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Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer
Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer

O REINADO DE FREDDIE MERCURY

 

Rami Malek impressiona com sua performance em BOHEMIAN RHAPSODY.

 

Projeto que andou aos trancos nos últimos anos, BOHEMIAN RHAPSODY estreia hoje (01/11) nos cinemas apresentando a cinebiografia do cantor britânico nascido em Zanzibar, Freddie Mercury (1946-1991), com foco nos anos em que ele reinou à frente do grupo de rock Queen.

 

Com direção de Bryan Singer, BOHEMIAN RHAPSODY – título de uma das mais famosas canções da banda – tem como grande trunfo, lógico, a trilha sonora e a performance do ator Rami Malek como Mercury, empenho espelhado nas boas atuações também de Gwilym Lee (como Brian May), Ben Hardy (Roger Taylor) e Joseph Mazzello (John Deacon).

 

O filme passa pela juventude de Mercury e os primeiros passos do Queen, destaca bastidores da criação de alguns dos clássicos do grupo e reencena com grande fidelidade trechos de shows antológicos – lembra, por exemplo, a consagração de Love of My Life embalada pelos milhares de vozes da plateia no Brasil.

 

A vida de Mercury, que morreu vitimado pela aids em 24 de novembro de 1991, seis anos depois de se descobrir soropositivo, é destacada em seu relacionamento com Mary Austin (vivida por Lucy Boynton), fã que se tornou amiga, namorada e confidente, depois que Mercury assumiu sua homossexualidade. Fãs mais atentos do Queen podem notar algumas derrapadas cronológicas de músicas e episódios, mas nada que baixe o tom emocionante do belo tributo que é BOHEMIAN RHAPSODY.

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno em 01/11/2018

 

 

NO PALCO COM FREDDIE MERCURY

 

Quando a sessão de Bohemian Rhapsody está quase chegando a duas horas de projeção, até fãs mais fervorosos do Queen podem estar com opiniões divididas sore a cinebiografia do cantor Freddie mercury, que tem acertos e erros. A semelhança física com os personagens reais alcançada pelos atores é impressionante, e alguns diálogos engraçados funcionam bem. Mas sobra dramalhão, é quase uma novela mexicana. E há cenas inverossímeis, co o mostrar a criação de alguns clássicos do rock de modo simplificado, quase boboca.

 

Mas aí entram os 20 minutos finais, e tudo se transforma numa experiência fantástica. Nunca o cinema conseguiu produzir com atores a performance de uma banda no palco com tanta fidelidade e tanta emoção. O diretor Bryan Singer, da bem-sucedida franquia dos X-Men, acerta em cheio na proposta de causar impacto nos fãs da banda britânica. Ele poderia apelar pra os últimos momentos da vida de Mercury, morto em 24 de novembro de 1991, seis anos depois de se descobrir soropositivo. Mas o cineasta descarta o baixo astral para fazer do filme uma celebração entusiasmada de um dos maiores grupos da história do rock.

 

Não é fácil sintetizar em um longa as duas décadas de estrelato do Queen. Mais difícil ainda porque o filme precisa dar espaço para os muitos hits do grupo. Assim,o período inicial dessa jornada é contado em muitas cenas curtas. Em poucos minutos, o espectador vê como um Freddie Mercury cheio de confiança se oferece para a vaga de vocalista na Smile, banda pouco conhecida do guitarrista Brian May e do baterista Roger Taylor.

 

Ao mesmo tempo, ele conhece Mary Austin e se envolve com essa jovem tiete. As derrapadas começam aí. Como tem muita coisa para contar, o roteiro resume demais passagens interessantes na trajetória da banda. O relacionamento de Mercury com Mary, intenso na vida real, é açucarado em demasia. O papel dela foi mudando com o decorrer do tempo. De amiga, passou a namorada. Depois eles se firmaram como um casal e, quando Mercury se sentiu à vontade para experiências homossexuais, ela rompeu o casamento, mas permaneceu a seu lado como confidente e melhor amiga. Herdou, ainda, a maior parte da fortuna do cantor.

 

 

Brasil tem destaque na história do Queen

 

O personagem demora a iniciar suas relações com homens. Biografias confiáveis de Mercury dão conta que ele seguiu seus desejos bem mais cedo. No período que pode ser chamado de “anos selvagens” do cantor, com orgias estimuladas por substâncias químicas variadas, o foco do filme é errático, sem aprofundamento. Nada é explícito, e o que é insinuado parece rasteiro, esquálido. Um roteiro um tanto envergonhado.

 

Mas dois quesitos transformam BOHEMIAN RHAPSODY em programa obrigatório – elenco e música. Americano de família egípcia, o ator Rami Malek ganhou destaque como protagonista da série televisiva Mr. Robot. Para interpretar Mercury, recorre a uma prótese para exibir os dentes salientes, marca visual do cantor. Mas os olhos um tanto esbugalhados do ator deixam o resultado meio estranho. Os três colegas de banda de Mercury aparecem em caracterizações minuciosas. O americano Joseph Mazzello interpreta o baixista John Deacon, e o papel do baterista Roger Taylor fica com o britânico Ben Taylor. Mas é o também britânico Gwilym Lee que deixa fãs boquiabertos como o guitarrista Brian May.

 

Nem tudo no filme apresenta essa obstinação pela reprodução fidelíssima da história real. Episódios ganham elementos ficcionais em nome da carga dramática, como a briga da banda com o diretor de gravadora que rejeita a longa canção Bohemian Rhapsody como um single. Essa questão foi debatida em inúmeras reuniões, e não na teatral discussão do filme.

 

Além dos exageros, há imprecisões de datas, uma delas relacionada com o Brasil. O filme acerta ao mostrar que foi o público brasileiro que criou a prática de cantar em uníssono a canção Love of My Life, algo depois imitado por plateias do Queen em outros países. No entanto, isso aconteceu em 1981, no estádio do Morumbi, em São Paulo, quando Mercury já havia adotado o bigode. No filme, tudo errado – usam imagens da plateia do Rock in Rio de 1985, mas reproduzem o episódio como sendo em um show no Rio de Janeiro antes de 1980, com o Mercury ainda sem o icônico bigode. Há uma confusão na ordem de lançamentos de algumas músicas. We Will Rock You, de 1977, aparece sendo criada já na década de 1980. Se detalhes como esses podem provocar a ira dos fãs mais fervorosos, todos os erros ficam perdoados depois da apoteose final. O diretor foi muito ousado ao reconstituir um show do Queen. Sua recriação é tão caprichada que, em enquadramentos distantes do palco, são as imagens reais que aparecem, em sintonia impecável com tomadas mais próximas, com os atores.

 

O público vai deixar o cinema em êxtase. BOHEMIAN RHAPSODY apesar dos defeitos, emociona demais.

 

 

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=FB98_gqPNdY

 

 

Fonte: Zero Hora/Caderno Fíndi/Thales de Menezes (Folhapress) em 04/11/2018.