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Polêmica no Prêmio Jabuti, por Caio Riter
Polêmica no Prêmio Jabuti, por Caio Riter

É PRECISO PÔR O PINGO NO I DO JABUTI

 

Polêmica no Prêmio Jabuti envolvendo categorias infantil e juvenil é objeto de artigo do escritor Caio Riter.

 

A literatura infantil bebe na fonte de textos primitivos, folclóricos, de tradição oral. Assim, trocadilhos, adivinhas, travalínguas, histórias de Era uma vez, lendas, contos de fadas tornam-se fonte recorrente na literatura feita para a infância. E isso não a desmerece. Ao contrário, apresenta uma postura dialogante, em que o autor, por meio de arranjos estéticos com a linguagem, busca, além de promover o prazer com as palavras, apresentar “a existência humana na sua complexidade, como um processo subjetivo inevitavelmente contraditório”, segundo Ricardo Azevedo, escritor e professor.

 

Já a literatura juvenil propõe, também por meio do trabalho com a linguagem, em que forma e conteúdo dialogam, conversar com temas existenciais presentes nesta etapa do desenvolvimento humano, a dita adolescência, que tantas alegrias e incômodos promove no interior de todo o ser humano. Tal literatura também encontra nos clássicos possibilidade de diálogo, quer em texto em que o apelo à aventura se torna forte, como se percebe nos romances de Júlio Verne, quer em textos mais intimistas, como O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO, de J. D. Salinger, obra cuja qualidade estética é inquestionável.

 

Desse modo, com estas palavras iniciais, pretendo, de forma bastante simples, dizer o óbvio: a literatura para crianças não é a mesma literatura para jovens. Não há como aproximá-las, como compará-las, como usar mesmos critérios para avaliá-las. Isso, sobretudo, por elas não se constituírem como gêneros literários, mas sim a partir dos públicos a que se referem. A infância e a adolescência são etapas distintas da vida humana, são fases em que as preocupações são outras, em que os modos de ver o mundo, de acercar-se dele, têm suas peculiaridades. Parece óbvio. Mas nem sempre o óbvio para uns é o óbvio para os outros. Assim, carece que se ponham os pingos em todos os is necessários.

 

Explico: a edição 2018 do Prêmio Jabuti, uma das mais tradicionais premiações literárias do país, gerou polêmica e culminou com o pedido de demissão do curador do prêmio, Luiz Armando Bagolin. Toda mudança, dirão alguns, suscita desacomodamentos, assusta, provoca. Todavia, duas alterações propostas (e instituídas, visto que a Câmara brasileira do Livro, após ouvir as considerações de segmentos afetados: autores, editores, professores, ilustradores, afirmou que não haverá alterações no regulamento) incomodaram bem mais: a unificação das categorias infantil e juvenil e a extinção da categoria de ilustração para livros infantis ou juvenis, incluindo-a na premiação técnica.

 

Há muito a literatura para a infância e para a adolescência sofre, nos meios literários e acadêmicos, a síndrome da prima pobre da Literatura. Considerada menor (talvez por dirigir-se a públicos ainda em formação), a literatura infantil e a juvenil não faz concessões formais ou linguísticas. O esmero com a palavra, o cuidado com a forma tanto o nível da linguagem quanto na concepção do projeto gráfico é condição para a construção de um objeto artístico que visa atingir o leitor por meio das palavras e também das imagens. Assim, escrever para crianças e para adolescentes não é assumir postura facilitadora. Aliás, enquanto a literatura dita adulta é sempre qualificada e catalogada a partir dos diferentes gêneros: romance, conto, crônica, poesia, a literatura chamada de infantojuvenil, como já dito, é determinada pelos seus públicos, o que, por si só já renderia uma discussão bastante interessante.

 

Ora, se tal literatura é definida a partir do público ao qual é dirigida e, se tais públicos são diferentes, também possuem peculiares necessidades, visto que se acercam de maneira diferente de um texto literário – quer por suas abordagens, quer por seus temas de interesse, quer pelo seu nível de maturidade leitora. Nessa medida, não se entende como e por que a literatura para a infância e a para a adolescência poderiam ser unificadas em uma única categoria e observadas por meio de mesmos instrumentos de avaliação. Não há como aproximá-las, não há como definir critérios comuns às duas, visto, repito, terem públicos diversos. Ser criança é estar aberto à fantasia, à brincadeira com as palavras, às diferentes sonoridades. Ser criança é perceber o livro como objeto que, ao mesmo tempo em que brinca, suscita possibilidade de compreensão e de apreensão do mundo misterioso que cerca a criança e do qual ela busca entendimento. A criança é um ser curioso, imaginativo, sonhador, que o Era uma vez abre espaço para repensar, problematizar, instigar tais necessidades e desejos, sendo elemento fundamental na formação de repertório existencial para a criança, sem cunho moral ou pedagógico. Desse modo, um livro para a infância irá ao encontro de alguém ainda em formação, que encontrará na palavra literária janelas de possibilidades, algo que a Arte sabe muito bem abrir. E, nesse sentido, a importância da ilustração colo aliada na construção de significados e na promoção de questionamentos se faz presente, não podendo ser unida à ilustração de caráter mais técnico, visto que se faz narrativa também. Ilustrar para a infância exige sensibilidade, diálogo com a palavra literária, convite para segunda leitura: imagem e palavra em consonância. Assim, pensar a ilustração como algo meramente técnico é desconsiderar o trabalho artístico de ilustradores e de percebê-los também como autores.

 

E se a criança é este ser em formação, o adolescente já fez caminhada maior, já viveu certas experiências, já domina a palavra escrita, já está apto a fazer escolhas pessoais, embora ainda careça de certo entendimento de si mesmo. Assim, a literatura para a adolescência visa conversar com este público, mergulhando em universos existenciais que contemplam as grandes preocupações humanas. Não que a literatura para a infância não o faça também; ela o faz, porém o tratamento é díspar, é menos referencial, é mais metafórico, mais sutil. Com o adolescente, o papo é mais de igual para igual, à medida que os temas orbitam em torno de questões bastante presentes no universo adolescente: sexualidade, conflitos familiares e de gerações, descoberta do amor, entre outros.

 

Assim, os pingos nos is da literatura para jovens são outros, não os mesmos da literatura para adultos ou da literatura para crianças. Diferentes etapas do existir exigem distintos objetos artísticos. Nelly Novaes Coelho, uma das maiores pesquisadoras brasileiras de LIJ, afirma que sem dúvida “nenhuma outra forma de ler o mundo dos homens é tão eficaz e rica quanto a que a literatura permite”. Todavia, a cada etapa da vida nossas fomes são diferentes, nossas incomodações e desejos outros, a forma como percebemos o tamanho de nossa fome também.

 

Os organizadores do Prêmio Jabuti, então, ao proporem as mudanças referidas no regulamento (mudanças que geraram discussão e boicote de escritores, de ilustradores e de editores às inscrições ao prêmio) erraram, colocaram o pingo no i errado. Se queriam, como afirmam, enxugar a noite de premiação, que julgavam longa e enfadonha, poderiam dirigir o foco para categorias que, de fato, tenham afinidades. Aliás, pergunto: não haveria outra forma de tornar a noite de premiação menos longa ou mais agradável e atrativa do que mutilar a premiação?

 

Por fim, pensar que a literatura infantil e a juvenil podem ser unidas a fim de receberem apenas um prêmio é desconhecer as peculiaridades de tais segmentos, é não perceber o óbvio: sem a literatura para a infância, que está em gênese do leitor, e sem a literatura para a juventude, que auxilia na construção crítica do leitor, não se terá leitores adultos. Assim, que o Jabuti ponha o pingo nos is realmente necessários, sob risco de cometer não apenas erros ortográficos, mas de concepção do que significa literariamente hoje.

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Caio Riter/Escritor, professor,mestre e doutor em Literatura Brasileira em 14/07/2018.