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Conhecimento, Ignorância, Mistério, de Edgar Morin
Conhecimento, Ignorância, Mistério, de Edgar Morin

PÓS-HUMANIDADE NA AMORTALIDADE

Em ensaio recém lançado no Brasil, Edgar Morin reflete sobre o acúmulo de conhecimento e suas consequências para a humanidade. Os caminhos que estamos percorrendo, segundo o pensador francês, são, em alguma medida, surpreendentes

LIVRO: CONHECIMENTO, IGNORÂNCIA, MISTÉRIO - De Edgar Morin. Ed. Bertrand Brasil, tradução de Clóvis Marques, 112 páginas.

 

O mais recente livro do filósofo e sociólogo Edgar Morin, de 2017, escrito quando ele já estava com 96 anos, intitulado CONHECIMENTO, IGNORÂNCIA, MISTÉRIO e lançado em 2020 no Brasil, surpreende o leitor.

 

Encontrei nessa obra um componente do discurso que me fez lembrar vagamente as teses de doutoramento nas universidades, que costumam ter, em regra, além de um desesperador estilo textual burocrático-acadêmico, uma miríade de citações. Aqui, Morin, mutatis mutandis, segue a toada das teses no que concerne às referências a outros estudiosos, porém numa escrita elegante e atraente. Essas referências e citações ao longo do entrecho, na verdade, são indispensáveis, eis que o livro percorre as mais diversas áreas do saber, indo da filosofia à neurociência, da biologia molecular à algoritmização, do conhecimento complexo à insuficiência, à incerteza e ao inacabado do que conhecemos. Morin analisa o conhecer, a realidade - diante do imaginário, da ilusão e do emergente -, o universo, a evolução, o humano, a pós-humanidade e a amortalidade. Já se vê que esses tópicos foram estudados por ele - daí a necessidade das múltiplas referências -, não qual o faz um doutorando, mas pela simples atividade intelectual de indagar e investigar. Note-se que se trata de um intelectual da área das humanidades que se aventura em elaborar ideias fora desse âmbito, mas estabelecendo relações com ele. Aliás, não é incomum hoje lermos filósofos que relacionam suas ideias a mecânica quântica, cosmofísica, princípio da incerteza... Domínios dos quais se ocupam os físicosa.

 

CONHECIMENTO, IGNORÂNCIA, MISTÉRIO se inicia com o brevíssimo ensaio, um quase prefácio, intitulado Prelúdio, e termina, em espécie de posfácio, também diminuto, denominado Finale; ambos têm uma estrutura performática romântica, quase infanto-juvenil, no seu jogo de palavras bonitinhas e reveladoras de uma insolúvel inquietação espiritual, como "...tudo que elucida se torna obscuro sem deixar de elucidar" ou "a vida é maravilhosa e aterrorizante. O humano é maravilhoso e aterrorizante", e que destoa do conjunto. (Abro este parêntese para notar que entendo o moderno registro fingido de palavras "novas", mas ocas, no discurso como tentativos de mitigar a assombrosa perplexidade espiritual do falante diante da realidade.)

 

Na integralidade, os ensaios ou capítulos que compõem a obra têm marcante caráter pedagógico, sendo o primeiro deles o que mais revela esse caráter: O Conhecimento Ignorante, talvez também seja o fundamento dos que vêm depois. Esse ensaio faz-nos perceber algo que é aparentemente óbvio e que permanece obscurecido para nós: quanto mais conhecemos, mais enxergamos o quanto ignoramos. Mas nisso não há novidade, dirá o leitor, Sócrates já disse algo assim noutras palavras. Só que, para Morin, a ignorância de outrora é diferente da nova ignorância, que é mostrada pelo novo conhecimento científico. Refere-se ao fato de que, à medida que o conhecimento científico avança, mais se descortina a nossa ignorância. Quer dizer, o ignorantismo como fruto do conhecimento. As "gigantescas elucidações da ciência lhe escondem sua cegueira", diz ele; o desconhecido está na essência do conhecido.

 

No último ensaio, Pós-humanidade, Morin analisa o processo globalizante, seu caráter ambivalente e que pode levar a catástrofes, com a unificação tecnoeconômica e a degradação ambiental. Com a eliminação gradativa do trabalho humano pela automação, as perspectivas biomédicas de Alteração genética e os avanços da medicina preventiva, pode-se antever mais bem-estar e longevidade, que levam a pensar em amortalidade e no pós-humano.

 

Enfim, um livro de sentido pedagógico à medida que, sistemático, leva o leitor a considerar aspectos atuais e de avanços da ciência, com pitadas filosóficas no discurso.

 

Fonte: Zero Hora/Caderno DOC/Carlos Alberto Gianotti/Professor de Física e editor em 04/10/2020