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Orquestras: Divulgando a Música Clássica
Orquestras: Divulgando a Música Clássica

PARTITURA DE SUCESSO

 

Apesar das dificuldades econômicas, orquestras e grupos de concerto mantém apresentações e ajudam a disseminar a música clássica

 

A música de concerto no Brasil é uma frente de resistência cultural. Com cortes de verbas e patrocínios reduzidos nos últimos anos, orquestras tiveram de ajustar seus programas, silenciá-los temporariamente ou até abandonar definitivamente os palcos. No Rio Grande do Sul, a Orquestra Filarmônica da PUCRS, que chegou a ter 43 músicos, foi extinta em 2017, e em fevereiro deste ano, a Orquestra Unisinos Anchieta saiu de cena após 23 anos de atividades.

 

Mesmo com os orçamentos apertados e o cenário econômico desfavorável, grupos orquestrais ativos no Estado se empenham para não apenas manter sua arte viva, mas também levá-la a um público mais amplo. Para a maioria, as leis de incentivo à cultura são um mecanismo fundamental de viabilização de projetos.

 

Na ativa desde 1950, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) é a mais antiga orquestra brasileira em funcionamento ininterrupto. Para o maestro e diretor artístico da instituição, Evandro Matté, o segredo dessa longevidade está no modelo “hibrido” de sustentação. Criada em 2004 para impulsionar a construção de uma sede própria para a Ospa, a Fundação Cultural Pablo Komlós é um braço de apoio que auxilia na captação de recursos. “A orquestra tem custo básico bancado pelo Estado, mas também busca, através de outras iniciativas, soluções financeiras para cobrir a sua programação”, relata Matté.

 

A agenda intensa é outro fator por trás do sucesso continuado da instituição. Além dos tradicionais concertos sinfônicos aos sábados em sua sede (a Casa da Música Ospa, inaugurada no ano passado), a orquestra faz apresentações gratuitas em igrejas, recitais de música de câmara, concertos didáticos em escolas e outros pelo interior do Estado, em uma média de oito a 10 viagens por ano. “Não conheço orquestra no Brasil que tenha um vínculo tão forte com a sociedade. E ela diversifica muito a programação, demonstra o resultado daquele investimento público que está sendo feito”, destaca Matté.

 

Além de reverenciar gigantes da música erudita com o Bach, Beethoven e Mozart, os grupos instrumentais gaúchos transitam cada vez mais pelo universo popular para renovar o público do gênero. A Orquestra de Câmara da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) contempla, em seu repertório, desde composições barrocas até clássicos do rock e música pop. A resposta tem sido muito positiva, segundo o maestro e diretor artístico Tiago Flores.

“Conseguimos atingir todas as faixas etárias. Nossos concertos populares lotam, mesmo vendendo ingressos”, afirma.

 

O diálogo com a cultura popular também está presente na programação da Orquestra Sinfônica da Universidade de Caxias do Sul (Osucs), que inclui espetáculos mesclando rock, clássicos da tropicália e tango. Um de seus projetos mais conhecidos, a série Concertos de Primavera, prestou um tributo aos Beatles em um evento ao ar livre no campus-sede da universidade, em outubro passado. É uma das ações de formação de público da instituição, diz o coordenador da orquestra, Moacir Lazzari. “A gente vai criando o hábito e interesse de as pessoas assistirem à orquestra no teatro”, diz.

 

Outra adepta da fusão de repertório, a Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo abriu sua temporada deste ano com um concerto ao lado da banda gaúcha Tchê Guri. “Queremos mostrar que um grupo orquestral como o nosso, muitas vezes considerado elitista, também pode tocar música popular”, afirma o diretor artístico da orquestra, Gustavo Muller.

 

 

SEPTUAGENÁRIA EM PLENA FORMA

 

Prestes a completar sete décadas, a principal orquestra gaúcha vive uma fase especial. A conquista de um espaço próprio para ensaios e apresentações, com a inauguração da sala de concertos da Casa da Música da Ospa, no Centro Administrativo Fernando Ferrari, em março do ano passado, trouxe avanços em termos de qualidade técnica e planejamento, segundo o maestro e diretor artístico da Ospa, Evandro Matté. Até então, desde 2008, quando teve de desocupar o antigo prédio alugado na avenida Independência, conhecido como Teatro da Ospa, a sinfônica usava espaços provisórios, muitas vezes ensaiando em locais diferentes.

 

“O fato de ter a casa própria está contribuindo para um crescimento enorme da orquestra. É notória a evolução, pelo ambiente, pela estrutura. E porque ela se ouve. Achamos o equilíbrio do volume de percussão, do volume dos metais. Cada orquestra se adapta a sua sala com o tempo, e isso é o que a gente tem sentido ali dentro”, afirma Matté.

 

A recente integração de 27 músicos que haviam sido aprovados em concurso no final de 2014, além de evitar a necessidade de contratações emergenciais para concertos, foi outra injeção de vigor na sinfônica, que hoje tem 102 integrantes. Ainda há 12 vagas abertas e outros músicos com aposentadoria prevista – deste modo, a Ospa avalia com o governo do Estado a possibilidade de realizar novo concurso para formar um banco reserva, de acordo com o maestro.

 

Neste ano, a Ospa retomou as apresentações gratuitas em igrejas da Região Metropolitana e criou uma série de concertos no Auditório Araújo Vianna, nos quais explora repertórios temáticos – no próximo, em 7 de julho, interpretará sucessos da banda britânica Pink Floyd. “A diversificação de séries nos permite atingir diferentes públicos, porque tem gente que quer ouvir uma orquestra, mas não gosta de música de concerto mais tradicional”, justifica Matté. No total, a Ospa tem 64 apresentações previstas neste ano, e a meta é lançar até novembro a programação de 2020.

 

Para marcar seus 70 anos, a sinfônica deve gravar um novo CD. Também está nos planos uma turnê pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e pelas cidades de Buenos Aires (Argentina) e Montevidéu (Uruguai). “Estramos trabalhando para que a gente possa circular cada vez mais pelo interior do Rio Grande do Sul, mas também sair de nossas fronteiras”, afirma Matté.

 

 

De olho no futuro, a orquestra investe na formação de jovens por meio de sua escola de música, pela qual passam muitos de seus integrantes. A transferência da instituição para o Palacinho na avenida Cristóvão Colombo, no ano passado, após uma reforma, permitiu ampliar para cerca de 300 o número de alunos que têm aulas gratuitas no conservatório. O local foi cedido pelo governo do Estado à Fundação Ospa por 25 anos. Agora, está em projeto a criação de uma Escola Social, para atender crianças em vulnerabilidade que nunca tiveram nenhum tipo de aprendizagem musical.

 

 

MELODIA DAS RUAS PARA O TEATRO

 

Com 67 anos de atividades ininterruptas, a Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo (OSHN) é um dos grupos orquestrais mais antigos do Estado. Nasceu como uma banda municipal e no início da década de 1990 passou a ser administrada pelo Instituto de Arlindo Ruggeri, entidade sem fins lucrativos que leva o nome do primeiro regente do grupo. “A partir de 1997, começou um movimento na gestão do instituto de transformar a banda que tocava na rua, marchando, numa orquestra e tocar música de concerto”, conta o diretor artístico da orquestra, Gustavo Muller.

 

Hoje, o grupo reúne 31 músicos, dos naipes de madeiras (flautas, oboés e clarinete), metais (trompas, trompete, trombone, eufônio e tuba) e percussão (bateria, tímpano e teclas percussivas e percussão geral). Tombada como patrimônio histórico, artístico e cultural do município em 2008, a orquestra vem se apresentando no Teatro Feevale, em Novo Hamburgo. Para 2019, já tem 22 concertos programados. Também começou a desenvolver ações baseadas em leis de incentivo. “Para fazer parcerias, trazer convidados r realizar concertos maiores, precisamos ter projetos incentivados”, afirma Muller.

 

 

TALENTO JOVEM DÁ O TOM

 

Composta basicamente por instrumentos de cordas, a Camerata Ivoti é uma das três orquestras do programa de educação musical da Associação Pró-cultura e Arte Ivoti (Ascarte), em parceria com o Instituto Ivoti. Criada em 1984, tem 18 integrantes. A cada dois anos, realiza uma turnê internacional. A última ocorreu em janeiro e fevereiro deste ano, para diversos países europeus.

 

Depois dessas viagens, a orquestra costuma passar por um ciclo de renovação, explica o coordenador da Ascarte Ivoti, Arthur Felipe Moreira de Melo. “Muitos se desvinculam da escola ao terminar o Ensino Médio, mas principalmente depois do período da turnê europeia, seguindo outros caminhos de estudo ou indo buscar a profissionalização na música”, diz Melo.

 

 

INCLUSÃO SOCIAL PELA MÚSICA

 

Mais do que um caminho para lapidar a vocação artística de crianças e jovens, a música pode ser um agente de transformação social. No Estado, uma das iniciativas bem-sucedidas é a Orquestra Jovem do Rio Grande do Sul (RS), que neste ano completa uma década de atividades. O grupo nasceu de um projeto de formação musical voltado a estudantes de baixa renda da rede pública liderado pelo maestro Telmo Jaconi.

 

Hoje, são mais de 100 alunos, de 10 a 24 anos. Os selecionados recebem um auxílio mensal, e os que têm mais de 14 anos são inseridos no Programa Jovem Aprendiz, em uma parceria com o Colégio Pão dos Pobres. “Do grupo inicial, temos 12 que hoje estão no bacharelado em música (na UFRGS) e servindo como monitores e professores do projeto. São multiplicadores”, diz Jaconi.

 

A orquestra se apresenta com um grupo de 40 a 60 alunos avançados do projeto – uma sinfonietta, como explica o maestro. No ano passado, participou do Festival de Inverno de Campos do Jordão, maior evento de música erudita do Brasil. “Queremos viajar para o exterior, mostrar nosso trabalho. Mas a meta principal continua sendo a mesma do início: uma orquestra que seja uma inclusão social, mas trabalhe com excelência musical e vise a formação profissional”, destaca Jaconi.

 

Outro exemplo de trabalho de inclusão é a Orquestra Villa-Lobos, como define a professora e regente Cecília Rheingantz Silveira. O conjunto é o ponto alto de um programa de educação musical liderado por ela na Escola Municipal de Ensino Fundamental Heitor Villa-Lobos, na Vila Mapa, periferia de Porto Alegre, desde 1992.

 

Tudo começou com um grupo de flautas com 14 alunos. Hoje, o projeto mantido pela Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre, em parceria com o Centro de Promoção da Criança e do Adolescente São Francisco de Assis, atende a mais de 600 crianças por semana em oficinas de música ministradas em quatro locais da comunidade por 25 educadores. E tem de tudo – flauta, violão, violino, viola, violoncelo, percussão, baixo elétrico, cavaquinho, bandolim, gaita-ponto, piano.

 

O grupo artístico que compõe a orquestra reúne 50 integrantes de 11 a 25 anos e faz em média 50 apresentações por ano. Para cobrir os custos de produção de espetáculos, instrumentos e até transporte, conta com patrocínios e colaborações. “Ao longo desse tempo, fomos buscando parcerias. Artistas fazem participações especiais conosco. Muitas pessoas também nos procuram porque querem auxiliar”, diz Cecília.

 

 

VETERANO DOS PALCOS

 

Músico mais antigo da Ospa, o violinista Mauro Luiz Rech tinha apenas 19 anos quando ingressou na orquestra. De lá para cá, já se passaram 46 anos, e ele segue reafirmando seu amor à arte a cada apresentação. “Não existe motivo melhor para continuar”, afirma Rech, que integra o naipe dos primeiros violinos.

 

Natural de Santa Cruz do Sul, Rech começou os estudos de violino aos 7 anos, tendo o pai, Lindolfo, como professor. Nas quatro décadas e meia de carreira na Ospa, atuou em concertos históricos. Como o realizado nas ruínas de São Miguel das Missões em novembro de 1997, com a participação do tenor espanhol José Carreras, e o de abril do ano seguinte no estádio Beira-Rio, que reuniu o tenor italiano Luciano Pavarotti e o cantor Roberto Carlos. “Foram centenas de concertos com a participação de grandes solistas de todos os instrumentos e de todas as partes do mundo, muitos também brasileiros”, recorda.

 

O músico experiente também ajuda a formar novas gerações de instrumentistas. Desde 1982, Rech concilia a atividade na orquestra com a de professor de violino na Escola da Ospa – Conservatório Pablo Komlós. O violino do qual ele extrai seus acordes foi produzido na Alemanha e tem cerca de 140 anos. Foi um presente de seu pai, quando Rech completou 12 anos. “Desde então, sempre toco com ele. É uma excelente cópia de um violino fabricado por Gasparo da Salò (luthier italiano do século XVI). De valor econômico razoável e de grande valor afetivo para mim”, diz.

 

 

OSUCS SE ADAPTA ÀS MUDANÇAS

 

Responsável por uma série de projetos de valorização da música erudita, formação de público e educação musical para crianças e jovens, a Orquestra Sinfônica da Universidade de Caxias do Sul (Osucs) começou este ano menor. Dos 39 músicos, 14 foram desligados em março. Os ajustes são decorrentes das dificuldades financeiras da instituição de ensino. Com a formação reduzida, a Osucs está reformulando sua programação. Para retomá-la, buscará parcerias com outras orquestras, diz o coordenador do Setor de Desenvolvimento Cultural da UCS e da Orquestra, Moacir Lazzari.

 

A redução no quadro, porém, não abateu o ânimo. “O nosso grande desafio é, neste momento de dificuldade, não deixar cair o nível técnico da orquestra”, afirma Lazzari. Em 2018, a Osucs promoveu 29 concertos, além de mais de 40 apresentações de seus grupos de música de câmara com a participação de convidados – como os Concertos ao Entardecer, realizados no último domingo de cada mês no Recreio da Juventude, em Caxias. Para este ano, já tem 16 concertos previstos e prospecta outros. “A intenção é manter essa programação bem ativa. E na música de câmara é provável que a gente supere o número do ano passado”, afirma Lazzari.

 

 

MÚSICA DE CÂMARA PARA TODOS

 

Com um repertório extenso e rico, as orquestras de câmara são conjuntos compactos, menores que as sinfônicas e filarmônicas. Criada em 1985, a Orquestra de Câmara da Ulbra é um dos exemplos.

 

Financiada com recursos da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) e patrocínios, através de leis de incentivo, a orquestra fez fama pela expressão democrática: seu repertório inclui diferentes gêneros musicais, do barroco à música regionalista. O diretor artístico e maestro Tiago Flores vê nessa proposta a perspectiva de atrair um público mais amplo e, ao mesmo tempo, enriquecer o trabalho do grupo. “Acreditamos que é importante ter essa diversidade, tanto para o nosso desenvolvimento quanto para o público”, afirma Flores.

 

Também de 1985, a Orquestra de Câmara Theatro São Pedro (Octsp) tem 18 integrantes e é coordenada maestro Evandro Matté. Um de seus desafios é a busca de estabilidade, já que é mantida exclusivamente por lei de incentivo. “Ela não tem uma estrutura de receita, e esse é um dos grandes objetivos que temos”, diz Matté.

 

AS ORQUESTRAS

 

Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa)

Ano de criação:  1950

Integrantes:  102

Regente:  Evandro Matté

 


 

Orquestra de Câmara Theatro São Pedro

Ano de criação:  1985

Integrantes:  18

Regente:  Evandro Matté

 

Orquestra de Câmara da Ulbra

Ano de criação:  1996

Integrantes:  20

Regente:  Tiago Flores

 

Orquestra Jovem do Rio Grande do Sul

Ano de criação:  2009

Integrantes:  60

Regente:  Telmo Jaconi

 

Orquestra Sinfônica da UCS

Ano de criação:  2001

Integrantes:  25

Regente:  Manfredo Schmiedt

 

Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo

Ano de criação:  1952

Integrantes:  31

Regente:  Lincoln da Gama Lobo

 

Camerata Ivoti

Ano de criação:  1994

Integrantes:  18

Coordenação:  Isabel Wiebke

 

 

Orquestra Villa-Lobos

Ano de criação:  1992

Integrantes:  50

Regente:  Cecília Silveira

 

 

PARA SABER MAIS

 

Orquestras de câmara:

São formações menores, variando geralmente entre oito e 18 integrantes dependendo do tipo de apresentação, por isso não têm todos os tipos de instrumentos. Dedicam-se à música de câmara, ou seja, composições eruditas para execução em espaços pequenos.

 

Sinfônicas e filarmônicas:

Historicamente, as sinfônicas eram mantidas pelo poder público (federal, estadual ou municipal), enquanto as filarmônicas recebiam apoio de associações de amigos ou entidades privadas. Na prática, não há mais essa distinção, e ambas captam recursos de fontes governamentais e privadas. Quanto à formação, não há diferença entre os dois tipos. Ambas são orquestras completas, incluindo de 80 a 100 ou mais músicos, dependendo da peça a ser executada.

 

Os instrumentos:

São agrupados em categorias, ou “naipes”:

  • cordas: violinos, violas, violoncelos, contrabaixos e harpa;
  • sopro/madeiras: flautas, flautins, oboés, clarinetes, fagotes, contrafagotes e corne inglês;
  • sopro/metais: trompas, trompetes, trombones e tuba;
  • percussão: tímpanos, triângulo, bombo, reco-reco, pratos, caixas, carrilhão sinfônico e outros;
  • teclas: órgão, piano e cravo.

 

Fonte: Jornal do Comércio/caderno Viver/Patrícia Feiten/Jornalista formada pela UFSM e tradutora, formada em Letras pela UFRGS, em 09/06/19