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O Testamento de Ariano Suassuna
O Testamento de Ariano Suassuna

O TESTAMENTO DE ARIANO SUASSUNA

 

Romance DOM PANTERO NO PALCO DOS PECADORES é súmula artística das visões do escritor nordestino.

 

Por Carlos André Moreira

carlos.moreira@zerohora.com.br

 

Nos últimos anos de sua vida, enquanto viajava pelo Brasil apresentando suas cada vez mais famosas “aulas-espetáculo”, que misturavam palestra com apresentações musicais e teatrais enraizadas nos elementos tradicionais da cultura nordestina, Ariano Suassuna (1927-2014)falava ocasionalmente do “livrão” que vinha produzindo, uma súmula de toda a sua obra misturando prosa, teatro, artes visuais e poesia. Ariano começara o “livrão” em 1981, e vivia acossado pela ideia de morrer antes de concluí-lo, até por ser um perfeccionista que vivia reescrevendo a obra – à mão. Ao menos essa pequena batalha o escritor venceu. O “livrão” está sendo lançado agora pela Nova Fronteira: O ROMANCE DE DOM PANTERO NO PALCO DOS PECADORES, dividido em dois volumes, O JUMENTO SEDUTOR e O PALHAÇO TETRAFÔNICO, que somam ao todo mais de mil páginas.

 

Suassuna mais de uma vez disse que sua ideia era produzir uma obra alegórica sobre a formação do Brasil, mas esse plano foi mudando durante as várias redações que o romance teve em mais de três décadas. O que Ariano concluiu, no entanto, é uma autobiografia alegórica.

 

Tanto O JUMENTO SEDUTOR quanto O PALHAÇO TETRAFÔNICO são estruturados em forma de cartas assinadas pelo narrador Dom Pantero, um autodenominado “artista frustrado” por ter almejado, sem sucesso, fazer de sua arte uma espécie de terreno consagrado da civilização brasileira, uma “Ilumiara”, neologismo com o qual Suassuna domina tanto sítios rupestres dos índios cariris quanto um castelo, real ou metafórico, para a preservação da cultura nacional.

 

A “Ilumiara” que Pantero busca criar é o próprio livro que se apresenta ao leitor. Dom Pantero é um pseudônimo assumido por um artista chamado Antero Savedra. Ao longo de suas cartas, Savedra/Pantero conta episódios traumáticos de seu passado, o maior deles a morte do pai (evento que espelha o assassinato do pai de Ariano, o político paraibano João Suassuna, morto durante a Revolução de 1930). Antero/Pantero também apresenta seus irmãos, o romancista Auro Schabino, o dramaturgo Adriel Soares e o poeta Altino Sotero. Todos como denunciado pelas iniciais, alter-egos das facetas artísticas do próprio Ariano. Auro é o autor de O ROMANCE d’A PEDRA DO REINO, “introdução” a DOM PANTERO. Os versos de Atino são poemas de Suassuna. Dom Pantero cria um movimento artístico que é o próprio Movimento Armorial criado por Suassuna nos anos 1970. Ilustrações espalhadas pelo livro, muitas do próprio Ariano, reproduzem as inscrições rupestres da arte nordestina.

 

Suassuna se desdobra em vários narradores, do picaresco ao heroico, do cômico ao místico, do erótico ao político. Entremeadas às reflexões de Antero, estão citações de poemas, trechos de prosa e até textos jornalísticos de outros autores são incorporados em um contexto que parecem comentar o livro que Suassuna produziu. Um artigo escrito pelo professor da PUCRS Ricardo Barberena e publicado no caderno Cultura de Zero Hora, em 2007, por exemplo, é um posfácio da obra.

 

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno em 02/01/2018