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Um Homem do Mundo
Um Homem do Mundo

UM HOMEM DO MUNDO

 

O Brasil está infestado de mazombos.  Mazombos conscientes, mazombos inconscientes, mas sempre mazombos.  E em que consiste o atual mazombismo brasileiro?  Tal como nos tempos coloniais, consiste essencialmente nisso: na ausência de orgulho, dignidade e satisfação em ser brasileiro.  Para o mazombo, tudo no Brasil está perdido e errado, nada está certo.  Vive zangado com o Brasil, porque o Brasil não é parecido com a França, com a Alemanha, com os Estados Unidos.  Vianna Moog, Correio da Manhã, 20/06/1948.

 

 

 

Clodomir Vianna Moog foi um cidadão do mundo;  Mais que isso, Vianna Moog foi um cidadão brasileiro no mundo.  O escritor, nasceu na cidade de São Leopoldo, na parte meridional do Brasil, foi, acima de tudo, um defensor de seu país, um  divulgador da cultura do Brasil.  Um homem culto e diplomático, que soube, como poucos, compreender o papel que lhe coube no teatro da vida.  Nos romances e textos ensaísticos de Moog, sobressaiu sempre a personalidade marcante, o traço firme e fino com o qual ele conduziu destinos e construiu hipóteses que explicassem os principais percalços do povo brasileiro, bem como suas relações com os povos de outras nações.

 

 

Vianna Moog foi um homem dos limites, desde seu primeiro embate político, ainda no período da Revolução de 30, a partir do qual gerou a antipatia de um dos líderes mais carismáticos de sua época, Getúlio Vargas, até os textos da maturidade, período em que já havia, diplomaticamente aprendido a lidar com  reveses, sempre esteve situado à beira do precipício.  A fortuna crítica sobre sua obra comprova a personalidade forte e disciplinada do escritor, que foi elogiado por ícones de sua geração, como Antônio Olinto, Gilberto Freyre, Josué Montello, Austregésilo de Ataíde e Manuel bandeira.  Entretanto, também houve críticas a sua visão ácida da realidade, através da qual foi além de seu tempo e vislumbrou questões que, ainda hoje, estão na ordem do dia.

É o caso da xenofobia latente em UM RIO IMITA O RENO, cujas constatações são bastante pertinentes para os dias atuais, em que se discute a imigração e o problema dos refugiados.  Moog construiu uma obra que, com base em sua vasta experiência humana, aborda temas significativos, principalmente no que diz respeito  ao choque entre culturas diferentes, que pode acontecer nos mais diversos âmbitos, desde o núcleo fechado de uma família tradicional alemã até o universo amplo da diplomacia internacional.

 

 

A leitura de sua obra no século XXI é pertinente porque os temas por ele tratados não perderam a atualidade, visto que são temas universais, mas, além disso, sua abordagem destes temas foi visionária, uma vez que soube trata-los de modo que ainda hoje percebamos a consistência de seu posicionamento.  Um exemplo desta visão aguçada é a sua INTERPRETAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA: em 1942, ao ser convocado para falar sobre literatura aos estudantes do Rio de Janeiro, Moog proferiu uma conferência na qual explicitou sua interpretação para o fenômeno literário no Brasil.  Na concepção do escritor gaúcho, a abordagem adequada para um estudo sistemático da literatura no Brasil pressupõe sua segmentação em ilhas sócio-geográfico-culturais (portanto regionais), que caracterizariam cada uma das possibilidades formativas de núcleos agregadores.

As sete ilhas pensadas por Moog para compor o arquipélago literário e cultural brasileiro, Amazônia, Nordeste, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, são a chave para a compreensão deste enigma: “Qual, então, o sistema que mais se lhe ajusta (à literatura Brasileira)?  Para cada uma das ilhas, Moog seleciona características significativas e autores exemplares, compondo, aos poucos, um mosaico das principais vertentes da literatura brasileira.  Apesar de conter aspectos significativos para a compreensão do fenômeno literário no Brasil, tal obra de Moog, assim como outras que poderiam ser citadas, ainda é pouco trabalhada no universo acadêmico brasileiro, bem como desconhecida, inclusive em sua cidade e seu estado natal.

 

 

O Acervo Literário Vianna Moog, cujo tratamento vem sendo realizado pela UNISINOS, visa preencher esta lacuna na vida literária brasileira.  Resgatar a obra de Moog e recolocá-la em circulação é de vital importância para o patrimônio cultural do Estado do Rio Grande do Sul.  A principal preocupação da equipe que vem trabalhando com a obra do autor leopoldense é torna-lo vivo para seus conterrâneos, uma vez que, como fica esclarecido neste texto, sua importância para o sistema literário brasileiro é fundamental.  Moog foi um autor que rompeu as fronteiras e soube se colocar como um homem do mundo, um homem cuja visão ultrapassou seu tempo e seu espaço. É crucial, hoje, conduzir sua obra à posição de destaque que merece entre os seus.

 

Fonte:  Correio do Povo/Caderno de Sábado/Márcia Lopes Duarte (Professora de Literatura da Unisinos. Pesquisadora do Acervo Vianna Moog na Unisinos) em 20 de fevereiro de 2016.