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Mais Estudado, Mais Popular e Mais Lido
Mais Estudado, Mais Popular e Mais Lido

MAIS ESTUDADO, MAIS POPULAR E MAIS LIDO.

 

NAS REDES SOCIAIS, NAS LIVRARIAS E NAS UNIVERSIDADES, OBRA DE CAIO FERNANDO ABREU CONTINUA VIVA E PULSANTE.

 

O tempo fez bem a Caio Fernando Abreu.  Desde sua morte em 1994, cujos 20 anos se completam nesta quinta-feira (25/02/16), a voz do escritor tem ficado cada vez mais viva nas mais diferentes frentes: desde pesquisas acadêmicas até as redes sociais, passando pelas prateleiras de livros e pelos palcos.

Caio foi um escritor capaz de não apenas conciliar influências do mundo pop e literário em seus textos, mas também foi um dos poucos que conseguiu suscitar admiração nestes dois universos.  Por um lado, ganhou o respeito e a amizade de escritores como Lygia Fagundes Telles, que admirava a capacidade do autor de escrever contos a partir de “matéria inacessível, intocável, impenetrável e indecifrável”, e conquistou importantes prêmios da literatura brasileira, como o Jabuti (em 1984, 1988 e 1996) e o Associação Paulista de Críticos de Arte (1990).  Por outro, teve obras adaptadas para o cinema e era lido cotidianamente por milhares de pessoas que acessavam suas crônicas em jornais como ZH e O Estado de S. Paulo, nos quais falava sem pudor de seus dramas pessoais, como a convivência com a aids, e teve obras adaptadas para o cinema.

Nesta semana, o Santander Cultural está mantendo uma programação especial sobre o escritor, com sessões de cinema, debates e show.  Além disso, a atriz Deborah Finocchiaro deve estrear em outubro um espetáculo sobre o Caio, com direção de Luiz Arthur nunes.  Mais homenagens ainda estão previstas para setembro, mês em que o autor completaria 68 anos, com exposição e eventos em diferentes pontos de São Paulo.

Na internet, o tributo ao autor é constante.  No Facebook, por exemplo, 98 páginas e 21 grupos são dedicadas ao escritor, sendo que a mais popular delas, www.facebook.com/caiofernandoabreu, tem quase 700 mil seguidores, segundo levantamento do Laboratório de Estudos sobre Imagem e cibercultura (Labic – UFES).  Nem todas têm muito cuidado com a ortografia do que publicam – e nem sempre as frases compartilhadas são realmente de Caio.  Por mais respeito que tivessem à língua portuguesa ou à origem dos textos, porém, não agradariam  o homenageado.  Pelo menos é o que pensa quem o conheceu de perto:

- Tenho certeza de que Caio odiaria essa coisa de tirarem frases dele de contexto e transformá-lo em um compêndio de trechos bonitos, de ajuda e motivação.  Ele viraria um demônio e diria:  “Não retalhem o que me demorou tanto para pôr um ponto final!” – diz o diretor de teatro Luciano Alabarse, que foi amigo próximo do autor.

Com ou sem a aprovação de Caio, o fato é que a internet redimensionou seu alcance e permanência.  Para o professor Fábio Malini, coordenador do Labic, Caio é um dos maiores fenômenos da literatura brasileira nas redes sociais, comparável somente a Clarice Lispector:

- Caio tinha muita popularidade como cronista.  Além disso, tem um lado da sua literatura muito melancólico, o que ajuda a difundir nas redes – avalia Malini.

 

 

 

De olho na popularidade do escritor, a Nova Fronteira completou seu plano de publicação de Caio Fernando Abreu, que incluía três livros de contos, um de crônicas, dois romances, quatro antologias e dois títulos infantis.  Segundo a editora, haverá reedições constantes para que a reposição não seja interrompida nas livrarias.  A gaúcha L&PM mantém edições pocket de O OVO APUNHALADO (contos, 1975), TRIÂNGULO DAS ÁGUAS (novelas, 1983) e OVELHAS NEGRAS (contos, 1995).

Nas estantes das universidades, o nome de Caio também tem crescido.  O escritor figura entre os mais estudados de sua geração, ao lado de nomes como o da carioca Ana Cristina Cesar e do conterrâneo João Gilberto Noll.  Amanda Costa, autora do estudo 360 Graus: Inventário Astrológico de Caio Fernando Abreu (2011), publicado pela Libretos, avalia que são os leitores apaixonados que têm ajudado a levar o autor cada vez mais para a universidade.

- A gente quer pesquisar sobre o que a gente ama.  A primeira vez que tentei estudar o Caio foi em 1988, quando ainda não havia pesquisa alguma sobre ele.  Quando voltei, nos anos 2000, o cenário era totalmente diferente, foi um processo rápido – afirma Amanda, que fez mestrado e doutorado a respeito do escritor.

A professora Márcia Ivana Lima e Silva, do Instituto de Letras da UFRGS, afirma que este é um momento em que as pesquisas sobre o autor estão mais maduras, alcançando leituras mais aprofundadas.

- Vinte anos depois da morte do Caio, a obra se deslocou do escritor.  Assim, começam a ficar aparentes aspectos mais atemporais, como olhar multicultural do autor, sua capacidade de cruzar referências pop, orientais e literárias.  É salto para uma leitura cada vez mais universal de Caio.

 

 

 

5 LIVROS PARA CONHECER CAIO FERNANDO ABREU

POR AMANDA COSTA, AUTORA DE 360 GRAUS – INVENTÁRIO ASTROLÓGICO DE CAIO FERNANDO ABREU.

 

LIMITE BRANCO – 1970 – ROMANCE

O primeiro livro, as primeiras tintas: já se configuram o estilo elaborado e minucioso do escritor, com sua arquitetura de atmosferas, memórias, impressões, imagens e símbolos, a criatividade e a habilidade no uso das vozes narrativas, o diálogo sutil com outras obras literárias e a beleza e maestria do trabalho com a linguagem.  Em terceira e primeira pessoas, narra um ciclo dos 12 aos 19 anos do protagonista, envolvido com questões como sexualidade, morte, construção da identidade e busca de um sentido para a vida, vinculado à descoberta de sua vocação literária.

 

O OVO APUNHALADO – 1975 – CONTOS

O estilo de Caio se consolida, com domínio da linguagem e trabalho minimalista da palavra, equilibrando técnica, sensibilidade e emoção.  A crítica social, que aparece fortemente em INVENTÁRIO DO IRREMEDIÁVEL (1970), se intensifica, assim como a utilização de imagens surreais e do fantástico.  Acrescenta novos elementos como a ecologia, a astrologia, o misticismo e referências simbólicas e esotéricas de diferentes tradições, contatos com extraterrestres e viagens astrais, a psicodelia hippie, as drogas e a cultura pop.  Experimenta, inventa, ousa, expõe a carne viva com arte.  Como poucos fizeram.

 

MORANGOS MOFADOS – 1982 – CONTOS

Aprimora elementos dos livros anteriores (narrador, linguagem do cinema, cultura pop, trechos de poemas e canções, sonoridade, recursos gráficos) e trata de temas antes proibidos pela censura, imprimindo de vez sua marca inovadora e sui generis.  Em seus personagens melancólicos e meio à deriva, resta um estranho gosto de morangos mofados na boca.  Mesmo com as divisões, a solidão e o desencanto, há um final afirmativo, simbolizado na autossuperação do protagonista do último conto e sua decisão de encarar o real de cara limpa e de plantar frescos e vermelhos morangos.

 

OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO – 1988 – CONTOS

O leitmotiv é o amor, em suas tantas formas, como diz Caio:  “Amor e sexo, amor e morte, amor e abandono, amor e alegria, amor e memória, amor e medo, amor e loucura”.  O amor, aliás, é um de seus grandes temas, presente em todas as suas obras.  Mesmo em um tempo em que o amor “virou risco de vida” e da realidade “tão escassa de dragões”, há a possibilidade do voo, ainda que o real seja inventado.  Como em Morangos Mofados e Triângulo das Águas, há a anunciação de esperança no final.  É a maturidade contística do escritor: narrador e narrativa unos como a geometria límpida de uma esfera de cristal.

 

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA? UM ROMANCE B – 1990 – ROMANCE

Com o mote da busca de Dulce Veiga, uma cantora que desaparece no auge da fama, um jornalista vive uma jornada pessoal de busca de si mesmo.  Contextualiza aspectos sociais importantes do Brasil no início da década de 1990 e que persistem até hoje.  O texto tem um tom leve e divertido, com o uso frequente do humor, uma faceta do escritor mais presente em sua dramaturgia.  O humor aparece em situações inusitadas e personagens estereótipos, mas sobretudo pelo olhar irônico do protagonista, que ri de si mesmo, de seus dramas e brinca com o ato de narrar.

 

Fonte:  ZeroHora/Alexandre Lucchese (alexandre.lucchese@zerohora.com.br) em 25 de fevereiro de 2016.