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Entrevista com Ethan Coen
Entrevista com Ethan Coen

ENTREVISTA COM ETHAN COEN

 

Não faço parte do grupo que quer se livrar do streaming”

 

Quando ele surge, no alto de uma escada, no segundo andar do quarto em que se hospeda no luxuoso hotel Casa SanAgustin, em Cartagena de las Índias, na criativa Colômbia, se percebe um andar tranquilo e um ar filosófico. Observador e afável, o cineasta, que flerta com a Filosofia e afronta o cinema comercial mundial com suas produções independentes ao lado do irmão Joel, tem fala mansa e ar reflexivo. Senta-se no sofá amplo ocupando espaço humilde, no qual repousa uma criatividade e uma ousadia narrativas que têm alcançado milhões de espectadores ao redor do mundo. Enquanto aguardava o momento de ser homenageado na recente edição do Festival Internacional de Cinema de Cartagena, há poucos dias, respondeu a todas as perguntas com sinceridade estampada nos olhos. Ethan Coen revelou, em uma conversa agradável, seu olhar sobre o cinema atual, as novas formas de produzir, distribuir e exibir no universo audiovisual, Netflix, além de refletir sobre poesia, projetos novos e sua relação com o cinema fora dos EUA.

 

 

Como você acompanha a controvérsia entre streaming e cinema tradicional. Qual o futuro disso e como influencia sua produção?

Nós fazemos filmes para serem exibidos em cinemas. Nós gastamos muito tempo trabalhando em um filme, especialmente aspectos técnicos, e esperamos que ele seja visto na melhor projeção possível e isso continua sendo na sala de cinema. Por outro lado tem duas coisas: as pessoas estão assistindo filmes nas suas casas com TVs com qualidade muito melhor de quando eu era criança, muito parecidas com salas de cinema, e o mais recente filme que eu fiz, não teria sido possível sem o financiamento de um serviço de streaming. A Netflix tem feito muitos filmes e eu incluo o nosso mais recente, que não seria possível fazer sem o serviço de streaming. Eles têm feitos muitos filmes, e filmes bons, então não consigo compreender como isso pode ser negativo. Foi uma ótima pergunta! Não faço parte do grupo que quer se livrar do streaming. É ótima qualquer forma de fazer com que mais pessoas façam mais filmes.

 

 

Como você trabalhou como diretor independente?

Trabalhando barato, com filmes que não custam muito dinheiro. O primeiro foi muito barato. Nós levantamos dinheiro de maneira independente. Ficaríamos felizes se tivéssemos um estúdio financiando se tivéssemos credibilidade, mas não teríamos a liberdade que tivemos. A única maneira de fazer esse primeiro filme foi nós mesmos conseguirmos o dinheiro. Então tivemos a prerrogativa de sermos independentes e decidir como fazer. Nós continuamos trabalhando com filmes que não custavam muito e aproveitando esta liberdade até que tivéssemos certa credibilidade e que os estúdios tivessem interesse no nosso trabalho. Eles também não tentaram nos dizer o que fazer porque já nos conheciam e nem precisamos lutar muito por financiamentos de estúdios.

 

 

Como você escolhe seus projetos? São tão diferentes um do outro. Quanto você pensa no público para definir as ideias?

Nós nunca pensamos no público. Realmente. Não fazemos pesquisa de audiência. Importa mais pensar o que faz uma boa história, o que faz um bom filme. Em geral é isso. Pensamos o que precisa acontecer aqui para termos uma boa história, na criação não pensamos se vamos ter um grande público ou não, mas como fazer as coisas funcionarem. Não é algo calculado. Entretanto, têm histórias que a gente imagina que não terão grande apoio, então tentamos fazê-los com menos dinheiro.

 

 

Os filmes de vocês têm características específicas, a gente logo reconhece um trabalho de vocês.

Isso é bom. Acho que é bom ser identificável. Porque, de certa forma, as pessoas já sabem o que podem encontrar. Até mesmo para os estúdios ou para a Netflix, que lê roteiro e sabe como vamos fazer. Isso também nos conecta a nossa personalidade e nos dá credibilidade na busca por financiamento de novos projetos.

 

 

Como é o seu sentimento quando você revê seus filmes?

Você gasta muito tempo pensando no filme, escrevendo, preparando, produzindo, gravando. Pelo menos um ano e meio ou dois e quando termina, estamos satisfeitos por poder pensar em outras coisas. Não costumo rever os filmes.

 

 

O que você conhece e sabe sobre filmes latino-americanos?

Praticamente nada. Comercialmente, é muito difícil assistir nos Estados Unidos. Não estão disponíveis. Eu gostei do filme que vi ontem a noite, no festival (“Niña Errante”). Mas tive de vir aqui para ver. É limitada exposição. E é algo diferente, um tipo diferente de filme e o que você sabe e o que você pensa sobre isso, deixe. Eu gosto daquele que vi ontem a noite sim, mas é como se eu estivesse apenas agora exposto a ele. Nunca antes, exceto agora. Então é meio que limitado.

 

Sobre os três amigos mexicanos trabalhando em Hollywood, o que você pensa sobre ROMA? Sobre a polêmica, sobre streaming e o lançamento. É bom para a Indústria?

Meu filme mais recente foi com a Netflix e é assim como fizeram com ROMA Lançam no mundo todo em uma mesma data. Eu gostaria que as pessoas pudessem ver meu filme no cinema em todos os lugares, mas a Netflix descobriu como ganhar dinheiro assim, vendendo o conteúdo para as pessoas e passando valores para a gente, em forma de financiamento, para realizar filmes.

 

 

O seu mais recente filme você começou a pensar há 20 anos, pode falar sobre a ideia desse projeto?

Sim, faz muito tempo. Para ser honesto, no começo não havia muitas ideias. Nós conhecíamos o Tim Nelson, ator que faz a primeira história do filme que é a que escrevemos 20 anos atrás. E conhecendo Tim escrevemos a história como forma de distração. É a história de um cowboy do primeiro capítulo. E nem pensamos como seria produzido e, sinceramente, nunca pensamos que poderia ser feito porque é difícil haver mercado para um curta-metragem. Neste mesmo espírito, a ordem que escrevemos, não é a mesma que você vê no filme. Escrevemos por divertimento. Não pensamos que teríamos a oportunidade de fazer o filme. Mas em certo ponto, tendo um certo número de histórias pensamos que seria viável e co o elas pareciam conectadas, não de maneira literal, mas de uma forma se comunicavam e já era o suficiente para fazer um filme, a partir delas, se escrevêssemos algumas mais. Neste momento percebemos que poderia ser um filme com capítulos separados e então escrevemos as duas últimas histórias para preencher o livro de ideia, por assim dizer.

 

 

Sobre filmes de cowboys, como está este universo?

Em termos de produção é muito difícil. Quero dizer, nesta produção é muito difícil e nós fizemos isso no TRUE GRIT (INDOMÁVEL) só porque é muita gravação exterior que coloca você à mercê do tempo, o que é irritante e frustrante. Os cavalos também são horríveis. Tudo se torna um problema. Não que não haja controle, mas é preciso estar atendo a muitas coisas que envolvem os cenários, as pessoas, os animais. É uma produção que pode se tornar muito frustrante. Mas sim, nós entramos nisto.

 

 

 

Ao acompanhar seu trabalho paralelo, a gente se pergunta da importância de escrever poesia no século XXI.

Pergunta difícil de lidar. Eu não tenho certeza da importância de qualquer um deles: histórias, de poemas, de filmes. Você é tão capaz de responder esta pergunta quanto eu, quando lê histórias ou vai ao cinema. Não sei se fazemos isso por necessidade ou por desejo. Não sei a natureza dessa coisa. Mas nós concordamos que essa coisa existe.

 

 

Se você tivesse que escolher um de seus personagens para sair e conversar, quem seria?

John Tudor Rose caracterizado no filme THE BIG LEBOWSKI.

 

 

Seus filmes têm muitos personagens. Você tem algum personagem preferido?

Não.

 

 

Você consegue imaginar fazer filme sem seu irmão, Joel?

Eu não posso nem imaginar. Começamos a fazer filmes juntos quando éramos crianças e é apenas uma parte disso em minha mente. Fazer filmes é fazer filmes com Joel, então não há como ficar sozinho nesta caminhada.

 

 

PRINCIPAIS FILMES

 

1984 – Gosto de Sangue

1986 – Arizona Nunca Mais

1990 – Ajuste Final

1991 – Barton Fink – Delírios de Hollywood

1994 – Na Roda da Fortuna

1996 – Fargo

1998 – O Grande Lebowski

2000 – E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?

2003 – O Amor Custa Caro

2004 – Matadores de Velhinha

2006 – Paris, Te Amo

2007 – Onde os Fracos Não Têm Vez

2007 – Cada um com seu Cinema

2008 – Queime Depois de Ler

2009 – Um Homem Sério

2010 – Bravura Indômita

2013 – Inside Liewyn Davis: Balada de um Homem Comum

2016 – Ave, César!

2018 – The Ballad of Buster Scruggs

 

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Marcos Santuário em 16/03/2019