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Homens pela Escrita - Parte 5/Rodrigo Cambará
Homens pela Escrita - Parte 5/Rodrigo Cambará

HOMENS PELA ESCRITA – PARTE 5/RODRIGO CAMBARÁ

UM CERTO CAPITÃO RODRIGO.

 

“Os mortos foram sepultados naquele mesmo dia.  Quase toda a população de Santa Fé foi ao enterro do Capitão Rodrigo, levando-lhe o caixão a pulso até o cemitério.  Pedro e Juvenal ajudaram a descê-lo à cova, e todos fizeram questão de atirar um punhado de terra em cima dele.”

 

 

Assim, Erico Veríssimo põe o ponto final na vida de um dos seus mais marcantes personagens.  Um dos raros varões retratados por ele nos mínimos detalhes físicos e psicológicos, uma vez que preferia dar essa íntima atenção apenas às mulheres, como relatei anteriormente no texto dedicado a Ana Terra.

 

                                     

 

Impressiona, porém, que em toda a extensão do capítulo dedicado ao Capitão Rodrigo Cambará, cerca de 130 páginas do romance “O Continente”, primeiro da trilogia “O Tempo e o Vento”, Rodrigo nunca “pense”.  Sim, nunca expresse um pensamento, ao contrário de Juvenal, Bibiana, Pedro Terra, o Padre Lara, aos quais o autor concede o direito de pensar, analisar facetas do caráter daquele homem que, num dia qualquer do ano de 1828:  “chegou em Santa Fé a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele olhar de gavião que irritava e, ao mesmo tempo, fascinava as pessoas”.

 

        

 

Todas as virtudes e defeitos do Capitão Rodrigo não são exageradas por Erico, por ter ele sido moldado no barro da sua época.  “Conheci outros homens assim, produto da vida que levavam, da educação que tiveram.  Que se podia esperar dum menino criado no meio de soldados nos acampamentos, de peões e índios nos galpões, nos bochinchos, nas canchas de carreira e de jogo de osso?  A guerra talvez tenha sido sua única escola.”

 

                                   

 

O amor de Rodrigo Severo Cambará por Bibiana Terra é tão verdadeiro, que ele decide casar-se com ela, abandonar a vida de gaudério, e fixar-se no vilarejo de Santa Fé.  Mas, para isso, é obrigado a enfrentar num duelo de adaga o outro apaixonado da moça, nada menos do que o filho do Coronel Ricardo Amaral, o estancieiro mais rico da região.  E ali, naquele momento, Erico torna-se legítimo romancista histórico, ao tecer para o leitor, a partir de um microcosmo, a trama da situação política que levou o Rio Grande à Revolução Farroupilha.  Rodrigo ganhara seus galões de capitão lutando ao lado do Coronel Bento Gonçalves, um maçom nacionalista, e voltara das guerras da Cisplatina e da Batalha de Ituzaingô apenas com as condecorações e o pouco que economizara do seu soldo.  Enquanto o Coronel Amaral, sem nenhum escrúpulo, aliara-se ao partido retrógrado, chamado de Caramuru, aquele que pregava a volta do Brasil ao domínio de Portugal.  E servindo aos poderosos do Rio de Janeiro, continuou roubando terras e mantendo calados pelas armas os “súditos” do seu feudo.  Assim, Erico coloca as coisas em seus devidos lugares e legítima a revolta da população rio-grandense:  “Sem escolas, sem estradas, sem pontes, sem poder Judiciário, mas com uma carga de impostos, para qualquer coisa que conseguisse produzir, maior do que nos tempos coloniais”.  E quando estoura a revolução, é lógico que os Amarais ficarão contra ela e Rodrigo assumirá seu papel de farroupilha, morrendo de armas na mão.

 

                                             

 

Mesmo depois de casado com Bibiana, para desespero do Padre Lara, o capitão não respeita o nono mandamento, levantando a saia de todas as mulheres que cedem aos seus encantos.  Mas é incapaz de roubar, de matar sem motivo, de abusar dos mais fracos.  Mesmo perdido no jogo e, algumas vezes, na bebida, mantém-se fiel ao código de honra que aprendeu na lida de campo e nos campos de batalha:  “A vida vale mais do que uma ponchada de onças”, ou seja, vale mais que um monte de dinheiro.  Não se vende nunca e mantém a palavra dada.  Não aceita abuso de autoridade e é contra a escravatura, principalmente porque lutou lado a lado com muitos  negros valentes.  Assim, quando vê um branco batendo num escravo, toma-lhe o chicote e o surra com a mesma violência, até vê-lo arrastar-se pelo chão.

Seguramente Erico gostava do seu personagem farroupilha, tanto é que se inspirou em Rodrigo Díaz de Bivar, na hora de dar-lhe um nome.  E como o lendário Cid, guardadas as devidas proporções, também o Capitão Rodrigo, talhado na madeira dura de Cambará, tendo Severo como nome materno (em homenagem a seu amigo romancista Rivadavia Severo, autor de “Visão do Pampa”, livro editado pela Globo em 1936) representa um símbolo dos guerreiros rio-grandenses da primeira metade do século XIX.  Por vocação ou por destino histórico, um verdadeiro Campeador.

 

Fonte:  Correio do Povo/Caderno de Sábado/Alcy Cheuiche (Escritor. Autor do romance histórico “A Guerra dos Farrapos”) em 22/08/2015