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Personagens Quase Humanos
Personagens Quase Humanos

PERSONAGENS QUASE HUMANOS.

 

  1. A MORTE DE ARGOS/DONALDO SCHÜLER*
  2. O PONTO DE VISTA DO CAVALO/DEONÍSIO DA SILVA*
  3. HOMENS E BICHOS/SERGIUS GONZAGA
  4. MOBY DICK, OU A BALEIA/PEDRO THEOBALD*

 

Nem só de gente vive a literatura universal.  Como esquecer esses outros personagens, como diriam os portugueses, bestiais:  Argos, o cão de Ulisses; Rocinante, o cavalo de Dom Quixote; a baleia Moby Dick; a cadela Baleia, de “Vidas Secas”, obra-prima de Graciliano Ramos; e um quadrúpede menos conhecido do grande público, embora fundamental num livro que deveria ser mais lido, a mula Camurça, do romance do brasileiro Mário Palmério, “Chapadão do Bugre”.  Como Donald Schuler, Deonísio da Silva, Sergius Gonzaga e Pedro Theobald se encarregarão, respectivamente, dos quatro primeiros bichos citados acima, falarei um pouco do quinto, a “convencida”, “semostradeira”, “espirituosa” e “luxenta” Camurça.  Uma mula que pensa e deseja.

 

 

“Chapadão do Bugre” (1965) começa e termina com os pequenos capítulos, intitulados de quadros pelo autor, “cavaleiro e montada”.  No meio da narrativa, há outro quadro com esse nome. O cavaleiro José de Arimateia e a montada, a mula Camurça, fundem-se ao encontro da morte.  Homem e animal fazem parte de um mesmo fotograma.  Percorrem um sertão sem saída.  Palmério não tem o brilho retórico de Guimarães Rosa, mas tem a força de um bom contador de histórias.  A mulinha de Arimateia é sujeito:  “Camurça viajava, por sua vez, ocupada com muitos pensamentos”.  No que pensava? Na sua vida.  Nas suas andanças.

“Camurça nada via além do chão batido e do ralo capim, os montes de pedra empilhada ao pé das cruzes, o céu fundo, de menos estrelas agora.  Nada ouvia a não ser os assovios do vento que se precipitava pelas quebradas da serra, as próprias ferraduras e as do burro companheiro a pipocar na crosta socada do caminho.  Faro nenhum, também – apenas o suor salgado dos baixeiros, o cheiro conhecido das botas e da capa do patrão, o recendor do chão e do capim molhado.  De repente, porém, percebeu o perigo...” José de Arimateia gritou:  “Besta”.  O narrador informa:  “Desta vez, porém, Camurça não teve tempo de fugir”.  Nem de se preocupar com os outros.  Estava só:  “Nem sentiu quando o burrão pelo-de-rato, fuzilado por igual, tropeçou, amoleceu, caiu”.  A mula ainda reconheceu um dos atacantes:  “Um deles, ela já de há muito conhecia, desde os tempos de mulinha nova”.

 

 

Depois, bem depois, já seria o desfecho:  “Camurça não pôde ouvir os tiros, a rajadinha derradeira, assistir ao fim.  De súbito, sumiu-se a barra da manhã, e uma noite sem lua e sem estrelas – negra, terrivelmente negra – acabou por tudo apagar e emudecer”.  Camurça jamais terá a fama de Rocinante ou de Moby Dick.  Não passa de uma mulinha de literatura um tanto regional.  Permanecer num relativo anonimato.   Não tem a fortuna crítica da cadela Baleia.  Há, no entanto, algo de profundamente verdadeiro na sua descrição e na sua existência de personagem de ficção.  Ao final desse livro que desapropriei, em Palomas, da biblioteca do doutor Concesso Cassales, como posso comprovar pela assinatura dele na página de rosto, eu me senti profundamente chocado comigo:  senti mais a morte da Camurça.

 * Leia a matéria em:  Literatura Universal - Artigos e Reportagens 

Fonte:  Correio do Povo/caderno de Sábado/Juremir Machado da Silva em 12 de setembro de 2015.