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Homens pela Escrita - Parte 6/Bentinho
Homens pela Escrita - Parte 6/Bentinho

HOMENS PELA ESCRITA – PARTE 6/BENTINHO

PARA ATAR AS DUAS PONTAS DA VIDA.

 

Bentinho, personagem narrador de “Dom Casmurro”, inicia o romance explicando a razão do epíteto e justificando os motivos que o levaram a escrever o livro.  Na velhice, dispõe-se a revisitar o passado para melhor encontrar a si próprio em algum desvão do tempo.  Para isso, recompõe sua história de menino apaixonado por Capitu, vizinha e amiga de infância.  Com esperteza, os adolescentes driblam as agruras da época:  superam os projetos eclesiásticos da mãe, a distância social entre as famílias e terminam em casamento.  O enredo é simples:  depois de casados, intensificam a amizade com Sancha e Escobar.  E quando nasce-lhes o primeiro filho, Bento vê nele semelhanças com a fisionomia do amigo.  Escobar morre afogado e os ciúmes de Bento acirram-se no velório, ao surpreender o olhar apaixonado de Capitu em direção ao morto.  segue-se a separação, a solidão da personagem e, por fim, o romance escrito com o objetivo genérico de driblar a monotonia da vida.

 

                                   

 

Personagens ficcionais dão-se a conhecer pelo que fazem, dizem, ou pelo que outra personagem ou o próprio narrador informa a seu respeito.  Porém, quando se trata de personagem narrador, as estratégias de leitor são postas em cheque porque o ponto de vista narrativo confunde os sujeitos.  No caso de Dom Casmurro, Bento Santiago escreve para recuperar lembranças do passado e exorcizá-las.  Com  o propósito de reconstruir no Engenho Novo a casa de Matacavalos, ele registra no romance o desejo de compreender se a Capitu que o trai com o amigo Escobar era a mesma da infância, com suas dissimulações e meias-palavras.  Bento quer saber se uma já se encontrava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.  No último capítulo, idoso e introspectivo, traz um dado novo ao texto, baseado na hipótese haurida aos Eclesiásticos:  para Jesus, filho de Sirach, a mulher trai o marido com os ciúmes que dele apreende.  Com isso, o narrador encerra o livro e convida o leitor a acompanha-lo à Terra dos subúrbios, texto que pretendia escrever antes que os bustos da prede da sala entrassem a falar-lhe.

 

     

 

Dom Casmurro talvez seja o romance mais lido e comentado da literatura brasileira.  Por sua complexidade, cada leitura ou releitura suscita novos entendimentos.  E Capitu, que logo se impõe como personagem soberana, é fruto da memória de um espírito sensível e inquieto.  No pacto da leitura, Machado atribuiu à inteligência criativa de Bento Santiago a capacidade de criar personagens tão complexas que lhe mereçam capítulos e lhe suscitem reflexões sobre o mundo patriarcal, a família, o clero, a religião, a sociedade, a elite brasileira, o intelectual da passagem do século, enfim, a natureza humana.  A sensibilidade especial do narrador permite-lhe circular entre sombras na recuperação do vivido, reeditando o “pacto fáustico” a que ele próprio alude:  assim, o homem, no fim da vida, cria um livro onde apresenta, como na Ópera, um novo mundo.  A alusão à ópera e à peça em que Deus é o poeta e a música é de Satanás resume a visão paradoxal da personagem que usa alegorias e metáforas para expressar-se.

 

                                  

 

Como possível alter ego machadiano, o narrador Dom Casmurro surge da tensão entre personagem e autor:  Bento não é apenas o velho desiludido que rumina e escreve sua amargura, mas um homem culto, irônico, com humor e amigos que, mesmo de mal com a vida, cria um livro brilhante, rico em imagens e metáforas sensoriais que podem ser visualizadas e gravam-se para sempre na retina do leitor.

 

                                  

 

Costumaz frequentador dos clássicos, Machado de Assis amplia o leque de significados do romance através de múltiplas relações intertextuais.  Da Bíblia, do Eclesiástico, por exemplo, absorve reflexões sobre fidelidade e preservação da história.  De Bergson, apreende as ideias em voga, sobre tempo, duração, dados da memória.  E assim, através de reminiscências, Bento recupera episódios passados e os registra pela palavra escrita.  Disso resulta o livro, cujo estilo elegante e pungente expressa a visão madura – e machadiana – do humano.

 

 

A crítica tem aproximado Dom Casmurro de Otelo pela temática do ciúme e da traição.  O paralelo entre os protagonistas acentua-se pela semelhança entre o sobrenome Santiago e o nome Iago, do maquinador e invejoso shakespeariano.  Parece-me, porém, que Bento Santiago é devedor do realismo pessimista de Schopenhauer, cuja obra circulou de modo intenso no Brasil e na América de XIX.  O pessimismo do filósofo alemão alcanço a intelectualidade americana e, com certeza, Machado de Assis não lhe foi indiferente.  De qualquer modo, a questão da honra, do ciúme e suas consequências faz parte dos dramas e romances românticos e realistas.  O que diferencia Bento Santiago de outros ciumentos é a linguagem que o autor lhe atribui.  E, através desta, a finura da introspcção, o humor amargo, a ironia com que desfaz o patético sempre que este ameaça sua história.  Bentinho é uma personagem complexa e a leitura de Dom Casmurro é tarefa para a vida inteira.

 

Fonte:  Correio do Povo/Caderno de Sábado/Léa Masina (Mestre em Literatura Brasileira, doutora em Literatura Comparada, crítica literária) em 22/08/2015.