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Cinebiografia de Kafka por Diretora Polonesa
Cinebiografia de Kafka por Diretora Polonesa

KAFKA GANHA CINEBIOGRAFIA QUE PARECE UM CALEIDOSCÓPIO; FILME ESTREIA EM PORTO ALEGRE

Diretora polonesa Agnieszka Holland assina "Franz" (2025), título em cartaz na Sala Eduardo Hirtz

 

Estreou nesta quinta-feira (2) no Brasil um filme sobre o escritor Franz Kafka (1883-1924) que foge bastante das cinebiografias convencionais. Trata-se de Franz (2025), título dirigido pela polonesa Agnieszka Holland. Em Porto Alegre, está em exibição apenas na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, com sessões às 19h — exceto na segunda-feira (6), quando o cinema não abre, e na quarta (8), por causa de outro evento.

 

Autor de A Metamorfose, O Processo, O Castelo, Carta ao Pai e de contos como Na Colônia Penal e Um Artista da FomeKafka é um dos escritores mais icônicos e estudados do século 20. Ele já havia sido retratado em pelo menos outros dois filmes. 

 

O mais recente é praticamente inédito no Brasil, a coprodução entre Alemanha e Áustria Die Herrlichkeit des Lebens (2024) — talvez sua única exibição tenha ocorrido no Goethe-Institut Porto Alegre, no dia 28 de agosto de 2024. Dirigido por Judith Kaufmann e Georg Maas, é uma adaptação do romance O Esplendor da Vida, de Michael Kumpfmüller, publicado pela editora gaúcha L&PM. A trama se concentra no último ano de vida do escritor tcheco. Fragilizado pela tuberculose, Kafka (interpretado por Sabin Tambrea) encontra o amor nos braços de Dora Diamant (personagem de Henriette Confurus) durante as férias no Mar Báltico.

 

O outro filme é mais famoso, embora atualmente também esteja fora do alcance no streaming (mas pode ser encontrado em DVD lançado pela Lume Filmes): Kafka (1991), de Steven Soderbergh. Não é exatamente uma cinebiografia, porque o diretor transforma o escritor em personagem de uma trama sobre paranoias e obsessões ambientada na cidade de Praga, em 1919. Com uma deslumbrante fotografia em preto e branco, que emula tanto o Expressionismo Alemão quanto o noir americano, Soderbergh conta a história de um certo Kafka (papel de Jeremy Irons), burocrata do serviço público e escritor nas horas vagas. Ele vive num lugar controlado por senhores que ditam ordens de um misterioso castelo. 

 

Franz foi o filme escolhido pela Academia Polonesa para disputar uma vaga no Oscar internacional de 2026, mas não chegou a entrar na lista dos 15 semifinalistas. Um dos trunfos, além da proeminência de Kafka no imaginário coletivo — mesmo quem nunca leu seus livros deve saber o que significa o adjetivo kafkiano —, era o nome da diretora Agnieska Holland, 77 anos, que assina o roteiro com Marek Epstein. 

 

Ela dirigiu dois títulos que concorreram ao Oscar de longa estrangeiroColheita Amarga (1985, representando a Alemanha Oriental) e Na Escuridão (2011, pela Polônia), e foi indicada ao troféu de roteiro adaptado por Filhos da Guerra (1990). Seu currículo inclui o belo e inesquecível O Jardim Secreto (1993) e Zona de Exclusão (2023), que recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza. E trabalhou em Hollywood, onde comandou, por exemplo, quatro episódios da série policial Cold Case (2003-2010).

 

Holland tem larga experiência com dramas biográficosFilhos da Guerra é baseado na trajetória de Solomon Perel, um adolescente judeu que sobrevive ao Holocausto escondendo sua identidade e fingindo ser um alemão nazista. 

 

O Segredo de Beethoven (2006) é focado nos últimos anos da vida do compositor Ludwig van Beethoven, enquanto ele trabalhava na Nona SinfoniaA Sombra de Stalin (2019) é sobre o jornalista galês Gareth Jones, que se arriscou para denunciar a grande fome na Ucrânia durante a ditadura de Joseph Stalin na antiga União Soviética. E O Charlatão (2020) inspirou-se na história real do tcheco Jan Mikolášek, que diagnosticava e curava doenças usando plantas e remédios naturais e sobreviveu às duas Grandes Guerras e a três mudanças de regime político.

 

Em Franz, Agnieszka Holland acompanha a vida de Kafka (papel do até agora desconhecido Idan Weiss) desde a infância em Praga até a morte em Viena, decorrente da tuberculose. A diretora mostra o conflito com seu rígido pai, Hermann (encarnado por Peter Kurth), a monótona rotina de seu trabalho como burocrata em uma seguradora e seu anseio de escrever para, assim, transbordar suas angústias

 

O protagonista tem a seu lado a irmã caçula, Ottla (interpretada por Katharina Stark), e o amigo e editor Max Brod (vivido por Sebastian Schwarz), que a certa altura afirma: "Franz, só você consegue fazer o lixo parecer bonito". Ao longo da trama, Kafka se relaciona amorosamente com Felice Bauer (Carol Schuler) e Milena Jesenká (Jenovéfa Boková).

 

A grande diferença de Franz para a maioria das cinebiografias é que Holland fez o que se pode chamar de filme caleidoscópico. Transforma-se a cada sequência, multiplicando as portas de entrada para a vida e a obra de Kafka

 

Contribui muito para esse retrato multifacetado a atuação cheia de sutilezas de Idan Weiss, que dá rosto e corpo às aflições e às inseguranças do protagonista, e também a seus desejos e suas delicadezas (vide a cena com a prostituta). 

 

A diretora polonesa não adota uma estrutura linear. Ela vai e volta no tempo, alternando-se entre a infância, a juventude e a maturidade do personagem e inclusive empreendendo viagens ao futuro: cenas contemporâneas filmadas no Museu Franz Kafka discutem o legado literário do escritor e ironizam a sua transmutação, após a morte, em ícone pop e atração turística.

 

Uma das sequências mais marcantes é a da leitura pública do conto Na Colônia PenalFranz intercala a recepção cada vez mais desconfortável da plateia burguesa com a dramatização crua da história sobre uma máquina sádica que, durante 12 horas, grava a sentença na pele do condenado — cuja culpa "é sempre indubitável". Ali, Kafka oferece um espelho à sociedade que se regozija com o punitivismo.

Assista ao trailer do filme "Franz":

 

Fonte: Zero Hora/Ticiano Osório em 03/07/2026