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Os Inventores do Mundo e da Literatura
Os Inventores do Mundo e da Literatura

OS INVENTORES DO MUNDO

 

Há quatro séculos, morriam o inglês William Shakespeare e o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra, escritores que revolucionaram o modo como o homem moderno vê a realidade – e, sobretudo, como ele vê a si próprio.

 

No sábado, 23 de abril de 2016, celebrou-se o Dia Internacional do Livro e do Direito Autoral. A data foi escolhida pela Unesco para homenagear, em especial, o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) e o inglês William Shakespeare (1564-1616), gigantes da literatura que morreram no mesmo dia. Ou, na verdade, não: Cervantes foi enterrado no dia 23 porém a morte se deu na véspera, em Madri. Shakespeare faleceu em sua cidade natal, Stratford-upon-Avon, no dia 23 – isso segundo o calendário juliano então vigente na Inglaterra, que tinha onze dias de diferença em relação ao hoje universal padrão gregoriano (a data corrigida seria 3 de maio). A coincidência é, portanto, falsa, mas talvez guarde aquela verdade íntima própria da arte da ficção, na qual os dois escritores foram mestres. Era preciso de alguma forma marcar na folhinha das grandes efemérides o fato de dois desbravadores da imaginação terem sido contemporâneos. Eis Shakespeare, que devassou a consciência humana em peças como HAMLET e REI LEAR, e eis Cervantes, que prospectou o abismo entre nossas idealizações e a realidade por meio da loucura de seu popular herói DOM QUIXOTE, o CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA: por que não inventar uma data única para homenageá-los? VEJA lembra os 400 anos da morte desses dois inigualáveis criadores nas páginas que se seguem, em artigos e entrevistas que esmiúçam o tempo, a vida e o legado do dramaturgo inglês e do romancista espanhol. É um convite para que o leitor volte às páginas mais numerosas e ricas deixadas por Shakespeare e Cervantes.

 

UM EXPLORADOR DA ALMA

 

Com sua ousada mistura do baixo e do sublime, o teatro do inglês William Shakespeare abriu novas sendas para a exploração da psicologia dos personagens. Mas o bardo, ainda um enigma, não deixou nenhum vislumbre de sua própria personalidade. Por Jerônimo Teixeira.

 

Atrasado para um banquete que sua família de nobre linhagem oferece à rainha, o adolescente corre pelas vastas dependências da casa em direção ao salão de refeições – mas estanca diante da porta aberta da sala da criadagem. À mesa, um homem de cabelo desgrenhado e colarinho sujo está absorto em pensamentos, a pena suspensa sobre o papel. “Será um poeta?”, pergunta-se o jovem aristocrata. O estranho leva a pena ao papel e escreve uma dúzia de linhas. O adolescente então sai de seu transe e retoma o caminho para o banquete (chegará a tempo de oferecer uma bacia de água de rosas para a rainha lavar as mãos). O rapaz viveria ainda por mais 300 anos – e a longevidade não seria seu único dom sobrenatural: a certa altura da vida, ele se converterá inexplicavelmente em mulher, mas aquele breve instante em que viu um desalinhado poeta escrevendo nas dependências dos criados terá sido decisivo. Pois ele se convence de que viu não apenas um poeta, mas o poeta William Shakespeare. No momento em que é flagrado por Orlando (tal é o nome do nosso rapaz/mulher), ele seria ainda um dramaturgo emergente na Inglaterra sob o reinado de Elizabeth I. Nas gerações seguintes, Shakespeare se converteria em pilar monumental da língua e da cultura inglesas. Mais: ultrapassaria os limites insulares de seu país para ser reconhecido universalmente como um gigante da literatura e um portento do palco. Virginia Woolf, em ORLANDO, romance publicado em 1928, mostrou sensibilidade irretocável nesse retrato: em plena atividade criativa, Shakespeare apresenta-se como uma figura modesta e malajambrada, mas que mesmo assim tem o dom de encatar e paralisar Orlando. “Conte-me sobre tudo o que há no mundo inteiro”, o rapaz desejaria perguntar, mas se cala. E é isso que a obra desse homem cujos 400 anos de morte são lembrados neste dia 23 de abril de 2016 oferece ao leitor que jamais terá mergulhado a ponta de uma ppena de ganso em um tinteiro e ao espectador que hoje vê adaptações cinematográficas de MACBETH e HAMLET em serviços de streaming: todo o vasto mundo da interioridade humana, do amor sublime de Romeu e Julieta à irreverência velhaca de Falstaff, da ambição assassina de Macbeth à hesitação filosófica de Hamlet, da digna fidelidade de Cordelia à baixa vilania de Iago.

 

Há que descontar, na cena imaginada por Virginia Woolf, o exagero da admiração de Orlando (cujo nome, aliás, é herdado de um personagem de COMO GOSTAIS, comédia de Shakespeare em que há certa confusão na – para usar o vocabulário de hoje – identidade de gênero). O protagonista do romance é um romântico avant la lettre, que tem ideias “extravagantes” sobre os poetas e a poesia. Dramaturgos dificilmente despertariam fascínio na aristocracia – nem em outros estratos sociais – entre as décadas finais do século XVI e a primeira metade do século XVII. É verdade que o palco inglês conheceu um florescimento milagroso, com uma variedade de autores talentosos, atores celebrados e empresários espertos. Mas o povo do teatro ainda mal se distinguia dos marginais. As casas de espetáculo, com seu teto aberto às intempéries e a plateia onde os espectadores se amontoavam em pé, eram vizinhas de bordéis, tavernas e rinhas de galo (aliás, os próprios teatros por vezes abrigavam outro espetáculo de crueldade animal: o bear-baiting, que consistia em açular cães contra um urso acorrentado). Os dramaturgos, mesmo aqueles que haviam frequentado Cambridge ou Oxford (não foi o caso de Shakespeare), eram figuras do submundo, propensas a brigas e problemas com a lei. Christopher Marlowe, reputado como o poeta que consolidou o verso branco como o padrão do diálogo teatral elisabetano, morreu em uma briga de taverna, em 1593; cinco anos depois, Ben Jonson, o rival mais jovem de Shakespeare, passaria um tempo na cadeia por matar um homem num duelo. Em uma época na qual as divisões religiosas eram candentes, com o catolicismo perseguido ou sob suspeita em um país que abraçara a Igreja Anglicana como religião oficial, era previsível que o teatro sofresse a perseguição dos puritanos. Embora toda trupe londrina tivesse a proteção oficial de um nobre (e o grupo de Shakespeare se converteria, com a ascensão de James I ao trono, em 1603, no King’s Men, a companhia do rei), o teatro era malvisto pelas autoridades municipais.

 

Talvez a maior lacuna na biografia de Shakespeare seja esta: não se sabe exatamente quando, muito menos por quê, ele se juntou à grande aventura do espírito que foi o teatro elisabetano (nota sobre o termo: “elisabetano” pode abranger também a produção teatral sob o reinado de James I, embora os especialistas prefiram distinguir esse período como “jacobino”). Nascido na pequena Stratford-upon-Avon em 1564, William Shakespeare era filho de um luveiro. Na cidade natal, frequentou uma grammar scholl, espécie de escola básica onde o ensino do latim era pesado, mas nunca se sentou nos bancos universitários. Casou-se com Anne Hathaway e teve três filhos: Susanna, em 1583, e os gêmeos Judith e Hamnet, dois anos depois. Anne e os filhos ficaram em Stratford quando, em momento incerto dos anos 1580, Shakespeare se mudou para Londres, então uma florescente mas insalubre aglomeração de 200.000 almas. Hamnet – o nome é uma variante de Hamlet, o mais complexo dos protagonistas das tragédias de Shakespeare – morreria aos 11 anos, em 1596, quando seu pai já era um bem estabelecido autor e ator em Londres.

 

Antes, em 1592, o dramaturgo iniciante já despertava injeva nos veteranos: é publicado um panfleto de autoria de Robert Greene para atacar o jovem que se julgava o único “shake-scene” (“sacode-cena”, trocadilho co o nome do bardo) do país. A rivalidade entre dramaturgos, nem sempre cordial era uma constante nesses primórdios da indústria teatral. Shakespeare atravessou essa cena conflagrada com relativa tranquilidade. Jamais teve uma peça censurada, como ocorreria com outros colegas (Ben Jonson, esse encrenqueiro, chegou a ser preso pela participação em uma peça escandalosa, THE ISLE OF DOGS). A partir de 1599, quando a companhia de Shakespeare montou o Teatro Globe na margem sul do Rio Tâmisa, o dramaturgo passou a ser sócio do empreendimento. Eis um ponto no qual ele se diferencia de Miguel de Cervantes, o outro gigante cujos 400 anos de morte são lembrados neste mês/ano: mesmo depois do sucesso de DOM QUIXOTE, o espanhol viveu sempre na penúria. Bom de negócios, Shakespeare conseguiu comprar propriedades em Stratford e Londres.

 

As companhias teatrais eram então compostas só de homens, com os jovens fazendo os papéis femininos (em uma das muitas boutades autorreferentes das peças de Shakespeare, Cleópatra, em ANTONIO E CLEÓPATRA, repudia a ideia de se ver um dia representada por um garoto com voz “guinchante”). O principal meio de sustento era o público pagante dos teatros, mas as apresentações na corte rendiam prestigio e proteção. Ben Jonson, em um poema de homenagem póstuma ao dramaturgo rival, disse que as peças de Shakespeare encantaram tanto Elizabeth I quanto seu sucessor, James I. Uma lenda muito antiga e muito duvidosa conta que AS ALEGRES COMADRES DE WINDSOR foi composta a pedido da rainha, que desejaria ver o Falstaff de Henrique IV em uma comédia. Aqui e ali, na obra de Shakespeare, há uma nota de lisonja direcionada ao trono. Em HENRIQUE V, peça histórica sobre a batalha de Agincourt (1415), o coro faz uma referência anacrônica a um evento de 1599 – uma rebelião da Irlanda que, previa o texto, seria debelada por um “general da graciosa imperatriz” (o general, no caso, era o conde Essex, que não só fracassaria, em sua missão militar na Irlanda, em 1599, como, dois anos depois, seria decapitado por conspirar contra a “graciosa imperatriz”). MACBETH pode ter sido feita para agradar ao escocês James I – o corajoso e honrado Banquo seria um antepassado do rei. Mas Shakespeare não era um poeta áulico. Ao contrário, foi implacável ao dissecar intrigas palacianas. Não é por acaso que sua obra costuma ser lembrada como termo de comparação, quando se fala, hoje, em séries de TV sobre política, da realista HOUSE OF CARDS à fantasiosa GAME OF THRONES.

 

Tanto em peças históricas como HENRIQUE V como em tragédias como REI LEAR, as voes do soldado, do coveiro, do bobo da corte erguem-se, às vezes em franca oposição aos poderosos, para dar testemunho de suas dores e angústias. Os personagens de Shakespeare são “a legítima prole da humanidade comum”, diria, no século XVIII, o arguto crítico Samuel Johnson. Um exemplo singelo mas eloquente da dignidade do homem simples encontra-se em A TEMPESTADE, a última peça que o autor escreveu sozinho (ainda colaboraria com o parceiro John Fletcher em mais duas), por volta de 1611. No navio que enfrenta a tempestade do título, aparece o desaforado contramestre – mais um desses personagens que, como os coveiros de HAMLET e o porteiro de MACBETH, são identificados só pela profissão. Temendo o naufrágio, o nobre Gonzalo recomenda que ele lembre quem está levando a bordo. O contramestre replica: “Ninguém a quem eu ame mais do que a mim próprio”. Afirmação corajosa: o plebeu diz que sua vida vale tanto ou até mais do que a dos passageiros nobres.

 

O nobre e o plebeu, o elevado e o baixo, o erudito e o popular, o trágico e o cômico mesclam-se com liberdade inaudita na obra de Shakespeare. Nenhuma mistura similar se verificava no teatro grego estudado por Aristóteles em sua POÉTICA – e por isso espíritos classicistas teriam dificuldades com Shakespeare. Heróis como Hamlet, no entanto, têm uma individualidade e uma complexidade psicológica que não se encontrarão nos Orestes e Electras de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Em uma fórmula hiperbólica que ganhou justa popularidade, o crítico americano Harold Bloom diz que Shakespeare “inventou o humano”. Seu magistral domínio do solilóquio - “ser ou não ser, Leis a questão” é apenas o mais famoso – abriu, de fato, novas sendas para a alma dos personagens. De estilistas como Gustave Flaubert a best-sellers como Stephen King, todo escritor que jamais ensaiou a composição psicológica de um personagem é devedor do bardo. Isso vale até para quem professava desprezo por Shakespeare, como o russo Leon Tolstoi.

 

Esse explorador pioneiro da nossa vida interior nada deixou que lançasse luz sobre a própria psicologia. Sim, biógrafos e especialistas sempre insistem: é um erro dizer que se sabe pouco sobre Shakespeare. Eis aí a minuciosa biografia de Park Honan (e há muitas outras) para atestar: com algumas lacunas, sua vida e carreira estão amplamente documentadas. Novas descobertas continuam vindo à tona – um recente exame com raios X e infravermelho no testamento do dramaturgo, por exemplo, mostrou que o documento não foi escrito de uma vez só, como se imaginava, mas teve adendos feitos em 1616, o ano da morte de Shakespeare. As teorias conspiratórias que atribuíam a outras figuras históricas - Francis Bacon ou o conde de Oxford – a autoria da obra shakesperiana hoje estão completamente desacreditadas. No entanto, fica sempre a incômoda sensação de insuficiência. Pois tudo o que se pode dizer sobre a personalidade do grande criador é especulativo. Já se aventou e já se inflou a hipótese de que Shakespeare e seu pai seriam católicos e um tempo em que o adjetivo “papista” era uma atribuição de crime. Provas efetivas? Nenhuma. A magnífica série de 154 sonetos de Shakespeare, publicada em livro em 1609, comporta um enredo erótico no qual figuram um jovem amigo (amante?) e uma misteriosa “senhora escura” (dark lady), e isso bastou para que se tentasse encontrar aí elementos biográficos. O jovem seria o conde de Southampton, a quem Shakespeare dedicou outros poemas, e a dark lady seria a prostituta Lucy Negro. Novamente, é tudo um jogo de adivinhas erudito, e talvez totta a intrincada trama dos sonetos seja mero jogo ficcional.

 

Lê-se em ORLANDO: Shakespeare, como os construtores de catedraia, “trabalhou anonimamente, sem precisar de reconhecimento ou agradecimento”. Nem sequer se preocupou com a edição de suas grandes peças. Algumas foram publicadas, às vezes com texto corrompido, quando ainda era vivo. Outras se perderam – caso de CARDENIO, em colaboração com Fletcher, que ofereceria uma inestimável ponte entre Shakespeare e o outro grande gênio literário de seu tempo: a trama baseava-se em um episódio de DOM QUIXOTE, de Cervantes. Foi só por iniciativa de dois colegas autores que, em 1623, aspeças do bardo foram afinal coligidas em um volume digno de seu talento, o chamado PRIMEIRO FÓLIO. Foi para essa edição que Ben Jonson escreveu o já mencionado poema em homenagem ao falecido rival. “Alma do tempo”!, diz o poema. Sim, William Shakespeare é, ainda e sempre, a alma do nosso tempo.

 

A LIÇÃO TEATRAL

 

James Shapiro publicou dois livros primorosos dedicados a esmiuçar anos fundamentais na vida de William Shakespeare: 1599 trata do ano em que foi construído o lendário Globe, o teatro da companhia do bardo, e 1606 enfoca o ano da criação de uma de suas tragédias mais densas, REI LEAR. Professor da Universidade de Columbia, Shapiro falou a VEJA sobre o autor ao qual devotou sua vida acadêmica.

 

 

 

 

No ano passado, teve certa repercussão a carta escrita por uma professora de inglês ao The Washington Post em que dizia que não via sentido em ensinar Shakespeare aos seus alunos. Que resposta o senhor daria a essa professora?

 

Há pouco tempo, acompanhei uma montagem de ROMEU E JULIETA promovida pelo Publlic Theater, de Nova York, em uma prisão feminina. Eu me emocionei com a reação das presidiárias. Havia ali uma intensidade e uma entrega que raramente vemos no público da Broadway. Suspeito que aquelas mulheres balançariam a cabeça se alguém viesse lhes dizer que Shakespeare não tem mais importância. Ele tem importância, e por isso suas obras são lidas em salas de aula pelo mundo. Mas também é importante o modo como lecionamos. No ensino médio, eu odiava Shakespeare. A credito que ele sé é plenamente compreendido pela representação. Se aquela professora tivesse alguma vez posto seus alunos para ensaiar algumas cenas das peças, duvido que ela escrevesse aquela carta.

 

Autores mais respeitáveis – e o exemplo mais célebre é o russo Leon Tolstoi – já levantaram objeções à moralidade da obra de Shakespeare. Por quê?

 

Tolstoi tinha inveja de Shakespeare, e o mesmo vale para George Bernard Shaw. Não tenho paciência com esse desprezo romântico por Shakespeare, com base em sua moral. O que interessa é a visão profunda que ele nos oferece de ambição, ciúme, racismo, nacionalismo, desejo, amor, ódio. Passados quatro séculos, essa visão ainda ressoa com poder e verdade entre leitores e espectadores.

 

Qual é o grande debate, hoje, entre os especialistas em Shakespeare?

 

É a discussão que divide, de um lado, aqueles que afirmam que Shakespeare escrevia para o teatro, e, do outro, aqueles que dizem que ele escrevi para a página, para ser lido. Eu estou com o primeiro grupo. Quando Shakespeare morreu, em 1616 metade de suas peças ainda não havia sido publicada. Se não fosse pela dedicação de seus colegas atores, que em 1623 publicaram um volume pioneiro do teatro de Shakespeare – o chamado PRIMEIRO FÓLIO –, uma dúzia ou mais de suas peças não teria sobrevivido.

 

Estudiosos como o senhor costumam desmentir a ideia de que se sabe pouco sobre Shakespeare. Mas os documentos existentes nos permitem dizer algo sobre o homem – sua sexualidade, seus gostos, sua personalidade?

 

Sabemos muito sobre Shakespeare, bem mais do que sabemos sobre qualquer outro personagem de seu tempo e de sua classe social. Mas não sabemos das fofocas pelas quais temos curiosidade: quais eram suas crenças religiosas e políticas? Com quem ele dormiu? Que tipo de amigo, marido e pai ele foi? Nunca tive muito interesse em especular sobre isso O que interessa são as peças.

 

O que o senhor perguntaria a Shakespeare se tivesse a oportunidade de conversar com ele?

 

Nenhum manuscrito de suas peças sobreviveu, e creio que eu aprenderia muito se pudesse ver como ele escrevia e revisava seus textos. Eu pediria, portanto, para dar uma olhadinha no manuscrito de REI LEAR, em particular, pois chegaram até nós duas versões dessa peça – uma de 1623, no PRIMEIRO FÓLIO, e uma anterior, de 1608, que tem um final mais sombrio.

 

Não é só meu manto cor de tinta,

Nem roupas habituais de tom solene e lúgubre,

Nem gemidos vazios de suspiros forçados (…)

Que mostram o que sou. Sim, tudo isso parece,

Porquanto são ações que alguém deve encenar.

Mas eu tenho algo em mim além da encenação”

Hamlet, ato I, cena II

 

 

SUCESSÃO DE DINASTIAS

Shakespeare nasceu, cresceu e começou sua carreira no reinado de Elizabeth I, um tempo de expansão comercial e militar da Inglaterra, marcado pela vitória naval sobre a Armada Espanhola, em 1588, A dinastia Tudor acabou com Elizabeth, que nunca se casou. Ela foi sucedida pelo filho da inimiga Mary Stuart, o escocês James I – que estenderia sua proteção para a companhia de Shakespeare.

 

 

 

 

ENTRE O IDEAL E A REALIDADE

 

Miguel de Cervantes Saavedra tentou a vida como soldado. Foi ferido na batalha de Lepanto e feito cativo em Argel. Nunca encontrou o reconhecimento que esperava da Espanha, mas dessa desilusão nasceu o seu personagem imortal: DOM QUIXOTE. Por Sérgio Rodrigues.

 

A imagem é mais velha e sábia do que todos nós: o cavaleiro esguio em seu cavalo magro, ao lado do escudeiro gordinho montado num burro, contra uma paisagem árida onde se veem, ao longe, moinhos de vento. Foi atualizada nos últimos quatro séculos por tantos pintores e ilustradores, dos mais renomados aos mais chinfrins, que ocupa lugar de honra na galeria de clichês culturais à qual praticamente todos os seres humanos – letrados e não letrados – têm acesso. Se essa galeria não se destaca pela quantidade de obras, o bom gosto também não é seu ponto forte: nos varais de feira hippie, a apropriação pop da alta costura costuma exibir o pôster da dupla ao lado daquele em que o mendigo de chapéu-coco encara a câmera co olhar suplicante. A associação pode ser brega, mas não é gratuita: com sua mistura comovente de nobreza e ridículo, o personagem cinematográfico do vagabundo criado por Charles Chaplin no início do século XX é um dos incontáveis filhos do engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha.

 

A prole desse senhor é tão vasta quanto o mundo que conseguimos enxergar daqui. Um juízo crítico unânime em nosso tempo, quase um lugar-comum, sustenta que a obra burlesca que teve êxito imediato ao ser publicada pelo ex-soldado espanhol Miguel de Cervantes em dois volumes, em 1605 e 1615, é o primeiro romance moderno – ou mesmo, segundo os mais empolgados, o romance que contém em si todos os roances escritos desde então. O crítico Miguel de Unamuno, conterrâneo de Cervantes, o chamou de “Bíblia espanhola”. O americano Harold Bloom escalou seu autor ao lado de William Shakespeare no núcleo duro dos “escritores ocidentais centrais”, acrescentando que “ninguém desde então os igualou, nem Tolstoi nem Goethe, Dickens, Proust ou Joyce”. Compreender o que o Quixote significou para a literatura é mais fácil do que dar conta de que, após tudo isso, fica faltando dizer sobre seu milagre: por que o personagem concebido por um homem que dedicou a melhor parte de sua vida à espada e não à pena (e que, como o inglês com quem compartilhou a genialidade e o momento histórico, estava longe de ser um dos grandes eruditos de seu tempo) deixou para trás de forma tão decidida a província das letras onde nasceu e montou acampamento na imaginação coletiva da espécie; Como dar conta do engenho do engenhoso fidalgo?

 

Numa leitura superficial, DOM QUIXOTE é só a narrativa das aventuras tragicômicas de um cinquentão remediado chamado Alonso Quixano, fidalgo de baixa extração. O juízo de Quixano, informa o narrador logo de saída, foi avariado pela leitura dos romances de cavalaria que tinham sido populares no fim da Idade Média, com seus heróis inverossímeis que dedicavam a vida a corrigir as injustiças do mundo – uma versão de época dos super-heróis contemporâneos. Como Bruce Wayne virando Batman em sua caverna, o alucinado Quixano se transforma em Dom Quixote pela força da imaginação e de alguns adereços improvisados. Acompanhado de um escudeiro realista, sai em incursões pela região da Mancha,no coração da Espanha, atrás de oportunidades para realizar seu destino heroico e impressionar sua amada Dulcineia del Toboso, que não é mais real do que o resto. O homem confunde tudo: acredita que moinhos de vento sejam gigantes ardilosos disfarçados de moinhos de vento, toma prostitutas por nobres donzelas e frades vestidos de negro por feiticeiros diabólicos. A paisagem prosaica, mundana e dura da Espanha de princípios do século XVII transfigura-se aos seus olhos delirantes. Sancho Pança, o escudeiro que só pensa em comer e beber enquanto sonha com o governo da ilha que seu mestre lhe prometeu como recompensa por seus serviços, é leal, mas cético. Com os pés do chão, ajuda o leitor a rir do demente. Como não rir? No entanto…

 

A história logo se complica – e se faz revolucionária – em conteúdo e forma. No primeiro caso, os personagens principais, inicialmente encarnações chapadas da dualidade entre ideal e real, transcendência e pragmatismo, poesia e prosa, não demoram a ganhar contornos e sombras demasiado humanas. A certa altura já não parece tão louco imaginar que o “louco” Quixote sabe bem o que faz, usando a falta de juízo coo álibi para a afirmação de uma vontade radicalmente livre que não se curva ao Império, à Igreja nem a poder algum. E Sancho, a princípio porta-voz de um bom-senso camponês, torna-se cada vez mais sábio e complexo sob a influência do amo. No segundo volume, quando uma duquesa quer obrigá-lo a reconhecer a loucura do cavaleiro a quem serve, faz em vez disso uma tocante declaração de amor ao sujeito. E no capítulo final, aquele em que Quixano, derrotado e renegando sua condição de Dom Quixote,se recolhe para morrer, o amigo tenta convencê-lo a retomar a fantasia em tom duro: “Cale-se, por Deus, volte a si e deixe de histórias”. Mas Quixano deve voltar a si ou voltar para fora de si? Deve deixar de histórias ou, ao contrário, mergulhar nelas? A humanidade contraditória dos dois amigos – como a dos personagens secundários, inclusive os mais incidentais, quase todos dotados de voz própria por um narrador que modernamente se abstém de julgamentos moralistas e abraça as ambiguidades – vai se consolidando à medida que a trama se adensa também no plano formal.

 

Em DOM QUIXOTE, a literatura descobriu que podia fazer da consciência de ser literatura um tema literário. Tendo nascido de uma resposta aos livros, isto é, aos romances de cavalaria que satiriza e homenageia, o romance de Cervantes segue em frente entre dobras metalinguísticas e histórias dentro de histórias. O bastão de narrador é assumido em parte por um certo Cide Hamete Benengeli, historiador que é apresentado como tradutor – do árabe para o espanhol – e comentarista daquelas aventuras. Outros personagens também tomam a palavra para contar as próprias peripécias, num jogo que chega ao requinte de incluir, no segundo volume, personagens que leram o primeiro – sem falar da crítica à “continuação” apócrifa e medíocre publicada em 1614 sob o pseudônimo de Alonso Fernández de Avellaneda, que irritou Cervantes profundamente. O que poderia ser mais moderno – e mesmo pós-moderno – do que borrar as fronteiras de arte e vida a fim de levar o leitor a se perguntar quanto haverá de fictício no real? Ou de realidade na ficção? Fenômeno editorial na Europa pelo seu divertido valor de face, com traduções para o inglês, o francês e o italiano num intervalo de poucos anos, a obra de Cervantes passou por um período de incubação em que era vista como mero entretenimento. Mas não demoraria a ganhar uma profusão de leituras condizentes com sua profundidade e riqueza.

 

O século XX viu o apogeu dessa tendência. Especialista em virar a lógica literária do avesso, Franz Kafka imaginou Sancho Pança como o verdadeiro herói e Dom Quixote como seu demônio obsessor. Vladimir Nabokov declarou-se impressionado co o compêndio de maldades abarcado pelos dois volumes. Em seu ensaio “Um romance para o século XXI”, Mario Vargas Llosa afirma que a noção de liberdade presente no livro “é a mesma que, a partir do século XVIII, terão na Europa os chamados liberais” - e ainda que “o fundamento da liberdade é a propriedade privada”. Salman Rushdie lu ali a prova de que “uma obra literária não tem de ser apenas cômica, trágica, romântica ou histórico-política: se for concebida direito, poderá ser muitas coisas ao mesmo tempo”. Jorge Luis Borges situou o Quixote no centro de um de seus contos mais sutis, em que um escritor chamado Pierre Menard concebe a tarefa absurda de escrever outra vez a obra de Cervantes – não reescrevê-la ou copiá-la, mas escrevê-la de novo, idêntica, como se fosse a primeira vez. Harold Bloom, para quem o Quixote “está em guerra com o princípio de realidade de Freud, que aceita a necessidade da morte”, explica assim a diversidade de leituras da qual esse parágrafo é uma pequena amostra: “Nenhuma interpretação crítica da obra-prima de Cervantes concorda ou mesmo se assemelha à de qualquer outro crítico. DOM QUIXOTE é um espelho posto não diante da natureza, mas do leitor”. Pode-se argumentar que o romance, como gênero, não aspira a outra coisa.

 

À polifonia crítica corresponde uma série de controvérsias biográficas. Para alguém que ficou tão famoso em vida, o que sabemos sobre o autor do QUIXOTE e das também notáveis NOVELAS EXEMPLARES, entre outras obras menores, é pouco. Nem um misero retrato escapa à contestação. Seria mesmo um fidalgo, como seu infeliz pai tentou repetidamente convencer a Justiça de que era? Um cristão-novo? Teve educação formal? Infelizmente, Cervantes amava a discrição e Jean-Jacques Rousseau só inventaria a autobiografia literária mais de um século e meio depois, como lamenta o francês Jean Canavaggio, um dos principais biógrafos do homem “cuja intimidade nos escapa de forma irremediável”. Só no século XVIII descobriu-se a certidão que provava o nascimento de Miguel na cidade universitária de Alcalá de Henares, na periferia de Madri – várias localidades reivindicavam a glória até então. A data pode ter sido 29 de setembro, dia de São Miguel, embora o batismo só fosse feito em 9 de outubro. O ano não se discute: 1547, no auge do império espanhol, a grande potência da época, e no início do chamado Século de Ouro, como ficou conhecido o apogeu das artes e ciências no país – que o próprio Cervantes acabaria por sintetizar. Seu avô era advogado da Inquisição, instituição poderosa em um momento histórico marcado pela Contrarreforma e pela expulsão ou conversão de judeus e muçulmanos (quando o padre e o barbeiro decidem queimar os livros de cavalaria de Quixano, é impossível não pensar num auto de fé do Santo Ofício). Seu pai era um pequeno cirurgião acossado por credores. O período da infância e adolescência é um borrão. Vamos encontrá-lo no início da juventude fugindo para a Itália depois de ferir um rival em duelo, fato que, tendo peso na história de um escritor orgulhoso da influência da literatura italiana, foi ainda mais relevante para o homem de ação.

 

É cheia de armadilhas a atividade de rastrear pistas da vida de um escritor em sua ficção, à qual se dedicaram gerações de biógrafos de Miguel de Cervantes, mas o famoso discurso em que Dom Quixote defende a superioridade da espada sobre a pena parece combinar co o autor. Ele lutou em 1571 na grande batalha naval de Lepanto – um golfo da Grécia –, em que o Império Otomano sofreu uma dura derrota diante da chamada Liga Santa, reunida pelo papa Pio V para retomar o controle da Ilha de Chipre e defender o Mediterrâneo. Ali perdeu a mão esquerda – ou apenas os movimentos dela, nem isso é certo – para um tiro de arcabuz, razão do apelido “o manco de Lepanto”. Seus infortúnios estavam só começando. Em 1575 na viagem de regresso à Espanha, foi capturado por piratas e mantido preso em Argel, experiência que transfiguraria no episódio do Quixote em que um ex-cativo rouba a cena para contar sua história durante o jantar em uma estalagem – significativamente, assim que o engenhoso cavaleiro acaba de enunciar sua comparação entre armas e letras. Cervantes só foi libertado cinco anos depois, após diversas tentativas frustradas de fuga, mediante pagamento de resgate.

 

De volta à Espanha de Felipe II, encontra um pais que começa a decair política e economicamente, o que contribui para que não chegue nem perto de colher os louros de seu heroísmo. Casa-se, adora o nome de Saavedra e passa a se dividir entre a literatura – a princípio sem sucesso – e o emprego como coletor de impostos. Acusado de inépcia ou malversação, vai parar de novo na cadeia. Supõe-se ter sido nessa última temporada atrás das grades que Cervantes imaginou o plano do Quixote, “concebido num cárcere”, como ele afirma no prólogo. Perto do fim de suas aventuras imortais, o fidalgo de miolo mole que conseguiu escapar da maior de todas as prisões – a do tempo – profere uma de suas mais famosas frases de pôster de feira hippie, que nem por isso é menos universal e arrepiante: “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os céus deram aos homens”.

 

 

Veio a dar com o mais estranho

pensamento com que jamais deu algum

louco neste mundo, e foi que lhe

pareceu conveniente e necessário (…)

fazer-se cavaleiro andante e sair

pelo mundo com suas armas e seu

cavalo em busca de aventuras”

Dom Quixote, capítulo I

 

MONARCAS CATÓLICOS

A vida militar e literária de Miguel de Cervantes transcorreu sob dois reis espanhóis. Felipe II reinou de 1556 até sua morte, em 1598. Engajou o país na luta contra os turcos otomanos, na batalha de Lepanto, da qual Cervantes participou, em 1571. Seu filho e sucessor, Felipe III, que viveria até 1621, mostrou-se ainda mais rígido na ideologia de unidade nacional sob o catolicismo: assinou p édito que expulsou da Espanha os mouriscos, descendentes dos muçulmanos que viviam havia séculos no país.

 

 

VISÃO PLURAL

 

O crítico americano William Egginton, professor de literatura espanhola e latino-americana da Universidade Johns Hopkins, professa uma tese ousada: não existia ficção antes de Miguel de Cervantes. Foi o espanhol que criou a nova maneira de investigar a subjetividade que modernamente entendemos como tal. O autor de THE MAN WHO INVENTED FICTION (O Homem que Inventou a Ficção) falou a VEJA sobre a revolução promovida pelo gênio espanhol.

 

 

O senhor afirma que Cervantes inventou a ficção moderna. O crítico Harold Bloom diz que a obra de Shakespeare representa a “invenção do humano”. As duas ideias são relacionáveis?

 

Creio que sim. Tanto Cervantes quando Shakespeare exploraram os limites do que significava ser humano em um mundo no qual o lugar da humanidade estava mudando rapidamente. Cervantes criou um modo inteiramente novo de escrever sobre as limitações de seus personagens e sobre a incompatibilidade de suas diferentes percepções do mundo. Ele aprendeu a mudar o ponto de vista de suas narrativas, da descrição exterior dos personagens para o retrato de como eles percebem o mundo. É como se o leitor entrasse em um molde oco no mundo do livro, para ver através dos olhos dos personagens.

 

Dom Quixote e Sancho Pança são personagens reconhecidos até por quem nunca leu Cervantes. Por quê?

 

Certos personagens tornam-se tão icônicos que deixam até seus autores para trás, entrando no imaginário do público como forças independentes. Quixote e Sancho estão nessa categoria. Para alcançar essa fama extraliterária, uma obra de literatura precisa, em primeiro lugar, estabelecer-se com firmeza entre o público, de modo que seus personagens e cenas ressoem entre os leitores. É o que na linguagem de hoje chamamos de “viralizar”. E a obra de Cervantes “viralizou” já no século XVII, na Espanha. Quixote e Sancho eram personagens de teatro de bonecos, e suas efígies apareciam em paradas populares.

 

O senhor demonstra que Cervantes foi crítico da ideia oficial de nacionalidade que a realeza propagandeava. Não é um paradoxo que hoje o escritor seja um símbolo da Espanha?

 

Eu diria que isso é, menos que um paradoxo, um caso de gentrificação. Considerada a dimensão sem paralelo de Cervantes na literatura mundial, a Espanha teve de incorporá-lo. Para ser justo, é preciso admitir que várias nações se veem nessa posição diante de grandes artistas que foram críticos de sua própria sociedade. Ainda assim, é preciso ficar vigilante: ler Cervantes e DOM QUIXOTE como símbolos de fervor patriótico seria corromper o significado da obra.

 

Cervantes, no entanto, foi um valoroso soldado da espanha. Sua obra mostra admiração pela vida militar, não?

 

Cervantes tinha enorme admiração pelos soldados e desdém pelos políticos que desperdiçavam a vida desses soldados. Dom Quixote faz um famoso “discurso sobre as armas e as letras”, que é uma peça magistral de cirurgia literária: exalta a coragem, a lealdade e a força de quem está disposto a dar a vida por uma causa maior, mas ao mesmo tempo denigre os aparatos estatais que tratam heróis de guerra como bucha de canhão.

 

Se o senhor tivesse a oportunidade de conversar com Cervantes em uma taverna, o que perguntaria a ele?

 

Só perguntaria depois de muitos copos de vinho: quando ele esteve cativo dos mouros, por cinco anos, em Argel, houve uma história de amor com alguma mulher local, coo vemos na história do cativo que aparece em DOM QUIXOTE? Mas Cervantes tinha um profundo senso de honra: é provável que nem o vinho nem 400 anos no túmulo fossem suficientes para que ele cometesse uma indiscrição.

 

 

Fonte: Revista VEJA/ Especial 400 anos em 27/04/2016