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A Abolição na Imprensa e no Imaginário Social
A Abolição na Imprensa e no Imaginário Social

A ABOLIÇÃO SOBRE OUTRA LENTE

 

Escritor e professor analisa RAÍZES DO CONSERVADORISMO BRASILEIRO, de Juremir Machado da Silva.

 

Por Luiz Antonio de Assis Brasil

Escritor, Professor, Autor de obras como FIGURA NA SOMBRA, O PINTOR DE RETRATOS, CÃES DA PROVÍNCIA e CONCERTO CAMPESTRE.

 

A real dimensão sociológica e política da promulgação da Lei Áurea é assunto para ser decantado por uma geração inteira. Ao final, pouco de avançará, pois não apenas a História altera seu modo de encarar os fatos do passado, como a ideologia dá um colorido próprio a cada evento que colaborou para o desencadear do episódio de 13 de maio de 1888.

 

Perante esses vetores que quase sempre divergem em pontos essenciais, o novo livro de Juremir Machado da Silva, RAÍZES DO CONSERVADORISMO BRASILEIRO – que leva o subtítulo denotativo de A ABOLIÇÃO NA IMPRENSA E NO IMAGINÁRIO SOCIAL – é, todo ele, voltado para os fatos, com documentação adequada e suficiente, com muitas peças inéditas. Trata-se de um trabalho jornalístico, mas é, também, um trabalho de reflexão, embora o autor deixe muito para o leitor formar seu juízo – como deve acontecer em qualquer obra de qualidade.

 

O livro é constituído por 38 capítulos, que levam títulos inquietantes uns, como: “A hipótese radical: por que os escravos não mataram todos os seus donos?”; outros, provocadores: “Não se nascia livre pela Lei do Ventre Livre”; e, ainda, reveladores: “Lenda da criação do preto”.

 

O mais interessante é que, sendo uma coletânea de ensaios, o autor obtém uma rigorosa unidade; quero dizer que há um fio visível – e às vezes, subliminar – que faz com que cheguemos à conclusão de que o autor sabe o que quer e tem os meios de o dizer. O subtítulo é um bom caminho interpretativo. Na sucessão dos ensaios, vamos consolidando a ideia de que a Abolição não foi apenas aquela data que ingenuamente na escola se aprendia a honrar, junto com o nome da princesa Isabel, “a Redentora”, mas foi um momento catalisador no qual, exasperadas as forças em litígio, definiu-se o pensamento conservador e o sentimento racista que, de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau segundo as circunstâncias consideradas, incrustam-se até hoje na sociedade brasileira.

 

No livro de Juremir Machado da Silva, sabemos que, por exemplo, a monarquia corporificada em D. Pedro II, perdeu várias oportunidades de realizar uma transição hábil da escravidão para a liberdade e, de sobra e no seu próprio interesse, preservar o trono. Há, no capítulo 8, uma magistral descrição do estado de espírito do Imperador: “Refém dos proprietários de escravos, dava um passo à frente e parava. Temia ter caminhado depressa demais, queria estar à altura do humanismo que lhe atribuíam, mas não ousava romper os grilhões que o mantinham atrelado aos espíritos conservadores de sua época. Fora educado para o bom senso, a ponderação e a moderação. Quando dava um passo mais longo, sentia vertigens. Pensava correr. Se não andava, ficava tonto. Não queria que o acusassem de lerdeza. Nem de correria.” Por medo das oligarquias cafeeiras, contemporizou com uns e com outros e, no fim, perdeu tudo, e ainda teve de assistir à tomada do poder republicano pelos chefões que antes o apoiavam e poderiam ser considerados, até ontem, monarquistas fiéis. Isso faz pensar no comportamento de Luis XVI no primeiro período revolucionário. De tanto tergiversar, sua sorte foi pior: acabou perdendo o trono,mas também, e literalmente, a cabeça. Se depois de Luis XVI houve a assunção republicana de antigos realistas, aqui ocorreu o mesmo: Campos Salles e Rodrigues Alves, presidentes da novíssima república, são exemplos de escravocratas que se deram bem – muito bem – no novo regime. O andamento político, na França, desdobrou-se no período napoleônico, a que se seguiu a Restauração bourbônica. Aqui, resultou numa sucessão de ditaduras, de início “esclarecidas”, do Positivismo; depois, francamente iníquas.

 

Interessante observar como, nos anos anteriores à Abolição [e à República, claro], a administração imperial era uma nave à deriva, com leis votadas ao sabor de interesses e para resolver situações emergenciais, com jogos de interesses nem sempre saudáveis, com traições, com ruínas e ascensões da noite para o dia, com declarações sibilinas do poder – e honni soit qui mal y pense na situação brasileira atual. No caso daquele momento, sabemos no que resultou; aqui e agora, temos um grande ponto de interrogação a nos assombrar. Podemos dizer, sem erro, que o pensamento conservador, no episódio da Abolição, saiu dele convalidado, reiterado e dono dos valores simbólicos e da linguagem que persistem até hoje.

 

O capítulo 11 representa uma espécie de summa do livro. Chama-se “Lenta, gradual e infame (ou Contratos devem ser respeitados).” O leitor já entendeu a analogia que Juremir faz com o processo da Abertura brasileira, imposta autocraticamente pelo ditador Geisel como “lenta, gradual e segura”. No caso da Abolição, o debate se tornava ostensivo na contraposição de dois grupos ideológicos representados no parlamento: os patrimonialistas, isto é, os escravagistas, e os que se opunham a ela. Seria muito favor inseri-los na clássica taxionomia direita-esquerda. No fundo, ambas facções queriam salvar sua pele, e o melhor meio disso acontecer – viram logo, ante o abismo – estava em fazer com que tudo se resolvesse de modo menos traumático. Assim foram surgindo as diferentes leis que aprendemos na escola: Lei do Ventre Livre, Lei dos Sexagenários, etc., que o autor desmascara de modo cabal. Não funcionaram, em resumo, levando à precipitação do 13 de maio. Os proprietários quiseram indenização do Estado pela perda de suas “propriedades”, isto é, os escravos, que como tais eram considerados. Não ganharam, claro. Vimos o caso perversa e inversamente analógico da indenização das vítimas da última ditadura que, salvo um ou outro caso, ainda aguardam sua vez.

 

Aí que reside o valor de uma obra investigativa feita com instinto, conhecimento e coragem: ela transcende seu objeto específico e nos permite associações antigas e atuais.

 

A leitura desse livro – já em segunda tiragem pela Civilização Brasileira –, por cima de tudo, oferece uma leitura agradável, tendo os capítulos uma dimensão adequada ao leitor de hoje. O bom é que RAÍZES DO CONSERVADORISMO BRASILEIRO se constitui numa obra randômica, digamos assim; permite uma leitura de início ao fim, bem como pode ser lida por capítulos avulsos, ao sabor de nosso interesse. Tudo fará sentido, pois se trata de uma obra orgânica.

 

Quero destacar que o livro de Juremir não traz nada que não esteja documentado, com exaustivas citações das fontes, o que faz deduzir uma pesquisa abrangente e compreensiva dos diferentes vetores que atuavam no período. Não é sempre que isso acontece entre nós.

 

Para finalizar: erra quem pense que vai ler “apenas” um livro sobre a Abolição. Sim, é sobre a Abolição, e excelente e original, mas vai muito além, mostrando que nossa situação política encalacrada é coisa que vem de muito longe, e no fundo não passa da consequência de processos políticos mal resolvidos.

 

RAÍZES DO CONSERVADORISMO BRASILEIRO, GANHOU O PRÊMIO APCA

 

A Associação Paulista de Críticos em Arte (APCA) conferiu nesta semana (em dezembro) o prêmio de Melhor Ensaio/Teoria e/ou Crítica ao livro, de Juremir machado da Silva (Civilização Brasileira). A obra é resultado de quatro anos de pesquisa sobre a cobertura da Abolição da Escravatura pela imprensa da época, revelando como foi o impacto deste processo na construção do imaginário social após 13 de maio de 1888, que segundo o autor é o “ano que a História esqueceu”.

 

 

Fonte: Correio do Povo/Caderno de Sábado em 16/12/2017.