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Assis Brasil, do Mestre para seus Aprendizes
Assis Brasil, do Mestre para seus Aprendizes

DO MESTRE PARA SEUS APRENDIZES

 

O título que Assis Brasil havia definido para sua mais recente obra foi SOBRE ESCRITA DE FICÇÃO, mas, no começo de maio, o editor Luiz Schwarcz sugeriu trocá-lo para ESCREVER FICÇÃO. O autor gostou da proposição. “O antigo não tinha um verbo, e o novo tem um sentido de movimento, é mais curto, só um verbo e um substantivo. Do ponto de vista editorial, é interessante”, reconhece.

 

Assis Brasil pretende que a obra seja um apoio para quem for escrever. No início da apresentação, intitulada Não é um Prefácio, detalha seu propósito: “Este é um livro imaginado para auxiliar quem deseja escrever textos ficcionais. Desse modo, poderá ser lido como um manual – mas também como um percurso de reflexões sobre a escrita e suas circunstâncias. Algo, porém, é certo: ele jamais substituirá a leitura constante de obras literárias, a principal fonte para a formação de um escritor”. O final é uma delícia de provocação: “Por último: antes de pensar em sucesso, pense em ser competente. Ser competente não é empecilho para a conquista do Nobel”.

 

Não há, no Brasil, oficina literária com mais longevidade do que a de Assis Brasil. São 33 anos ininterruptos, formando alguns dos autores mais destacados dos últimos anos. “Tenho muito claro: minha grande obra são meus alunos”, admite. O professor percebeu isso a partir da projeção que os pupilos conquistaram ao serem publicados, premiados e traduzidos. “É algo definitivo, que se incorpora à minha biografia. Mas atenção: isso não me preocupa. Até porque sei da efemeridade das carreiras literárias – o público quer sempre um autor novo”, observa.

 

No decorrer dessas mais de três décadas de oficina, houve uma alteração do perfil e da pretensão dos alunos. “No início, queriam melhorar o texto. E não se fazia seleção, era por ordem de chegada, mas logo vi que não ia dar certo”, lembra. “Nem sempre os mais diligentes em correr para a inscrição são os mais talentosos. Quase sempre é o contrário.” Mais recentemente, Assis Brasil percebeu que seus aprendizes, mais do que aperfeiçoar o texto, querem ser escritores. Para isso, não medem esforços. “Tenho alunos que se mudam para Porto Alegre a fim de fazer a oficina. Às vezes, moram mal, passam trabalho, e isso aumenta minha responsabilidade. Em certos momentos, fico preocupado, porque pode não dar certo”, diz.

 

O novo livro do consagrado romancista gaúcho é uma obra própria da maturidade. Há tempos recebia sugestões para produzir um livro sobre escrita criativa, mas evitava. “Por preguiça e por que teria que abrir mão da minha própria literatura”, justifica. “O convite foi determinante.”

 

 

OS CAPÍTULOS

 

Concluída a tarefa, Assis Brasil reconhece que ela pode ser estratégica para quem pretende escrever ficção. Comenta que, por incrível que pareça, pessoas preparadas, com muita leitura, às vezes travam em dúvidas elementares. Por exemplo: usar primeira ou terceira pessoa? Assumindo s perspectiva de um ficcionista falando para outros ficcionistas, em nove capítulos, ele trata de questões básicas para quem pretende criar narrativas literárias.

 

O capítulo inicial chama-se Ser Ficcionista é Exercer nossa Humanidade. Sobre o seguinte, O Personagem, O Poderoso da História, comenta: “Tudo deriva da personagem, que é o motor da história. Sobreponho a personagem à preocupação com o enredo”.

 

O capítulo três, Temos Muito em Comum com Hamlet – A Questão Essencial do Personagem e o Conflito da Narrativa, trata daquilo que Assis Brasil considera sua contribuição mais original, o ponto onde avança na escrita criativa: a “questão essencial da personagem”. No seu entendimento, algo funcional para gerar o conflito da história. A expressão “questão essencial”, no original quaestio essentiale, foi tomada de empréstimo da retórica escolástica, mas com uma acepção diferenciada.

 

Na primeira aula de sua oficina deste ano, Assis Brasil propôs um roteiro para que seus alunos definissem a personagem a ser usada em todos os textos ao longo do semestre. No último item, indagou: “Qual é a questão essencial da personagem, capaz de deflagrar e sustentar uma história? Aquilo que faz com que a personagem sofra, que é permanente e vai morrer com a personagem. Um dilema que o personagem não consegue resolver”.

 

Não parti do nada”, esclarece. Ele combinou ideias de dois franceses: o crítico literário Charles Mauron, que estudou, na poesia, o mito pessoal nas metáforas obsessivas dos poetas, e o psicanalista Jacques Lacan, que tratou da questão fundamental que as pessoas têm dentro de si e acabam determinando uma vida inteira. “Aplico uma associação das ideias dos dois à criação literária da narrativa. É uma transposição para a personagem do que é questão essencial para o ser humano e o mito pessoal do artista”, explica. “A personagem tem tudo isso, mas quem cria é o autor.”

 

O capítulo quatro, Escrever Ficção é Tramar, aborda o enredo e a estrutura. O cinco, Aplainando um Terreno de Intenso Trânsito, apresenta o conceito de focalização, ou seja, quem conta a história? Aqui, o autor recuperou um referencial que havia abandonado, do francês Gérard Genette.

 

Por muitos anos, Assis Brasil baseou-se no artigo Point of view in fiction, que considera bom para pensar a questão do narrador, mas percebeu que o texto de Norman Friedman é mais importante para quem estuda literatura e quem leciona. Ao longo do tempo, se deu conta que Genette, com sua ideia de focalização, “é melhor para quem quer escrever literatura, é mais simples”.

 

Nos derradeiros capítulos de ESCREVER FICÇÃO, há subsídios para outros elementos do ofício, como espaço, tempo, estilo e, por fim, um roteiro para quem pretende escrever um romance.

 

 

UM GENTLEMAN DAS LETRAS

 

Luiz Antonio de Assis Brasil encanta seu entorno.

 

Além do respeito que tenho por ele como escritor, é uma das pessoas mais generosas que conheci”, afirma o ex-aluno e escritor Michel Laub.

 

O Assis é um sujeito gentilíssimo, além de excelente profissional”, elogia a editora Julia Bussius, da Companhia das Letras.

 

A professora Regina Kohlrausch, decana associada da Escola de Humanidades da PUCRS, destaca os seguintes traços: “Inteligência, conhecimento, capacidade de escutar, paciência, respeito, disponibilidade, um excelente narrador e contador de histórias, ou seja, um escritor completo e um ser humano esplêndido”.

 

A ex-aluna e escritora Carol Bensimon comenta: “Uma excelente pessoa. Muito generosa. Dentro da oficina, sabe respeitar o estilo de cada um. Seu papel de mentor é muito importante para quem está começando a escrever”.

 

O Assis é conhecido por ser um gentleman”, resume o ex-aluno e escritor Luiz Roberto Amábile, que, durante um ano, colaborou na elaboração de ESCREVER FICÇÃO. Esse trabalho, a propósito, permite que Amábile projete o alcance da obra: “O livro todo é uma preciosa contribuição. Já li muitos e muitos livros sobre escrita criativa e um como esse eu nunca vi, em nenhuma língua”.

 

Muito da notória generosidade e do visível refinamento de Assis Brasil provém da sua postura em sala de aula. Nela, não há movimentos exagerados ou falas intempestivas. Nem grosseria ou indelicadeza. O professor gesticula de maneira comedida para que dimensionem o alcance da palavra. Arqueia os olhos e as sobrancelhas, dado ênfase no que julga merecedor. Suaviza a voz e alonga sílabas, legando tonalidades de poesia a um conceito.

 

Sem abdicar da polidez, às vezes esboça descontração. “Acho uma bobagem quando dizem que a literatura representa a vida. A literatura não representa a vida, ela é uma vida criada.”

 

Ao tratar da escrita ficcional, ele estabelece um diálogo com a experiência humana. “Ninguém nos explica o que é a vida. O mesmo acontece com o texto literário”, compara. “Não vamos explicar para o nosso leitor a vida que nós criamos. Vamos deixar que ela funcione por si mesmo. Quem explica é o leitor, a partir dos elementos que queremos dar.”

 

Assis Brasil é casado com a também escritora Valesca de Assis, “Temos uma relação muito boa, ao mesmo tempo respeitosa, de ajuda mútua”, descreve. “No passado, coitada, eu dava para ela ler meus livros à medida em que escrevia.” Agora, apresenta um primeiro capítulo, para que conheça o novo trabalho, e depois somente o livro completo. “Não posso me imaginar sem ela.” Ambos moram em uma casa onde o refinamento e a erudição ecoam pelas paredes que estampam telas, fotografias e uma belíssima coleção de arte sacra.

 

Sobre as imagens que evocam o sublime: “É um interesse estético”. Além disso, salienta que as figuras de inspiração católica o inserem na cultura em que nasceu. “São peças únicas da arte popular brasileira”, detalha. Ele aprecia a genuinidade de peças que santeiros talham na madeira.

 

O romancista se considera posicionado politicamente. Em janeiro de 2011,

foi nomeado secretário de Estado da Cultura pelo então governador do Rio Grande do Sul, tarso Genro (PT), e recebeu muita cobrança por isso. “Para integrar um governo como esse, eu precisava ter uma posição política de esquerda, é evidente, mas, de modo geral, entenderam que a escolha do Tarso foi técnica”, completa.

 

 

MEU NOME FICOU MARCADO COM A QUESTÃO HISTÓRICA”

 

Ao rever a trajetória, Assis Brasil considera que seria melhor se tivesse começado com textos contemporâneos. “Ficou muito marcado meu nome com a questão histórica, e isso é um equívoco”, analisa. “Nunca escrevi um romance histórico. Escrevi romances em que o que mais me interessava era a alma humana.”

 

Considera um erro pensar que seus livros cujos personagens são Qorpo Santo (CÃES DA PROVÍNCIA, 1987) ou Jacobina Maurer (VIDEIRAS DE CRISTAL, 1990), por exemplo, são de reconstituição histórica. “O pessoal se atrapalha”, lamenta. Percebe que situar seus temas no passado acabou por gerar equívoco e expectativa. Quando publicou O INVERNO E DEPOIS (2016), “um romance de nossos dias”, algumas pessoas disseram que preferiam os anteriores. “Mas eu não gosto mais deles. É um peso biográfico que carrego”, admite. O desafio da ficção é permanente. “A cada livro sou um autor diferente, e isso me agrada muito.”

 

Assis Brasil carrega um sentido de urgência. Inconformado, deu uma guinada em sua obra, no que se refere à questão formal, a partir de O PINTOR DE RETRATOS (2001). “Trabalhava com períodos longos, certo barroquismo”, observa. Até que um dia, enquanto olhava seus livros, encontrou EL CID CAMPEADOR, de autor anônimo. “Abri e tive que me sentar: coo é que não vi isso antes?” Cita Santo Agostinho, ao falar sobre a beleza: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora”. Reconheceu em EL CID uma essencialidade: uma escrita objetiva. Admite que pode ser efeito das aulas, de tanto dizer “está demais, corta”. Pensava que ele fosse um caso à parte, mas percebeu que trabalhava com dois critérios: um aplicado aos alunos – consciente de que era assim que se deveria fazer – e outro a si mesmo.

 

Neste ponto da entrevista, vai à estante, cita títulos de Pascal Quignard, pega um e começa a traduzir direto do francês para exemplificar a concisão, a essencialidade – atributos que Assis Brasil vem procurando mesmo em textos mais caudalosos, como as 352 páginas de O INVERNO E DEPOIS. Sobre a guinada: “Não foi uma construção, mas uma descoberta instantânea, era algo que já estava dentro de mim, aflorado pelo trecho do EL CID”.

 

 

A QUESTÃO ESSENCIAL DA VIDA DO ESCRITOR

 

Para os alunos, Assis Brasil destaca a importância de se estabelecer a questão essencial da personagem. Considera que este tópico, presente no livro ESCREVER FICÇÃO, é sua contribuição mais original para a teorização da escrita criativa. Isso justificou que se perguntasse durante a entrevista: “Qual a questão essencial da sua vida?”. Ele baixa a cabeça e esboça um sorriso: “São tantas”. Suspira e admite: “O que sempre me preocupou foi a finitude da vida”.

 

O escritor procura falar com naturalidade, mas o tema o afeta. Aos cinco anos, quando morava no município de Estrela, uma idosa conhecida da família faleceu. “Saí correndo. Achava que ela me levaria para a morte”, recorda. “A busca de uma transcendência, os livros, tudo é uma maneira de dizer que minha vida não está completa ainda.” E subjaz o seguinte: nunca vai se completar. Isso se reflete nos sonhos que, no caso, são pesadelos.

 

A questão essencial de Assis Brasil é sua inconformidade com a finitude da vida, e a literatura – reconhece – é uma forma de subvertê-la. Para desafiar a impermanência, escreve. Mais do que isso, ensina. Os alunos, os escritores cujas trajetórias são impactadas por Assis Brasil, garantem a eternidade do mestre.

 

Quando perguntam por que não se aposenta, por que está sempre escrevendo livros, Assis Brasil responde: “Ars longa, vita brevis” (A arte é longa, a vida é curta). Trata-se de um aforismo em latim baseado no arquiteto e médico grego Hipócrates (460 a.C. - 377 a.C.).

 

O garoto que temia a morte, o escritor que desafia a finitude, ambos – personificados em Assis Brasil – vislumbram, com o habitual comedimento, que o livro ESCREVER FICÇÃO, prestes a sair, pode se tornar a grande obra da vida. “Tenho consciência disso, de que será um divisor”, comenta. “A reflexão e o ensino de escrita criativa serão meu legado. Só espero que isso não me impeça de seguir escrevendo minha ficção.”

 

Não impedirá. A vida pode ser breve, mas também é suficiente.

 

TRECHO DO INÉDITO: ESCREVER FICÇÃO

 

É o personagem, quando bem construído, que dá sentido a tudo que acontece na história.

O que pretendo dizer com isso?

A narrativa deve convencer o leitor de que tudo o que ali está é porque o personagem, pelo simples fato de existir, faz com que as coisas aconteçam. Não, o personagem não tem poderes mágicos ou de super-heróis. No entanto, é como se ele atraísse os acontecimentos narrados. Ou seja, os eventos de uma história estão enraizados no personagem, inclusive os fatos incontroláveis, como um raio que destrói uma casa ou a morte de um potentado na China, para pegarmos a ideia de Eça de Queirós na novela O MANDARIM (1880). Soa estranho, não? Mais parrece um ensinamento esotérico. Mas não o é.

 

Clarice Lispector nos mostra que fatos aleatórios podem ser provicados. No final de A HORA DA ESTRELA (1977), acontece um fato que conhecemos bem:

Macabéa, depois de terminar a consulta com a cartomante que lhe prediz sorte no amor com um homem loiro, sai à rua e é atropelada por uma Mercedes dirigida por um estrangeiro chamado Hans”. Nenhum dos meus alunos achou estranha a morte da infeliz Macabéa, pois “afinal, ela só poderia terminar desse jeito”, ou: “ela provocava todas as tragédias”. Na prosa de Clarice, o acidente, portanto, deixa de ser uma casualidade para se transformar em algo natural, possível, ou ainda mais: numa exigência da história. Depois de terminada a leitura, a sensação que fica, mesmo que inconsciente, é de que não aceitaríamos que qualquer outra coisa acontecesse a Macabéa. Nada mais poderíamos esperar de um personagem sobre o qual é dito o seguinte: “Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. E acontece que não tinha consciência de si e não reclamava nada, até pensava que era feliz. Não se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade pura dos idiotas. E também não prestava atenção em si mesma: ela não sabia”. Macabéa não sabia, mas nós, leitores, sabíamos: ela só poderia morrer atropelada, e por uma Mercedes. No momento da leitura, esse trecho nos surpreende, mas, ao mesmo tempo, ficamos co a impressão de que esse acidente era inevitável.

 

Quem provoca essa inversão estonteante é o personagem literário, quando bem construído. Tanto Macabéa parece atrair essa morte acidental, que logo após o atropelamento, “ao cair ainda teve tempo de ver, antes que o carro fugisse, que já começavam a ser cumpridas as predições de madama Carlota, pois o carro era de alto luxo”. Se Macabéa fosse criada por um amador, essa morte resultaria numa coincidência forçada e pior, grotesca, posta ali apenas para matar o personagem e, desse modo, resolver uma novela cuja escrita, naquelas alturas talvez já estivesse problemática.

 

Fonte: Jornal do Comércio/Vitor Necchi (Jornalista formado pela UFRGS e mestre em Comunicação Social pela PUCRS. É professor da especialização em Escrita Criativa da Universidade Feevale. Lecionou na PUCRS e na Unisinos. Trabalha na revista do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Foi editor da revista cultural NORTE e repórter e editor do joral Zero Hora) em 03/06/2018