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Eliana Pittman, 80 anos de jazz, samba e carimbó
Eliana Pittman, 80 anos de jazz, samba e carimbó

BOOKER, JAZZISTA NORTE-AMERICANO, MOLDOU CARREIRA DA CANTORA ELIANA PITTMAN

Aos 80, ela lança discos, prepara biografia, vive redescoberta entre jovens e diz que falta emoção às novas canções

Artista teve influência desde a adolescência do padrasto, líder de banda que se apresentava em shows no prédio da Folha

 

Numa tarde quente da última primavera, o burburinho era grande na entrada da maior biblioteca de São Paulo, a Mário de Andrade, no coração da metrópole. Havia fila para o show que Eliana Pittman faria, no começo da noite, ao lado de Alaíde Costa e Graça Braga.

 

Entre estantes que guardam cerca de 1 milhão de livros, o edifício projetado pelo arquiteto francês Jacques Pilon (1905-1962) reafirmava uma vocação menos óbvia: a de praça pública da cultura, onde cabem festivais de cinema, cursos de escrita, poesia e, vez ou outra, o improviso de um refrão.

 

Com fala mansa e gestos desenhados no ar, Eliana caminhou pelos corredores, cumprimentou leitores e comentou a arquitetura de linhas modernas, com ecos de art déco, até encontrar um canto discreto. Ali falou das jam sessions promovidas pela Folha, nos anos 1960.

 

Do lado de fora, muitos ficaram sem ingresso. Chamava atenção a presença maciça de jovens, a maioria negra. Não era apenas expectativa por um show. Havia ali identificação. Em dezembro de 1965, Eliana tornou-se a única artista brasileira a estampar a capa da revista Ebony, publicação norte-americana voltada ao público negro.

 

Mais de 60 anos depois, sua presença na biblioteca soava como memória e continuidade. Nas mesas de leitura, um dos livros mais disputados é "Um Defeito de Cor", de Ana Maria Gonçalves, romance que revisita o capitalismo escravista do período colonial brasileiro e que lidera a lista dos melhores livros brasileiros de ficção do século 21, de acordo com júri ouvido pela Folha.

 

Foi em casa, entre discos e ensaios, que Eliana se formou. A mãe, Ophelia, apaixonou-se pelo jazzista Booker Pittman (1909-1969) durante a temporada brasileira de Louis Armstrong, no fim dos anos 1950.

 

Booker passou a integrar a vida da menina e a moldar seu ouvido. Pôs para tocar Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. Ali estavam as primeiras referências. Aos 14 anos, ela já ensaiava com o padrasto. Logo vieram gravações, rádio, televisão, turnês internacionais pela Argentina, Alemanha e pelos Estados Unidos.

 

Mas aquela formação não era só estética: era também estrutura. Ao lado da rotina de ensaios, havia uma casa funcionando como base de trabalho.

 

Ophelia não apenas se apaixonou como ajudou a família a ganhar dinheiro com a música. A cantora recorda-se que o próprio Booker costumava definir a relação entre eles de forma irônica ao tratar da participação da matriarca como empresária da dupla. Eles tinham até slogan: Booker saxofone, Eliana microfone e Ophelia telefone.

 

No centro de São Paulo, Booker e cia. seguiam até o número 425 da alameda Barão de Limeira, onde o térreo virava palco das célebres jam sessions. "Foi incrível. Mas eu era muito jovem e não tinha dimensão do que era tudo aquilo na minha vida", diz a cantora, hoje aos 80.

 

Ela reconhece em Booker a base de sua trajetória. "Se não fosse o Booker Pittman, eu não estaria aqui com você." Nas jam sessions da Folha, recorda-se, a estrela era ele. "O homem arrebentava."

 

Carioca, batizada Eliana Leite da Silva, vive um momento de reavaliação de percurso. No ano passado, lançou "Nem Lágrima Nem Dor", dedicado à obra de Jorge Aragão. Apresentou ainda "Eliana Pittman e SP Pops Jazz Band", álbum gravado ao vivo, que celebrou seus 80 anos. Prepara também uma biografia autorizada.

 

A nova geração tem redescoberto sua voz. Em festas, reaparecem músicas como "Vou Pular Neste Carnaval" e "Quem Vai Querer". Os carimbós que gravou nos anos 1970 atravessam décadas e ganham novas leituras.

 

Eliana observa a cena atual com distância. Para ela, a música de hoje, marcada pela batida eletrônica, perdeu algo no caminho. "Música boa tem que ter letra", afirma. "Hoje parece matemática: dois e dois são quatro, então coloca essa palavra. Não é mais como antes, quando vinha do coração."

 

Seis décadas e um bocadinho depois das noites na Barão de Limeira, ela volta ao centro: agora para cantar entre livros. A cidade é outra. A música também. Mas, na fila que se formava na Mário de Andrade, ainda dava para reconhecer o mesmo impulso das jam sessions: o desejo de ouvir, de estar junto, de seguir em frente.

 

Fonte: Folha de S.Paulo/Roberto de Oliveira em 26/02/2026