documentos de inovação estética que testemunham as mais significativas mudanças pelas quais o mundo passa.

 

 

O que mais chama sua atenção no cinema atual?

Muita coisa. Novos diretores de locais inesperados surgem a todo instante. Sinto dizer isso, mas, até onde sei, esse tem sido o caso de toda a América Latina – com menção especial para a Colômbia –, mas não do Brasil. A inovação surge das Filipinas e, em um degrau abaixo, em outras áreas do leste asiático. Nessa região, a descoberta dos filmes de Lav Diaz me parece muito significativa. Coisas interessantes apareceram no mundo árabe e no norte da África, e também no Irã, para onde tenho ido com frequência. Também têm me chamado a atenção, as extraordinárias propostas estéticas de documentários recentes no que dizem respeito ao uso dos recursos digitais, particularmente a reinvenção do “ponto de vista”, algo que fazem, por exemplo, (o britânico) Lucien Castaing-Taylor e (a suíça) Véréna Paravel (diretores de LEVIATÃ, de 2012), e a aplicação de técnicas de animação, como as dos filmes de Stefano Savona (italiano, diretor de A ESTRADA DE SAMOUNI, de 2018, e TAHRIR, de 2011, entre outros). De Lars von Trier a Lucrecia Martel, dos irmãos Dardenne a Elia Suleiman, de Avi Mograbi a Amos Gitai, de Apichatpong Weerasethakul a Alice Rohwacher, de Alexander Sokhurov a Kathryn Bigelow, há tantos cineastas e estilos que considero interessantes… Sem falar os franceses!

 

 

O senhor dirigiu a Cahiers du Cinéma quando da reformulação da revista, no início dos anos 2000. Depois, a Cahiers passou por outras mudanças, inclusive após sua saída. Acompanha a revista desde então?

Como o próprio cinema, a Cahiers mudou muitas vezes para tentar seguir lembrando o que ela sempre foi. Espero que continue mudando, para seguir sendo a Cahiers.

 

O EVENTO

 

O seminário internacional O ESTADO DA CRÍTICA é composto por debates sobre as tensões históricas e contemporâneas do pensamento sobre o cinema, a serem realizados nos dias 31 de maio e 1º de junho no campus Porto Alegre da Unisinos. Estarão presentes, além de Jean-Michel Frodon, críticos como AndréaOrmond, José Geraldo Couto, Kênia Freitas, Ivonete Pinto e Sérgio Alpendre. Até 4 de junho, Frodon realizará um curso de cinema chinês, que inclui três encontros e duas sessões de filmes, na Cinemateca Capitólio e na Sala Eduardo Hirtz da Casa de Cultura Mario Quintana. Também haverá uma sessão especial do Clube de Cinema de Porto Alegre, no dia 2 de junho, no CineBancários. Acesse a programação completa e veja como se inscrever no curso em www.accirs.com.br/oestadodacritica2019

 

 

 

O LIVRO

 

Produzido pela Abraccine e editado pela Letramento, TRAJETÓRIA DA CRÍTICA DE CINEMA NO BRASIL é resultado de um trabalho inédito, reunindo pela primeira vez a história do início e do desenvolvimento do exercício da crítica de cinema em 24 dos 27 Estados do país, incluindo o Distrito Federal. O texto sobre o exercício da crítica no Rio Grande do Sul é assinado por Fatimarlei Lunardelli, vice-presidente da Accirs. A publicação tem textos introdutórios dos pesquisadores Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet e conta com a organização de Paulo Henrique Silva, cróitico mineiro e presidente da Abraccine, que estará presente no seminário para uma mesa-redonda e para a sessão de autógrafos, que está prevista para o sábado, 1º de junho, na Unisinos Porto Alegre.

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno/Daniel Feix (daniel.feix@zerohora.com.br) em 08/05/2019