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Feira do Livro Internacional de Sharjah
Feira do Livro Internacional de Sharjah

A AMBIÇÃO DE SER A MAIOR FEIRA DO LIVRO DO MUNDO

 

SHARJAH INTERNATIONAL BOOK FAIR

 

A meta é ousada. No curto prazo, a Feira do Livro Internacional de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, espera ser reconhecida como uma das três maiores de todo o mundo. O passo seguinte não é menos arrojado: ser a maior e mais relevante do planeta, deixando para trás gigantes como a Feira de Frankfurt, na Alemanha, de Calcutá, na Índia e de Londres, na Inglaterra, por exemplo. A convite da organização do evento, a reportagem do Correio do Povo viajou a Sharjah, cidade a menos de 30km de Dubai, sede do evento entre 1 e 11 de novembro de 2017. E voltou de lá com a percepção de que, senão em relevância, pelo menos em termos de tamanho a questão não é se a feira nos Emirados Árabes será a maior, mas sim quando.

 

Os números relacionados ao evento em Sharjah, são todos superlativos. O Expo Centre, que recebe a feira, tem mais de 40 mil metros quadrados. Toda a área foi ocupada por estandes de 1.690 expositores e ainda houve a necessidade de áreas extras, como à destinada às crianças, onde havia sete diferentes casas, cada uma com um workshop diferente destinado aos pequenos acontecendo de forma paralela. Em sua 36ª edição, o público foi de 2,38 milhões de pessoas. Cerca de 400 autores convidados, de 64 diferentes países participaram de um total de 2,6 mil atividades. O volume de negócios alcançou um total de 56 milhões de dólares (180,8 milhões), um aumento de 17% em relação ao ano anterior.

 

Levando-se em conta que há poucos anos os números não chegavam a um terço disso, é fácil imaginar a curva de crescimento da Feira do Livro de Sharjah e aonde ela pode chegar em um futuro nada distante. Para ser conhecida como a maior de todas em público ainda é preciso superar a Feira de Calcutá, na Índia que tem levado 1,5 milhões a cada edição. Curiosamente, a concorrência também conta com um vizinho, já que Abu Dhabi segue um modelo parecido, com um evento anual de proporções semelhante.

 

A questão da relevância, pelo menos de vista ocidental, tende a ser mais complicado. O público, mesmo superando a casa dos milhões, é quase que todo local. Das centenas de autores convidados, a grande maioria é de escritores não tão conhecidos no Ocidente, provenientes do Oriente Médio. Mesmo personalidades do mundo árabe, por exemplo, passariam despercebidas em outros países, como Wasim Akram, uma lenda do críquete e uma das estrelas do evento.

 

O programa de atividades foi extenso e abarcou todas as áreas, ainda que uma parte considerável dos painéis e discussões não contasse com traduções nem mesmo para o inglês. Não que a organização da Feira de Sharjah não se movimente no sentido de estabelecer pontes. Neste ano, o Reino Unido foi o convidado de honra, o que fez com que a presença de autores britânicos fosse considerável. No ano que vem (2018), em agosto, será a vez da Feira de Sharjah ser a convidada da Bienal do Livro de São Paulo. (http://www.icarabe.org/Sharjah-Bienal-do-Livro-de-Sao-Paulo)

 

Afora o lado da Feira voltado para o público, há também na cidade a intenção de se tornar uma espécie de polo literário a partir da inauguração, no final de outubro, do Sharjah Publishing City, a primeira zona franca dedicada à indústria do livro no Oriente Médio, que deve reunir editoras, distribuidoras e impressores internacionais. Neste aspecto, conta a favor de Sharjah o fato de ser considerada como o centro cultural dos Emirados Árabes Unidos. “A Feira foi bem interessante. A maioria dos livros era em árabe, mas as exibições e os workshops eram muito ricos e todo o ambiente era contagiante. Outro aspecto interessante foi o programa de publicações para incrementar o mercado editorial e a qualidade dos livros. Li atentamente e espero que possamos fazer algo similar na Itália, onde temos grandes autores, mas um mercado ainda relativamente pequeno”, afirma a ilustradora Benedetta Frezzotti, convidada do evento e que comandou workshops na área infantil.

 

ATIVIDADES CULTURAIS

 

Ao longo dos 11 dias do evento, a Feira de Sharjah teve quase três centenas de atividades, que iam desde a literatura infantil, passando pelas histórias em quadrinhos e culinária, por exemplo. Diariamente, aconteciam pelo menos 15 painéis e discussões em nove diferentes espaços – dos quais três contavam quase sempre com tradução simultânea para o inglês. A reportagem do CP acompanhou uma série desses debates, alguns resumidos a seguir.

 

O Político que Invadiu Hollywood

Autor de “Sua Resposta Vale um Milhão”, romance que originou o filme “Quem Quer Ser um Milionário”, o indiano Vikas Swarup lembrou como se tornou um escritor, a partir da necessidade de dar mais vazão à criatividade, algo impossível na função de diplomata. Também criticou a obsessão das novas gerações por estar sempre conectada. “Usem a tecnologia para ler melhor, vocês têm a tecnologia a seu favor. Hoje em dia estamos conectados no Facebook, mas não nos falamos ao vivo. Se engajem mais no mundo real”, afirmou.

 

Podem os Escritores Promover a Paz?

O encontro reuniu três autores ainda não traduzidos no Brasil: o turco Burhan Sonmez, o indiano Ryan Lobo e o iraquiano Ali Ghadeer. Mais do que discutir a paz, o painel girou em torno do perdão, tema central das obras mais recentes de Sonmez (“Istambul Instambul”) e de Lobo (“Mr Iyer Goes to War”). Ele próprio um torturado pela polícia turca, Somez avalia que o perdão é a maior forma de revanche contra o agressor. “Temos sempre o nosso livre arbítrio no final”. Lobo, por sua vez, foi autor de um projeto ambicioso: como documentarista, acompanhou o retorno de um líder da guerrilha da Libéria que, após “uma revelação divina”, arrependeu-se dos seus crimes – que incluíam assassinato, estupro e canibalismo – e voltou às famílias das vítimas para pedir perdão. “Algumas pessoas querem seguir em frente e o perdão faz parte deste processo”, aponta o autor.

 

As Alegrias da Escrita

O painel teve a participação da norte-americana Tayari Jones, do nigeriano Leye Adenle e do iraquiano Saad Mohammed Ibrahim – nenhum deles com obras com tradução para o Brasil –, falando sobre seus processos de escrita. Bem-humorado, Adenle brincou que, por ser autor de tramas policiais, é uma boa pessoa: “Todo autor de história de crimes é uma boa pessoa poque pega cada traço ruim, cada pedaço de escuridão e coloca nos seus livros”. Ibrahim por sua vez relembrou a infância com a mãe que não sabia ler e escrever, mas era uma ótima contadora de histórias, que alimentou sua paixão pela literatura. “Escrever é uma paixão, mas uma paixão que precisa ser alimentada”. Tayari, por sua vez, destacou a importância que as redes sociais têm ganho no contato direto com os leitores. Ao final, questionada se era a voz de uma geração de leitores negros nos EUA, rechaçou o rótulo: “Uma pessoa não pode representar outra voz que não a dela. Não é bom para qualquer autor acreditar que ele represente a voz de uma geração, de um grupo”.

 

Por Que Autores Escrevem sobre Pessoas, Lugares e Eventos do Passado?

A questão foi o mote do painel que teve o sérvio Vladimir Pistalo, a paquistanesa Maha Philips, a britânica Nicola Cornick e o egípcio Farooq Garwish. Em comum entre os autores, a necessidade de voltar ao passado para entender o presente. “Nosso entendimento seria muito raso se não entendêssemos o nosso passado”, observa Pistalo, autor de uma biografia do inventor sérvio Nicolas Tesla. Quando perguntado por que assistimos a tantos erros do passado se repetirem, Gerwish mirou nos governantes ao redor do mundo: “Políticos não leem sobre História. E se leem, pelo visto, não entendem nada, deveriam voltar para a sala de aula”.

 

AHMED AL ALMERI: NOSSO FOCO ESTÁ EM TUDO

 

Presidente da Autoridade do Livro, Ahmed Al Almeri é o nome que comanda a Feira do Livro Internacional de Sharjah.

 

 

Caminhando pela feira se percebe a presença de muitas crianças e jovens, mesmo em painéis com uma temática mais adulta. Da mesma forma, há uma área toda dedicada a este público e uma série de atividades ao longo de toda a Feira. O público jovem é o grande foco da Feira do Livro de Sarjah?

 

Os jovens são, é claro, parte importante de toda a programação. Mais do que resultados financeiros, o importante é criar um público leitor. Mas não diria que nosso foco está apenas nos jovens. Nosso foco está em tudo, como fica evidenciado em nossa programação com espaço para temas que vão desde a culinária às histórias em quadrinhos.

 

 

Qual o objetivo em ter uma programação tão diversificada?

 

Acreditamos que é possível construir uma nação que adore ler mais do que adore os livros em si. O que tentamos fazer é sempre atingir tais metas de várias formas, Através da seção de história em quadrinhos, da seção de gastronomia. Porque, veja, a parte de culinária é também sobre nações. No ano passado tivemos chefs brasileiros apresentando seus trabalhos. Mas para fazer isso, ele estava falando do seu livro, da cultura brasileira, de como fazia tudo, das pessoas. E as pessoas entendem culturas diferentes. Temos

também a E-zone, sobre e-books e sobre como desenvolver e-books. Temos a seção infantil. Então, toda essa diversidade mostra o quão importante são os livros e a construção das nações.

 

 

O senhor comentou acerca dos e-books. É um desafio hoje em dia formar novos leitores competindo com sites como o Facebook, o Twitter ou mesmo aplicativos como o WhatsApp, nos quais a linguagem é completamente diferente e muitas vezes, sequer correta do ponto de vista formal?

 

Ok, então vou lhe dizer uma coisa. Também isso pensamos, temos um espaço para as mídias sociais. Também nisso estamos focados. De qualquer forma, é uma tendência. Daqui algum tempo, aparecerá outra coisa nova. Mas o que tentamos fazer é, mesmo caso seja apenas uma tendência, uma moda, é promover a leitura. Digamos que alguém famoso diga ou publique em suas redes sociais: “Olha, eu li esse livro. Seja o livro que for, A, B ou C”. Todos vão comprar o livro para saber do que se trata. Veja, então podemos usar a internet, as mídias sociais para promover a leitura, para promover os livros.

 

 

É minha primeira vez na Feira do Livro Internacional de Sharjah…

 

No ano passado, tivemos dois milhões de visitantes, mais de 1,6 mil editoras, se não me engano. Um total de vendas na casa dos 48 milhões de dólares.

 

 

Sim, mas o que ia perguntar ao senhor é, em termos de comparação. A Feira sempre foi grande nestas proporções? Quando é que houve este salto?

 

Vou te contar uma coisa. Em 1982, tivemos apenas seis editoras participantes e ninguém comprou um livro. Sequer um livro foi vendido. Todas as editoras voltaram da feira com seus livros, todos eles. Então houve quem falasse à Vossa Alteza (desde a primeira edição, a feira é realizada sob orientação do Sultão bin Muhammad Al-Qasimi, que governa o emirado de Sharjah e integra o Conselho Supremo Federal dos Emirados Árabes Unidos): “Cancele a feira, é um grande fracasso”. E ele respondeu: “Não, vamos esperar”. Agora, você pode ver no que nos tornamos: 1.650 editoras, de 60 países ao redor do mundo. É diferente.

 

 

E a partir desta realidade, onde se projeta novo crescimento? O que o senhor espera em termos de futuro para a Feira do Livro de Sharjah?

 

Esperamos ser mais conhecida, mais famosa, mais popular. Nosso objetivo é ser uma das três principais feiras de todo o mundo. E então depois, ser a primeira de todas.

 

 

E do ponto de vista pessoal, sendo a Autoridade da feira, qual o seu sentimento pessoal caminhando aqui pelos estandes com tanta gente, qual a maior satisfação em tudo isso?

 

Eu estou muito feliz. Muito. Feliz é até pouco para descrever o que eu sinto vendo tudo isso aqui. É o meu grande teste anual.

 

 

Fonte: Correio do Povo/Carlos Corrêa (ccorrea@correiodopovo.com.br) em 25/11/2017.