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O Homem que Amava os Livros mais do que a Vida
O Homem que Amava os Livros mais do que a Vida

PAULO BENTANCUR

O HOMEM QUE AMAVA OS LIVROS MAIS DO QUE A VIDA

 

No início de um dos seus contos, o escritor, crítico, editor e tradutor gaúcho Paulo Bentancur, falecido aos 59 anos no dia 28 de agosto de 2016 em Nilópolis/RJ, mostra uma das suas premissas para separar o livro-trigo das obras-joio.  Pela ótica do narrador do conto NOSSA OBRA-PRIMA, de FRIO (Sulina, 2001), Paulo alerta:  “Há livros dos quais basta se ler o título, os primeiros parágrafos, alguma passagem aleatória lá pelo meio, e o amargo desfecho logo vem – amargo para a atividade da leitura.  Cinco minutos e os fechamos, assustados com a sempre renovada capacidade que o homem possui de errar, surpresos com a força inenfrentável da mediocridade tão inumana, assombrados com a autêntica tragédia que representa a falta de talento”.

 

O editor do conto ao falar do personagem Leandro podia ser o crítico nascido a 20 de agosto de 1957 em Santana do Livramento, autor de 42 livros, vencedor de cinco Açorianos de Literatura, no seu ofício de preparador de originais e editor de casas como Sulina, Artes e Ofícios, Bertrand e outras.  Paulo reconhecia um bom livro, um bom autor em poucas paginadas.  Era exímio com as palavras e com a orientação a novos escritores.  Eu mesmo já passei pelo seu crivo e dois outros autores que já receberam suas influências, Jéferson Assumção e Luiz Maurício Azevedo, rendem homenagens com seus depoimentos pessoais sobre Pablito, como era conhecido pelos íntimos.

 

Autor de mais de 20 livros e pós-doutorando em Teoria literária na UNB, em Brasília, Jéferson lembra dos primeiros sábados à tarde, no início dos anos 90, quando era camelô e conheceu Paulo no seu apartamento na Àlvares Cabral, na Zona Norte, no qual conversavam sobre livros e o iniciante aprendia “como se deve amar a literatura” e saía de lá com uma sacola cheia de livros de “História da Literatura Ocidental” do Otto Maria Carpeaux às obras de Campos de Carvalho, Jamil Snege, T. S. Eliot, os argentinos e os russos.  “Sobretudo, ele ensinava, generoso, o que não ler.  Impossível esquecer os impropérios hilários, os insultos engraçados.  Opiniões absurdas que só com o tempo se mostravam certeiras.  Exageradas e peremptórias, mas no alvo, sempre.  A gente se divertia com aquilo e eu, no ímpeto dos ingênuos, achava que estava dentro, salvo da burrice galopante ao redor, pelos sermões do padre Paulo.  O mundo, disse-me, em outra ocasião, é uma espécie de suporte para a literatura.  Para Jéferson, Paulo dizia que tinha gratidão pela literatura.  A Luiz Maurício Azevedo, doutorando em Teoria e História Literária pela Unicamp, Paulo, no mês de janeiro de 2001, deu aquela dica a um escritor neófito: “O único momento em que um escritor é livre é na primeira frase.  A partir daí tudo é consequência, prisão.  Escrever é não se perder.”

 

Com o autodidatismo avesso à academia e aquela ansiedade com prazos comum a jornalistas, críticos e editores, para o Luiz Maurício, Paulo era um bom professor dos fundamentos básicos da literatura, embora tivesse se caracterizado por realizar malabarismos estéticos complexos, manipulando e subvertendo justamente os mandamentos que tão bem sabia ensinar.  Neste espírito, escreveu o mais radical livro da literatura gaúcha:  INSTRUÇÕES PARA ILUDIR RELÓGIOS (nossa única versão bem sucedida de literatura pós-moderna, um livro no qual os personagens são as coisas e o enredo é a interação entre os fragmentos: uma criação debordiana sem Debord).  Agora que está morto, fica nítido que escrevia muito bem; talvez, bem demais para um Estado acostumado a degola, tradição e geada.  Tivesse sido um escritor menor, hoje estaríamos discutindo a compra do terreno para a instalação de uma casa de cultura em sua homenagem.

 

Para mim, Paulo também foi um norte.  Antes de fazer esta apresentação do caderno espacial sobre Bentancur, lembro a vez que ele me apresentou Paulo Hecker Filho no café do Clube do Comércio durante uma Feira do Livro entre 1997 e 1998.  Eu só ouvia, quase não falava.  Fiz oficina literária virtual com Paulo e ele burilou meus contos, pedindo para não me exceder em solilóquios e diminuir o número de personagens.  Queria o nocaute como Julio Florencio Cortázar, um dos grandes autores da humanidade para Paulo.  Além de FRIO e INSTRUÇÕES PARA ILUDIR RELÓGIOS, Paulo escreveu outros grandes livros como o de poemas BODAS DE OSSO (Bertrand, 2005) e o infanto TRÊS PAIS (Atual, 2009), foi editor da Imprensa Oficial do RS e editor da Vox XXI entre 2000 e 2002, foi Coordenador do Livro e Literatura de Porto Alegre, entre 2003 e 2004, além de colaborador do Caderno de Sábado no final dos anos 1970, tradutor do espanhol.  Alguns projetos ele não conseguiu terminar, como uma biografia do Erico Verissimo no ano do centenário do autor de Cruz Alta (2005).  Paulo estava um pouco esquecido no Sul, foi para o Rio de Janeiro para se casar com Marta Aguiar e morreu duas semanas depois.  Longa vida à literatura e à crítica de Paulo Bentancur.

 

Fonte:  Correio do Povo/CS/Luiz Gonzaga Lopes/Editor em 24/09/2016