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Jorge Amado / Clássico, Feminista e do Povo
Jorge Amado / Clássico, Feminista e do Povo

JORGE AMADO / CLÁSSICO, FEMINISTA E DO POVO

 

JORNALISTA E MESTRE EM LETRAS REFLETE SOBRE A FACETA DE RESPEITO AO GÊNERO E DA ESCRITA POPULAR DE JORGE AMADO.

 

POR SER CLÁSSICA, A OBRA DE JORGE AMADO É ATUAL E UNIVERSAL.  NÃO POR ACASO SEUS LIVROS SÃO OBJETO DE ESTUDO EM TODO O PAÍS.

 

Publicado originalmente em forma de folhetim nos jornais, “Os Miseráveis” (1862), do escritor francês Victor Hugo, foi um sucesso imediato de público.  Hoje, a narrativa envolvente que opõe as personagens Jean Valjean e Javert é um clássico da literatura universal, pouco importando a condição prévia de best seller.  Popularidade precoce também teve Charles Dickens, na Inglaterra, com a história do órfão “Oliver Twist” (1837) ou o retrato da Revolução Industrial, em “Tempos Difíceis” (1854).  Assim como Victor Hugo, Charles Dickens é um clássico, apesar do sucesso comercial.  Em comum, esses escritores europeus tinham a obstinação em escrever sobre os paupérrimos.  O projeto literário era claro: dar voz aos que não eram ouvidos.  No Brasil, Jorge Amado segue essa tradição de predileção pelo povo como temática e foi agraciado com o reconhecimento por parte do seu público leitor, que o tornou por muito tempo o escritor brasileiro mais lido no mundo.  Todavia, seu sucesso é também sua sina.  Jorge Amado foi perseguido por parte da crítica que nunca soube – e não sabe – lidar com seu sucesso.  Mesmo assim, Jorge Amado é um clássico.  É um daqueles raros clássicos que são validados instantaneamente pelos leitores, assim como aconteceu com Hugo e Dickens.

 

Por ser clássica, a obra de Jorge Amado é atual e universal.  Não por acaso seus livros são objeto de estudo nas pós-graduações em Letras em todo o país.  Os títulos amadianos ainda têm muito para oferecer: seja para o prazer da leitura, para pesquisa ou reflexão pontual.  Assim, provocada pela chamada “primavera das mulheres” no Brasil, que assiste ao surgimento de novos movimentos feministas, proponho refletir sobre a emancipação das mulheres em GABRIELA, CRAVO E CANELA (1958), de Jorge Amado.  Como afirmamos, clássicos permanecem atuais.  GABRIELA foi escrito há meio século e ainda não se esgotou.  Um leitor apenas de capa ou orelha de livro pode equivocadamente bradar que Jorge Amado objetifica as mulheres.  Ora, a personagem que dá título à obra é a prova do contrário.  Na contramão de todas as convenções sociais do Brasil da década de 1920 – e que talvez persistam –, GABRIELA não quer e não vai se casar.  É adepta do amor livre, quer escolher com quem e quando se relacionar.  Ela se basta e não precisa de um marido para ser completa.  Contudo, minha curiosidade recai sobre a personagem Malvina, estudante secundarista que luta para escapar do futuro que lhe é reservado.  Um futuro que inclui casamento e filhos e não uma faculdade e trabalho, como gostaria.  Malvina quer ser livre.   A jovem conquista um grau de autonomia incomum ao seu ambiente através da leitura.  Compreendemos aqui a leitura como um ato de transgressão das normas, já que ela lê livros considerados proibidos para mulheres.  Entre as obras lidas por Malvina e tidas como “impróprias” pelos frequentadores da Papelaria Modelo, ponto de encontro dos intelectuais de Ilhéus, está O CRIME DO PADRE AMARO, de Eça de Queirós.  A leitura, apesar de emancipadora, é vista como “degradante”, pela sociedade patriarcalista da cidade onde transcorre o romance.  O ato de ler é, para Malvina, libertador e, ao mesmo tempo, transgressor.  Frequentar a escola é apenas uma etapa para se tornar uma moça casadoira.  Mas Malvina não concorda e quer cursar faculdade, ter um emprego e casar apenas por amor.  As aspirações de Malvina são proibidas assim como é proibido o acesso das garotas a certos livros, regalia reservada aos homens.  Assim, às mulheres restava ler os livros “cor de rosa”.  A expressão está relacionada com a coleção de livros chamada Biblioteca das Moças, cujos livros traziam histórias de amor, mocinhas puras e homens ricos e belos.  Uma passagem do livro sintetiza nossa ideia da emancipação feminina de Malvina através da leitura.  Quando a personagem e suas colegas entram na Papelaria Modelo, Malvina escolhe folhear os títulos deAluísio de Azevedo e Eça de Queirós, enquanto as demais buscam os livros da Biblioteca das Moças.  Uma colega diz a Malvina que na sua casa tem O CRIME DO PADRE AMARO e que, ao tentar lê-lo, seu irmão “disse que não era leitura pra moça”.  Malvina fica revoltada e revida:  “Por que ele pode ler e você não?”.  Malvina compra o romance e desencadeia duas reações, uma instantânea e outra posterior.  A primeira são os comentários dos frequentadores da loja.  “Essas moças de hoje... até livro imoral elas compram”, diz um homem.  A segunda reação veio do pai de Malvina, o coronel Melk.  O pai vai até a loja e pede ao livreiro João Fulgêncio que não venda mais livros para Malvina que não sejam “de colégio” porque “os outros não servem para nada, só servem para desencaminhar”.  Como punição pela audácia, Malvina recebe uma sessão de espancamento com rebenque do coronel.  O pai planeja que a filha apenas termine o colégio, mas Malvina quer ir à universidade.  “Não quero filha doutora.  Vai pro colégio das freiras, aprender a costurar, contar e ler, gastar seu piano.  Não precisa de mais.  Mulher que se mete a doutora é mulher descarada, que se quer perder”, determina o patriarca.  Malvina acaba fugindo para São Paulo que, especialmente na década de 1920, simboliza a liberdade e a modernidade que aspirava.  Hoje em dia, ainda existem muitas Malvinas, cada uma com sua luta.  São mulheres que lutam contra violência doméstica ou por igualdade salarial.

 

Malvina é uma personagem secundária de Jorge Amado, mas a atualidade de seu conflito lhe garante permanência, como fazem os livros clássicos.  Para ela, ler é um ato de transgressão.  Ler Jorge Amado, massacrado por parte da academia e da crítica, ainda é um ato de rebeldia.

 

 

Fonte:  Correio do Povo/Paula Sperb (Jornalista, mestre em Letras, Cultura e Regionalidade (UCS) e doutoranda em Letras (UCS/Uniritter))