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Parasita, de Bong Joon-ho
Parasita, de Bong Joon-ho

PARASITA É TUDO O QUE DIZEM

 

Vencedor do Festival de Cannes é favorito ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Filme: PARASITA (Gisaengchung) de Bong Joon-ho – Coreia do Sul

 

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, PARASITA (Gisaengchung) é também um dos grandes sucessos de crítica na temporada – está com nota 95 no site Metacritic – e desponta como favorito ao Oscar de filme estrangeiro. Há quem aposte que o longa-metragem da Coreia do Sul possa disputar outras categorias, incluindo a principal.

 

Se essas credenciais não são suficientes para fazer você correr a um dos cinemas que o exibem em Porto Alegre, listo aqui cinco dos motivos que tonam PARASITA um dos melhores títulos de 2019 – se não for o melhor.

 

  1. A trama surpreendente

Revelar demais sobre a sinopse seria estragar a experiência do espectador. Porque há uma virada de roteiro – um plot twist, como se diz – realmente inesperada, que conduz o filme a caminhos bem distintos daqueles que poderíamos ter vislumbrado. O que posso dizer, sem avançar no sinal, é que os personagens principais são os Kim, uma família de desempregados em busca de ascensão. Literalmente, afinal, eles moram em uma casa onde quase metade do pé-direito fica abaixo do nível da rua. Volta e meia, sua “vista” é atrapalhada por um bêbado urinando na sarjeta. Os quatro se sustentam à base de bicos, como montar embalagens de pizza, caçam o wi-fi da vizinhança e mal se incomodam quando o inseticida aplicado na calçada entra pela janela – “Dedetização grátis!”, diz o pai. Esse cotidiano começa a mudar quando Ki-woo, o filho, ganha de um amigo a oportunidade de se passar por professor de inglês para a filha adolescente de uma família rica, os Park. Será a porta de entrada para um mundo melhor?

 

  1. A transição de gêneros

PARASITA é um filme que, no início, parece uma comédia farsesca. Depois, com um misto de fluidez e imprevisibilidade, deriva para o thriller de suspense, para o drama social, para o terror urbano, até que tudo se embaralha. Essa transição entre gêneros e entre tons (da caricatura à gravidade) é uma característica na obra do diretor, Bong Joon-ho, 50 anos. O HOSPEDEIRO (2006), que o lançou para o mundo, é uma ficção científica sobre monstros, mas também traz humor ácido e crítica política. MOTHER (2009) imbrica investigação policial e discussão filosófica. OKJA (2017) mescla fábula Disney, discurso ambientalista e sátira do capitalismo globalizado ao retratar a relação entre uma criança e um porco geneticamente modificado.

 

  1. A crítica social

Este é o tópico que pode conter SPOILERS. Vamos lá? Em um mundo onde os 26 mais ricos somam o mesmo patrimônio dos 3,8 bilhões mais pobres, PARASITA não tem pudor em apontar para quem devemos estender nossa empatia. Sim, os protagonistas são vigaristas e tomam algumas atitudes drásticas. Mas pai, mãe, filho e filha são unidos, riem juntos, esforçam-se para estarem sempre perto uns dos outros, ao contrário da família da mansão, que quase nunca aparece reunida e que trata as pessoas como produtos descartáveis – demitir alguém que trabalha há anos para eles não provoca dor de cabeça. Aliás, vivem tão despreocupadamente, que acabam alheios à pobreza que os rodeia. A não ser que os miseráveis estejam embaixo de seu nariz. Ah, aí o preconceito vem à tona – o empresário do ramo da tecnologia reclama do “cheiro de rabanete velho” que sente quando precisa usar o metrô. Para quem viu DOWNTON ABBEY, o filme, PARASITA será uma espécie de contraponto. Se na obra britânica empregados brigam pela honra de servir a realeza, na sul-coreana pobres duelam entre si pela sobrevivência, mesmo que isso signifique subserviência, insalubridade e exploração. Se lá os patrões são amistosos, aqui o senhor do castelo deixa claro que há um fosso social a ser respeitado: “Não suporto pessoas que cruzam o limite”.

 

  1. A cenografia e a fotografia

Cenários e enquadramentos foram bastante planejados para ilustrar e reforçar os pontos do item anterior. Os Kim moram todos apertados, isto é, estão muito próximos. A casa dos Park tem espaços abertos, quase vazios, simbolizando a falta de calor humano na família. Merece destaque, como bem apontou o crítico Inácio Araújo na Folha de S. Paulo, o buraco negro que delimita, na mansão, o espaço dos ricos, com ampla iluminação (natural e artificial), e o dos pobres, subterrâneo e escuro. Estes últimos, em uma cena importante, precisam rastejar como as baratas no lar dos Kim.

 

  1. O trabalho do elenco

Direção vigorosa, roteiro brilhante e competência técnica seriam desperdiçados se não houvesse atores que, a despeito de um idioma com o qual estamos pouco habituados, se comunicassem tão bem com o espectador. O jovem Choi Woo-sik, que faz Ki-woo, será nossos olhos, cheios de esperança e de espanto. Lee Sun-kyun e Jo Ye-jong, que interpretam o casal Park, cumprem bem seus papéis – ela como a sonsa, ele como o insensível. Mas é de Song Kang-ho, um habituê dos filmes de Bong Joo-ho, o grande desempenho de PARASITA. Na pele do pai dos Kim, Ki-taek, um sujeito aparentemente cansado pela vida, mas ainda conhecedor dos atalhos, Kang-ho profere o monólogo que parece sintetizar as consequências do apartheid social retratado pelo diretor – um tema que Joon-ho já havia abordado no drama pós-apocalíptico O EXPRESSO DO AMANHÃ (2013). Esse abismo, que não se restringe à Coreia do Sul, que pode ser observado em qualquer grande cidade brasileira, acaba por anular os sonhos e por produzir resignação.

- Se você faz um plano, a vida nunca funciona assim. O melhor plano é não ter planos – afirma Ki-taek. – Sem planos, nada pode dar errado. Se algo fugir do controle, não importa.

 

 

Fonte: Jornal Zero Hora/Caderno Fíndi/Ticiano Osório (ticiano.osorio@zerohora.com.br) em 17/11/19