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Pensando um País - Parte 4/Mestiçagem
Pensando um País - Parte 4/Mestiçagem

PENSANDO UM PAÍS – PARTE 4

 

O QUE FOI FEITO DA MESTIÇAGEM.

 

Quem são os brasileiros?  Para alguns são indígenas, que chegaram primeiro, para outros uma Europa nos Trópicos, depois uma “democracia racial”, uma nação mestiça, uma sociedade racista e, finalmente, “multicultural e multirracial” (inclusive “a segunda nação africana”).  A questão sempre parte de uma visão política contemporânea que busca reler o passado e enfatizar os elementos que considera comprobatórios.  E a releitura (muitas vezes de origem externa) transforma alguns estudiosos de ícones em malditos, enquanto apaga outros.

É o caso do sociólogo Gilberto Freyre (1900 – 1987), cuja obra foi reduzida ao clichê da “democracia racial” com base em trechos de Casa Grande e Senzala (1933) e na sua posição intelectual e política conservadora.  Mas cada pessoa é fruto de sua época.  Embora ele enfatizasse o que considerava o caráter benigno da colonização portuguesa e as relações quase paternalistas do senhor de engenho com os escravos, não é apenas isso que há em sua obra.

Poucos leram New World in The Tropics (1944), que agrega as conferências que Freyre proferiu em universidades americanas, nas quais atacou o racismo existente nos países anglo-saxônicos, elogiou a política soviética das nacionalidades e criticou a escravidão no Brasil:  “Regiões onde a escravidão foi, por séculos, o sistema de organização social dominante são similares a áreas que sofreram a devastação em longas e sucessivas guerras”.  Menciona a vida curta e sofrida dos escravos, em comparação com os senhores brancos, destacando a imensa contribuição daqueles à construção da nação.

Que nação?  Uma nação mestiça, situação demonstrada estatisticamente por ele.  Contra o pensamento de muitos de seus contemporâneos, argumentou que as regiões mencionadas “necessitam recuperação social, não a substituição de sua população mestiça por uma ‘ariana’”.  Mesmo considerando a mestiçagem uma qualidade, e não a razão do “atraso” de então, essa assertiva foi associada pelos críticos à visão conservadora de democracia racial.

Curiosamente, um dos maiores historiadores brasileiros, José Honório Rodrigues (1913 – 1987), um progressista de esquerda, em sua obra Brasil e África, um Outro Horizonte (1964), além de afirmar os conceitos de interesse nacional, soberania e desenvolvimento, considerava o Brasil uma nação mestiça.  Tanto Freyre quanto Rodrigues foram personagens curiosos,  faleceram no mesmo ano, o primeiro defendeu a política de Salazar para as colônias portuguesas e apoiou o golpe de 1964, enquanto o outro teve posição radicalmente antagônica em ambos os casos.

Rodrigues destacou a importância da formação africana do Brasil e, por caminhos diferentes, demonstrou que o processo de mestiçagem forjou uma nova sociedade, com enormes potencialidades.  Crítico mordaz das elites “caiadas” (brancas, europeizadas ou americanizadas), soube relacionar a dimensão racial com a social, sem recorrer a estereótipos.  Interessante, sua contribuição é ocultada, enquanto se destaca apenas uma visão caricata de Freyre.

A ideia de Identidade Nacional somente ganha sentido como elemento basilar para o advento de um Brasil em industrialização.  Por isso, apenas com Getúlio Vargas (de quem Freyre, da UDN, era inimigo), houve uma política de Estado orientada para a ideia de nação, que era mestiça.  Mas a sociedade brasileira, ainda que orientada nessa direção, resistiu em seus preconceitos, voltados contra os mais pobres e os de pele mais escura.  E a luta pela democratização foi, sintomaticamente, marcada pela influência de uma sociologia euro-norte-americana e pós-moderna que retirava o foco das relações de classes sociais para as de raça, conceito adormecido desde a derrota do III Reich.

Assim, o Brasil, onde a mestiçagem constitui um dado empírico e estatístico inegável, foi declarada uma nação multicultural e multirracial, como os Estados Unidos (onde o grau de mestiçagem é limitado).  Novamente o Brasil, em pleno processo mundial de globalização, perde sua identidade nacional e é dividido em “raças”.  O problema é que não há desenvolvimento sem projeto nacional e esse deve estar baseado numa identidade nacional comum.

Curiosamente, as políticas de desenvolvimento social e econômico e projeção internacional dos governos Lula e Dilma, tão próximas das teses de Rodrigues, abandonaram a ideia de um Brasil mestiço e abraçaram a tese do multiculturalismo.  Em meio à crise, surge o estranhamento e a confusão.  Talvez seja a hora de retomar a leitura dos clássicos nacionais, redescobrir o Brasil e torna-lo novamente independente.  E promover mudanças profundas e indispensáveis que, entra governo, sai governo, são sempre contornadas.

 

Fonte:  Jornal ZeroHora/Paulo Fagundes Visentini (Historiador,