
POR QUE 'A QUEDA DO CÉU' ESTÁ ENTRE OS MELHORES LIVROS DE LITERATURA E DE NÃO FICÇÃO?
Livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert foi bem votado por jurados de ambas as listas da Folha
Discussão passa por hibridismo das obras indígenas e insuficiência na segmentação de gêneros
Obra que marcou a disseminação do pensamento indígena no Brasil, "A Queda do Céu" foi o campeão de votos na lista de melhores livros brasileiros de não ficção do século 21, indicado por 23 dos 100 membros do júri.
O livro escrito pelo xamã yanomami Davi Kopenawa com o antropólogo francês Bruce Albert havia aparecido também entre os melhores livros de literatura brasileira na lista organizada pela Folha em maio de 2025, que teve um elenco de 101 jurados totalmente diferentes.
Se a eleição dupla pode causar estranhamento, a razão está no hibridismo natural a uma obra que recorre a pensamento mitológico e elaboração poética para explicar o mundo pelo olhar de um líder espiritual yanomami; e em certa insuficiência na classificação estanque dos gêneros literários.
"A Queda do Céu" é resultado de décadas de diálogo entre Kopenawa e Albert, que viveu por anos entre as comunidades yanomami, e foi publicado antes na França enquanto Beatriz Perrone-Moisés trabalhava na árdua tradução da obra para a Companhia das Letras. O livro deu uma projeção até então inédita à autoria indígena no mercado editorial brasileiro.
"Você passeia por muitos gêneros dentro desse livro", diz Rita Carelli, autora de "O Mundo Fora da Pedra" e organizadora dos livros recentes de Ailton Krenak. "A Queda do Céu", segundo ela, congrega campos como a filosofia, a religião e a antropologia. "Nós, como sociedade, fomos segmentando as áreas de conhecimento, e nas sociedades indígenas é tudo muito mais fluido."
"É uma pena que o campo dos livros no Brasil ainda entenda literatura e não ficção como grupos separados", afirma o escritor e sociólogo José Henrique Bortoluci, um dos jurados da lista. "O livro do Kopenawa é o exemplo máximo disso: é o maior livro publicado no Brasil nos últimos 25 anos em qualquer gênero, e é literatura, e é não ficção."
Durante a elaboração deste ranking, a Folha voltou a todos os convidados do júri que votaram em "A Queda do Céu" e em outros livros que foram lembrados na lista de literatura, como "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", de Krenak, e "O que É Meu", de Bortoluci, para explicitar que havia esse conflito.
A decisão final foi acatar todos os votos originais, que posicionaram "A Queda do Céu" na liderança desta lista, deixando evidente como os dilemas na categorização editorial brasileira não estão nada pacificados.
Doutora em letras, escritora e referência na pesquisa de literatura indígena, Trudruá Dorrico ressalta que a separação entre vida e morte, entre o que é humano ou não, é muito mais tênue na cultura yanomami que na consagrada pela literatura ocidental.
Na narrativa do xamã, aponta ela, quando uma pessoa é intoxicada com mercúrio —um problema bem real e concreto—, a história dela não acaba com a morte. "Esse espírito vai doente para o mundo dos espíritos. E isso deixa o mundo dos espíritos doente."
"O mundo material se confunde com o mundo espiritual, que se confunde com o mundo político, tudo isso vai se atravessando", diz a pesquisadora, do povo makuxi. "E isso é uma literatura fantástica. Mas não no sentido de uma invenção individual de um sujeito, mas uma criação coletiva de um tempo imemorial, que só pode nascer dentro de um povo originário. E que não se perdeu apesar do mundo moderno."
Segundo Dorrico, há outra derivação, dentro da literatura indígena contemporânea, que é a criação individual de ficção a partir desse mundo. "Quem consome literatura indígena consegue sentir a diferença. É uma questão complexa, porque há também a carência de uma crítica literária indígena para gerenciar mais as categorizações dos nossos gêneros."
As histórias de origens, como as apresentadas por Kopenawa, são entendidas no Brasil como mitos, como tramas que não são verdadeiras. "Na verdade, são narrativas também religiosas, da floresta. Como você pode dizer que são falsas, sendo que fé não se questiona? Mas, como teórica da literatura indígena, eu entendo que tudo isso está em construção."
E essa não é a única questão. Obras como "O que É Meu", narrativa de Bortoluci sobre seu pai caminhoneiro, com fortes tintas literárias, também foram lembradas nas listas de ficção e não ficção.
"Ainda não encontramos lugares adequados no nosso debate, nos prêmios, e mesmo nas prateleiras, para esse enorme campo de produção contemporânea que é a não ficção literária", diz o autor. Outras tradições já equacionaram isso melhor, segundo ele —a francesa, com Annie Ernaux, e a norueguesa, com Karl Ove Knausgard, por exemplo.
"Outra tradição com presença restrita no Brasil é o ensaio literário. Joan Didion e James Baldwin estão reconhecidos em coleções internacionais como grandes autores de literatura por seus textos de não ficção. Nossa tradição é muito mais do ensaísmo crítico, como Antonio Candido e Roberto Schwarz, ou de interpretação nacional, como Sérgio Buarque de Holanda."
Críticos experientes como Godofredo de Oliveira Neto, imortal da Academia Brasileira de Letras e professor de letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro há 46 anos, também têm notado uma "permeabilização mais evidente" entre gêneros literários.
"É preciso cuidar para não acabar com a autonomia da literatura", diz ele. "Afinal, a arte acontece quando ela se afasta do real. A literatura não tem compromisso com a verdade, tem que ter compromisso consigo mesma."
Fonte: Folha de S. Paulo/Walter Porto em 25/04/2026