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João Simões Lopes Neto, e Contos Gauchescos
João Simões Lopes Neto, e Contos Gauchescos

OS LEITORES NO CAMINHO DE SIMÕES LOPES NETO

 

Obra do autor gaúcho, que ganhou uma exposição em sua homenagem em outubro do ano passado no Santander Cultural, não deve ser encarada apenas na perspectiva do Regionalismo.

 

A inserção de João Simões Lopes Neto (1865-1916) no sistema literário nacional dá-se a partir da publicação, em 1912, de CONTOS GAUCHESCOS, por Echenique e Cia.  O autor, porém, não era novato: tinha produzido peças de teatro, algumas impressas em tipografias locais; redigira artigos e matérias para jornais de Pelotas; e planejara TERRA GAÚCHA, de cunho histórico, e ARTINHA DE LEITURA, de teor didático.  Em 1910, reunira o poemário popular do Rio Grande do Sul em CANCIONEIRO GUASCA, livro que define sua assinatura artística, como evidencia O LUNAR DE SEPÉ, em que reelabora a lenda de Sepé Tiaraju.

 

Contudo, a linha de corte é traçada por CONTOS GAUCHESCOS, razão porque é a obra que receberá maior número de referências críticas, embora bastante incipientes à época em que vivia o escritor.  No ano de lançamento do livro, Januário Coelho da Costa saúda seu aparecimento no Diário Popular de Pelotas; e, em 1913, o Correio do Povo dá a palavra a Antônio Mariz, pseudônimo de José Paulo Ribeiro, para que aponte os méritos da coletânea de histórias narradas por Blau Nunes.

 

A fortuna crítica dos CONTOS GAUCHESCOS e de seu parente próximo, as LENDAS DO SUL, em livro em 1913, foi irregular e descontínua nesses primeiros anos.  Mas nem por isso a obra de Simões Lopes deixou de ser objeto dos intelectuais mais preparados do Estado.  Em 1924, João Pinto da Silva, ao examiná-la na HISTÓRIA LITERÁRIA DO RIO GRANDE DO SUL, considera seu “gauchismo” superior ao de Alcides Maia, ficcionista que, naquela década, gozava de grande prestígio local e nacional.  Augusto Meyer, que veio a ser o principal divulgador da obra de Simões, dedica-lhe resenha no Correio do Povo, destacando a grandeza do escritor.

 

É em PROSA DOS PAGOS, de 1943, que Meyer declara o entusiasmo motivado pelo talento do contador pelotense, relatando as impressões que nele causaram os primeiros contatos com a narrativa simoniana.  Poucos anos depois, em 1950, Lúcia Miguel Pereira, então uma das mais renomadas pesquisadoras da literatura nacional, distingue a produção de João Simões, em PROSA DE FICÇÃO, volume dedicado ao exame de autores brasileiros e de suas obras em circulação entre 1870 e 1920.

 

O lançamento, em 1949, da edição crítica dos CONTOS GAUCHESCOS e LENDAS DO SUL provocou profunda alteração no que diz respeito ao conhecimento da obra do escritor sulino.  Com preparação de texto por Aurélio Buarque de Holanda, prefácio de Augusto Meyer e posfácio de Carlos Reverbel, o livro fazia juz às virtudes do texto de Simões, propiciando-lhe a difusão de que até então carecia a matéria artística que o compunha.  Nas décadas seguintes, OS CONTOS..., as LENDAS... e os CASOS DO ROMUALDO, resgatados esses por Carlos Reverbel, foram objeto de estudos por historiadores da literatura, como procederá Alfredo Bosi desde a primeira edição de sua HISTÓRIA CONCISA DA LITERATURA BRASILEIRA, de 1970.  Nesse, e em outros trabalhos do período, um foco predomina para entender a excelência de Simões: o Regionalismo.

 

Observe-se que o Regionalismo não é ele mesmo, um problema.  Considerado um período da história literária, corresponde a um tempo de grande produtividade, oportunizando a manifestação de escritores como Afonso Arinos e Hugo de Carvalho Ramos, ficcionistas ao lado dos quais Simões Lopes Neto fica bem posicionado.  Considerado, por outro lado, uma poética, o Regionalismo traduz aspectos fundantes da cultura nacional, razão por que repercute em épocas posteriores e em prosadores modernos, como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

 

Porém, encarar a obra de Simões Lopes Neto unicamente pela perspectiva do Regionalismo talvez impeça o reconhecimento de toda sua riqueza e diversidade.  Eis por que, ultrapassada a etapa do alinhamento de suas criações junto à dos maiores escritores brasileiros, emergiu a necessidade de resgatá-lo dos elos que o prendiam a um período histórico e a uma tendência temática e estilística.  É o que se verifica nas distintas linhagens que se debruçam sobre sua obra: as que, dando sequência à atividade investigativa com fontes primárias, recuperam obras que permaneceram inéditas ou, impressas, tornaram-se raras e inatingíveis; as que relacionam as narrativas de Simões Lopes a questões suscitadas pela Teoria da Literatura; as que propõem a superação dos limites do Regionalismo por meio da identificação da universalidade dos temas que compõem o imaginário dos textos do autor; as que extravasam as fronteiras nacionais, apontando para a interação do escritor com a produção latino-americana e internacional.

 

A fecundidade artística da obra de Simões Lopes Neto estimula seus leitores a entendê-la, interpretá-la e valorizá-la.  Esse é um caminho que os andarengos críticos, tal como o narrador dos CONTOS GAUCHESCOS, ainda percorrerão por longo tempo.

 

Fonte:  ZeroHora/Regina Zilberman / Professora do Instituto de Letras da UFRGS e Coautora de João Simões Neto: a invenção, o mito e a mentira (Movimento/IEL, 1973) em 02/10/2016.